A queda do Muro de Berlim marcou o início de uma verdadeira orgia ideológica. O capitalismo e o Ocidente teriam triunfado sobre o comunismo e o Oriente. a liberdade teria vencido a opressão, decretando o fim da História.

Mas a História, como sempre, continuou e desembocou na pior crise do sistema capitalista, que se irradiou para o mundo com a queda de Wall Street.

O crescimento da crise econômica e política na Grécia e seus reflexos europeus marcam duas ironias.

No berço da democracia ocidental, que desempenha um papel tão importante nas ideologias pós-Guerra Fria de Oriana Fallaci e Samuel P. Huntington, crescem os partidos de extrema direita irracional e violenta que pregam racismo e ditadura. Este fato nos lembra que autoritarismo e tirania também marcam a história das idéias na Grécia desde os tempos de Sócrates, espalhando-se para o Ocidente junto com o azeite de oliva e a cerâmica ateniense. Autoritarismo e tirania que, aliás, voltaram para a própria Grécia durante a Guerra Fria na forma de uma Ditadura Militar muito parecida com a brasileira.

A Europa capitaneada pela Alemanha parece não saber como lidar como a Grécia. Ora a trata como um país ocidental e, portanto, digno de auxilio e amparo. Ora a exclui como se fosse uma infecção oriental dentro de um Ocidente neo-liberal que precisa ser purificado.

Purificação, portanto, é um tema importante dentro da Grécia e fora dela. Mas do que os gregos de extrema direita e os europeus querem se purificar?

O povo grego nas ruas desempregado ou em greve tem sido sistematicamente agredido pela polícia e pela extrema direita gregas. A Europa prefere negociar com um governo incapaz de adotar as medidas desejadas por falta de legitimidade popular. Herr Merkel não dá a menor atenção ou consideração às reclamações, às justas reclamações, que ecoam pelas ruas de Atenas.

Nas ruas, entretanto, está a população, depositária primeira da soberania popular e artífice única da democracia. Portanto, o que a extrema direita e os líderes europeus querem exorcizar na Grécia é a democracia. A purificação do berço do Ocidente com a supressão da liberdade e da soberania popular abrirá espaço para uma nova onda de tiranias européias? Esta, meus caros, é a verdadeira pergunta.

As contradições ideológicas deste momento são mitas. E justamente por isto são extremamente perigosas. Nada está certo ou garantido. A falência da democracia na Grécia pode ou não contaminar o continente europeu. Mas mesmo que não contamine, acarretará uma imensa fratura nas ideologias que pregam uma suposta superioridade do Ocidente ou um conflito entre este e o Oriente.

E por falar em Oriente, alheia à todas as contradições européias e ocidentais, a China segue investindo na Grécia onde comprou até o Porto Pireu. E o Irã, para surpresa geral, começou a vender petróleo subfaturado para os gregos como se a Guerras Médicas (que opuseram persas e gregos) tivessem acabado. Todas as ideologias que pregam um conflito mortal e permanente entre Ocidente e Oriente recorrem às Guerras Médicas e seus desdobramentos, mas nenhuma é capaz de explicar a conduta humanitária e pacificadora tomada pelo Irã (que estendeu a mão para o suposto inimigo mortal eterno justamente no momento em que o Ocidente parece tentado a esganá-lo por razões monetárias).