A burguesia sustenta, apesar dos fatos demonstrarem o contrário, que, para quem vive na pobreza, o que importa é o absoluto, e não o relativo. Em sendo assim, se os ricos triplicam sua riqueza ao mesmo tempo que a pobreza dos trabalhadores diminui um terço, os trabalhadores ficariam satisfeitos. Se os créditos dos burgueses saltassem de 3 para 9 e as dívidas dos trabalhadores diminuíssem e 3 para 2, os trabalhadores estariam satisfeitos e viveriam felizes para sempre.

Essa afirmação é refutada pelos fatos. Primeiro, porque se a pobreza relativa dos trabalhadores aumenta, ainda que ocorra a redução da sua pobreza absoluta, o índice de criminalidade aumenta em razão da elevação das desigualdades sociais, e ninguém gosta de violência, principalmente aqueles que são vítimas delas. Em segundo lugar, porque ao se reduzir a pobreza relativa, reduz-se conseqüentemente a pobreza absoluta. Foi o que aconteceu de 2006 para cá, confome se pode verificar no trecho abaixo transcrito (da Carta Maior):

"Danuza Leão, que foi esposa de Samuel Wainer, o criador do Última Hora - principal veículo de resistência ao cerco udenista contra Vargas nos anos 50, lamenta a ascensão do consumo de massa no Brasil. Não por ter restrições ao consumo. Mas porque ficou difícil 'ser especial' nesses tempos em que 'todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais', explica na coluna que assina na Folha.

Musicais na Broadway perderam a graça, afirma, não pelo gosto duvidoso do que se oferece ali. "Por R$ 50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir", lamenta-se.

"Enfrentar 12 horas de avião para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros - não é melhor ficar por aqui mesmo?", questiona desolada diante das cancelas decaídas.

As raízes desse desencanto com o Brasil, personificado na elite caricatural assumida por Danuza, encontram uma explicação resumida no relatório da consultoria Boston Consulting Group (BCG)', divulgado nesta 3ª feira.

O estudo compara meia centena de indicadores econômicos e sociais de 150 países, coletados junto ao Banco Mundial, FMI, ONU e OCDE.

O Brasil emerge desse mosaico como a nação que melhor utilizou o crescimento econômico dos últimos cinco anos para elevar o padrão de vida e o bem-estar do seu povo.

O PIB brasileiro cresceu a um ritmo médio anual de 5,1% entre 2006 e 2011. Mas os ganhos sociais obtidos no período se equiparam aos de um país que tivesse registrado um crescimento explosivo de 13% ao ano, diz a análise. Ou seja, para efeito de redução da pobreza as coisas se passaram como se o Brasil tivesse crescido bem mais que a China nos últimos cinco anos.

O salto na qualidade de vida da população, segundo a consultoria, decorre basicamente da prioridade implementada à distribuição de renda no período. Algo que Danuza Leão intui em meio às dificuldades crescentes para se distinguir do porteiro de seu prédio.

As diferenças entre eles naturalmente continuam abissais. Mas registraram a queda mais rápida da história brasileira nos anos Lula, quando a pobreza recuou à metade e 97% da infância foi para a escola..."

 http://cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1147

Em meados do século XIX, Marx escreveu que "uma casa pode ser grande ou pequena, e enquanto as casas que a rodeiam são igualmente pequenas ela satisfaz todas as exigências sociais de uma habitação. Erga-se, porém, um palácio ao lado da casa pequena, e eis a casa pequena reduzida a uma choupana. A casa pequena prova agora que o seu dono não tem, ou tem apenas as mais modestas, exigências a pôr; e por mais alto que suba no curso da civilização, se o palácio vizinho subir na mesma ou em maior medida, o habitante da casa relativamente pequena sentir-se-á cada vez mais desconfortado, mais insatisfeito, mais oprimido, entre as suas quatro paredes.

Um aumento perceptível do salário pressupõe um rápido crescimento do capital produtivo. O rápido crescimento do capital produtivo provoca crescimento igualmente rápido da riqueza, do luxo, das necessidades sociais e dos prazeres sociais. Embora, portanto, os prazeres do operário tenham subido, a satisfação social que concedem baixou em comparação com os prazeres multiplicados do capitalista que são inacessíveis ao operário, em comparação com o nível de desenvolvimento da sociedade em geral. As nossas necessidades e prazeres derivam da sociedade; medimo-los, assim, pela sociedade; não os medimos pelos objectos da sua satisfação. Porque são de natureza social, são de natureza relativa."

