Aproveitando o ensejo de novembro, gostaria de me dirigir diretamente às
pessoas brancas que não desejam ser racistas e que guardam sinceros
compromissos e fazem luta pelo fim das desigualdades. Deixo nítido que
minhas palavras querem seguir o bom caminho da sinceridade. Antes que
alguém pense, não há nenhuma ironia ou tentativa de culpabilização; me
inspiro nos encontros que tenho tido com muita gente boa que condena o
racismo e é antirracista. Então, modestamente, quero me propor a colaborar.
Alerto também que não se trata de uma mera generalização: sou capaz de
compreender os contextos e os diversos nos diversos. Mas entender e
enfrentar desigualdades e discriminações exige, ironicamente, algum nível
de generalização, pois de outro modo, as coisas podem passar batidas, ou
por outra, ficar na conta das circunstâncias, onde tudo se justifica.

Primeiro, nós, as pessoas negras organizadas ou que na alegria ou no
padecer alimentamos ou pretendemos alimentar nossa consciência negra, somos
muito gratas às pessoas brancas que são antirracistas. Só falo de gratidão
porque, dada a gravidade da situação de nossa gente, são nobres a
solidariedade política e o repúdio ao racismo. No fundo mesmo, acho que
isso não deve ser uma mera questão de bondade, mas uma obrigação histórica,
um dever político e uma concepção ética libertária. A mim, pelo menos, isso
parece condição fundamental para radicalizar na luta contra as opressões
raciais. Mas vejam bem: nossa gratidão não nos amarra a vocês e nem pode
nos ofuscar na crítica aos seus lugares de privilégios.

Nesse contexto, coisa importante para vocês, eu acho, é reconhecer, sem
culpa, seus privilégios. Sejamos todxs solidárixs, mas não neguem que suas
histórias também têm cor. É branca. Se vejam na sua cor. Claro, isso pode
ser um tanto constrangedor para quem se julga no ápice dos sentidos
revolucionários. Mas essa diferença é fundamental para nossas alianças.
Assim saberemos que não somos iguais e que nossas diferenças estão também
situadas no mundo racista. E vocês, num lugar de privilégio. E isso, minha
gente, atinge todas as dimensões da vida, inclusive a política militante de
esquerda. Então, vale aproveitar seus privilégios para colaborar na
construção de outras possibilidades, inclusive a de fim dos privilégios.

Reparem que nós, pessoas negras de luta, nos tornamos
?sobresobrecarregadas? porque temos que saber o que vocês sabem do
pensamento e produção de esquerda; temos que saber o que nossos pares
elaboram; temos que construir pensamentos e produzir sobre eles. Ou seja,
temos que saber dos saberes que vocês, seus intelectuais e seus ancestrais
produziram, e temos que saber dos nossos e construir uns tantos outros. E,
pelo que tenho percebido, poucos de vocês gastam tempo estudando a produção
negra antirracista. Bom, se vocês, como nós, têm pouco tempo, pelo menos
têm podido escolher fazer assim, e para nós essa escolha não é possível.
Pode ser também que achem que a produção negra não é teoria, mas
diagnósticos em ?causa própria?.

Compreendo suas preocupações científicas, mas compreendam também que as
produções de vocês e seus pares, ao nos negarem e ao invisibilizarem seus
privilégios, se tornam também uma defesa própria. Seus conhecimentos, suas
epistemologias legitimadas e reconhecidas, em muito negligenciam sobre o
racismo e, portanto, não o enfrentam devidamente. Então, temos mais
problemas científicos e metodológicos do que pensamos?

Também nos sobrecarregamos nas lutas coletivas ampliadas, porque, por
exemplo, embora tenhamos inimigos comuns, quando se trata do racismo
precisamos construir o debate e nos enfrentar também com vocês. Às vezes
acho que muitos se acostumaram a se achar libertários e cegaram quanto às
suas próprias condições e relações com os outros, ou melhor, não veem que
não se apartam delas ao querer mudar o mundo. A expressão popular ?se
enxergar? cabe bem aqui.

Tudo isso se eleva ao cubo, quando somos mulheres negras e conscientes
disso.

É preciso também reconhecer que na maioria das vezes vocês não têm como
perceber ou sentir o que a gente sente, e que, portanto, é compreensível
que algumas opressões que por ventura denunciamos nos espaços onde estamos
todos juntos não entrem nas suas cabeças. Vocês decerto se surpreendem, e
podem até classificar como mania de perseguição ou incapacidade de
compreender o contexto. Nesses casos, é muito importante acionar aquela
confiança política básica para as alianças. E saibam: quase sempre há
verdade nessas denúncias. É provável que sua condição racial nunca tenha
aparecido como problema para vocês. Para nós tem sido. E essa diferença é o
racismo ?vivo e vívido?.

