Direita e esquerda se engalfinham por causa do controle do Estado, acusando-se mutuamente de corrupção. Ambas tentam mostrar que têm propostas políticas diferentes, mas no fundo só se preocupam com a mesma coisa: o crescimento econômico, com a Economia.

Oras, Economia vem da palavra grega Oikos que significa casa, lar, vida privada. Oikos e economia, portanto, não tem nada a ver com a atividade pública, que diz respeito ao funcionamento, construção, atuação e proteção da Polis (cidade em grego, palavra da qual deriva o vocábulo política).

Entre os gregos antigos Oikos e economia não eram assuntos dignos de serem debatidos na Ágora. Eram assuntos privados, a serem tratados de maneira reservada na tranquilidade do lar. Quando saia de casa para ir à assembléia decidir os destinos da cidade, o grego transitava do universo privado (Oikos) para o público (Polis) passando a ter como centro de sua atenção, preocupação e deliberação os destinos da coletividade.

Os ideólogos ocidentais gostam de dizer que nossa vida pública (com sua democracia e política) é inspirada na Grécia antiga. Mas na verdade o Ocidente inverteu completamente ordem das coisas para atender às exigências do capitalismo e dos capitalistas.

Para os mesquinhos ocidentais modernos, Oikos (a economia privada) está no centro das atenções da Polis, não havendo espaço para a discussão daquilo que é comum (as carências urbanísticas, os problemas e as necessidades sociais). Os assuntos privados (margem de lucro, crescimento econômico, produtividade, taxa de cambio, balança de pagamentos importação, exportação...) são tratados como se fossem públicos e os interesses públicos (contenção de encostas, prevenção de enchentes, construção de habitações populares, socialização cultural, etc...) são deixados para o mercado.

Não vivemos numa Democracia, mas numa Oikoscracia. O que nós chamamos de "política" é na verdade outra coisa, cujo nome grego não sei dizer porque não sou tão erudito assim.

Vem daí o meu espanto quando vejo a mesma imprensa que defende com unhas e dentes a Oikoscracia (que ela chama indevidamente de Democracia), ficar espantada e estupefata com o fato dos políticos venderem votos no Parlamento. Como é que pode ser errado "privatizar" um voto parlamentar se o interesse público não é e não deve ser o objeto central da atividade estatal? A Economia ( que é uma coisa privada, num regime capitalista) domina quase que totalmente a agenda "política" da imprensa e do Estado. Como podem os mesmos que privatizam o público exigir que os homens públicos não cuidem de seus interesses privados?

Vejam bem. Não gosto de confusões. Não estou aqui a defender a corrupção e os corruptos. Muito pelo contrário. O que eu estou fazendo é dizer que todo o sistema de negação do interesse público em função do predomínio da atividade privada (do capitalismo, dos capitalistas da Economia) como centro da preocupação de nossa Democracia ocidental (que é na verdade uma Oikoscracia) cria as condições de possibilidade do comportamento desviado dos parlamentares. Afinal, o grande desvio não foi produzido por eles, mas pelo próprio sistema a-Político que a mídia sustenta e defende ou colocar a Economia no centro do debate público.