É justamente por esse motivo que a Danuza Leão está se lamentado da elevação módica do poder aquisitivo dos mais humildes.

Esse ano o Jornal Nacional veiculou uma matéria culpando os salários dos trabalhadores por uma iminente onda de desemprego. Na referida matéria, um economista consultado pelo referido jornal disse:

"Para que os salários continuem crescendo é necessário que a economia cresça. Para que a economia cresça é fundamental ter investimentos. As empresas só investem, quando elas têm lucro. Isso significa que em algum momento o emprego vai começar a ficar mais fraco".

 http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/08/salarios-e-economia-crescem-em-ritmos-diferentes-no-brasil.html

O economista global trocou a causa pela consequencia: As coisas se passam ao contrário do que afirma o referido economista, ou seja, as empresas só obtêm lucro quando elas investem e não investem quando elas têm lucro. É claro que dada a partida, criar-se um círculo virtuoso, ( ou seria vicioso? ), mas em última análise são os investimentos que geram o lucro e não o inverso.

Se os salários não aumentam, não adianta aumentar os investimentos porque a produção vai aumentar mas o poder aquisitivo da sociedade vai continuar tanto quanto antes. Os produtos e serviços da burguesia não serão comercializados, ela não conseguirá realizar o lucro extraído dos trabalhadores e o desemprego e a recessão serão desencadeados.

Se os investimentos e consequenemente a produção aumentam mas os salários também aumenta na mesma proporção, então o lucro que seria originado do aumento dos investimento é anulado pelo aumento dos salários. Continua-se na estaca zero. Assim, esse economista global está redondamente equivocado.

Como diria Marx, 'a condição imprescindível para uma situação aceitável do operário é, portanto, o crescimento mais rápido possível do capital produtivo.

Que é, porém, crescimento do capital produtivo? Crescimento do poder do trabalho acumulado sobre o trabalho vivo. Crescimento do domínio da burguesia sobre a classe que trabalha. Se o trabalho assalariado produz a riqueza alheia que o domina, o poder que lhe é hostil, o capital, para o primeiro retornam os meios de ocupação, isto é, de subsistência do mesmo, sobre a condição de que ele se faça de novo uma parte do capital, a alavanca que de novo lança este mesmo num movimento acelerado de crescimento.'

Vimos que Marx está equivocado nesse ponto. Não é imprescindível o crescimento rápido do capital produtivo para a melhoria da qualidade de vida do trabalhador. A luta política e uma correlação de forças favorável aos trabalhadores podem melhorar a vida dos trabalhadores sem a correspondente acumulação do capital. Aliás, depois, o próprio Marx chegou a essa conclusão quando escreveu:

"O cidadão Weston ilustrou a sua teoria dizendo-nos que se uma terrina contém determinada quantidade de sopa, destinada a determinado número de pessoas, a quantidade de sopa não aumentará se se aumentar o tamanho das colheres. Seja-me permitido considerar este exemplo pouco substancioso. Ele me faz lembrar um pouco aquele apólogo de que se valeu Menênio Agripa. Quando a plebe romana entrou em luta contra os patrícios, o patrício Agripa disse-lhes que a pança patrícia é que alimentava os membros plebeus do organismo político. Mas Agripa não conseguiu demonstrar como se alimentam os membros de um homem quando se enche a barriga de outro. O cidadão Weston, por sua vez, se esquece de que a terrina da qual comem os operários, contém todo o produto do trabalho nacional, e o que os impede de tirar dela uma ração maior não é nem o tamanho reduzido da terrina, nem a escassez do seu conteúdo, mas unicamente a pequena dimensão de suas colheres."

É possível, sim, reduzir a pobreza absoluta dos trabalhadores sem se aumentar a sua pobreza relativa. É possível aumentar a dimensão das colheres operárias mesmo sem aumentar a dimensão da terrina e/ou o seu conteúdo.

Ainda e finalmente de acordo com Marx, 'a rise in the price of labour, as a consequence of accumulation of capital, only means, in fact, that the length and weight of the golden chain the wage-worker has already forged for himself, allow of a relaxation of the tension of it.'