Se às vezes nosso jeito é meio desbocado, nossa postura é meio despojada,
isso não significa que não somos sujeitos e não temos raciocínio lógico.
Então, vez em quando é bom sair da sua própria lógica para entender o
outro. E imaginem quantas vezes temos que sair das nossas, nos enquadrar
nas suas, para sobreviver entre vocês! Mas que bom que é entre vocês, e
posso dizer isso tranquilamente.

Caso nos percebam meio arrogantes, saibam que tivemos que construir nossa
postura, senão nem vocês nem ninguém nos perceberiam. Mas a maioria de nós
é do bem. Digo a maioria de nós, porque somos tão seres humanos quanto os
outros. Então, entre nós há quem não seja bom. No fundo, sequer podemos
falar em ser humano ?bom geral?. Óbvio que isso não é pela cor e raça.
Talvez até seja, às vezes, porque o mundo tanto nos violenta que nos
obrigamos a enfrentá-lo nos mesmos moldes! E é bom não esquecer que a
violência racial dos brancos só assim o é por sua cor e raça. Não esqueçam
nunca que quando nos referimos à cor e raça estamos, sobretudo, tratando de
categorias políticas.

Isso também é para dizer que não precisam nos adotar. Somos perfeitamente
capazes e não precisamos (pelo menos a maioria de nós) que nos
?paternalizem?. Para quem não entendeu ainda, as cotas e as ações
afirmativas não são medidas paternalistas do Estado ou de outras
instituições, mas uma obrigação política e metodológica no enfrentamento do
racismo. Aliás, muito avançaríamos em nossas lutas comuns contra as
violências do mundo se todxs pudessem entender que acabar com o racismo
exige muito mais que falar dele, que explicitar dados de desigualdades.
Também é passo importante a determinação política de construir metodologias
práticas. Por isso que tantas vezes indicamos, votamos e escolhemos
mulheres negras para estarem em diferentes espaços. Não é porque somos
incapazes de perceber outros critérios e que não saibamos que não basta ser
negra ou mulher, ou mulher negra. Também compreendemos que, dadas as
desigualdades históricas, nem sempre vamos identificar pessoas negras com
certos acúmulos exigidos.

Entretanto, para nós o critério racial vai estar sempre presente. E seria
um bom exercício de desapego e de mudanças nas estruturas se vocês também
puderem considerar esses critérios. Não para sermos sempre ?a cota?, mas
para irmos construindo outras possibilidades no exercício do poder e
configuração do discurso. Então, é saudável para o antirracismo enegrecer
as instâncias dos movimentos, as mesas dos seminários, as representações
políticas etc. Ao colaborar com isso, vocês demonstram na vida real a
disposição de abrir mão dos privilégios raciais, seus e de seus pares.

Também é saudável reconstruir e democratizar as linguagens e a palavra
falada e escrita, o que inclui o cuidado de não reproduzir expressões
racistas. Não é bobagem quando solicitamos o não uso de expressões que
remetem nossa cor à ideia de maldade. Esse é um pedaço do racismo
naturalizado e, portanto, não os ofende. Mas a nós tem significado de
violência simbólica que se desdobra na vida real. Se não podem compreender
isso, ao menos confiem, politicamente, nos ofendidos.

Não tem outro jeito: nossa conversa, nosso pensamento e nossas pautas e
estratégias vão falar do cotidiano de nossa gente. É lá que ela existe e é
desde lá que vamos construindo a nossa crítica. Achamos importante ? é uma
conquista nossa, inclusive -, mas nem sempre precisamos de estatísticas, de
estudos aprofundados ou de esplêndidas elaborações teóricas para ver e
dizer o quanto nossa juventude é violentada, o quanto nosso povo é
massacrado, por exemplo. Uma mulher negra rodeada de pivetes pedindo no
sinal é para nós, de consciência negra, um reflexo de toda nossa história,
ou da história de outros sobre nós. Nos identificamos, nos indignamos e
vamos mostrar e falar sobre essa imagem, porque ela não é pontual. Não para
nós. Ela não é reducionista, ela não é focalista; é reflexo do tempo e do
lugar cotidiano de nossa gente. E não se trata, necessariamente, de
vitimização, mas de leitura política indignada e tendente a movimentar-se.
Não queremos que a sociedade chore por nós; queremos que o mundo e as
instituições nos respeitem.

Então é favor não nos negar, mas também não nos apadrinhar. Nem se sentir
obrigadxs a sempre concordar ou fingir concordar conosco, por receio de ser
mal interpretadxs. Se se inteirarem mais da questão racial e de suas
complexidades, verão que sua branquitude é tão racial quanto a nossa
negritude, e talvez isso nos ajude muito a lidar com nossos
desentendimentos. Estaremos cara a cara, e vocês terão mais chances de nos
comunicar seu antirracismo. Vimos há muito tempo fazendo esse esforço para
dialogar com vocês e com toda a sociedade. Temos muito a dizer; se acharem
por bem, não custa perguntar.