A arte sempre explora com maestria os sentimentos, é a melhor forma de ilustrar e trabalhar os conflitos do espírito humano. O folclore tem uma importância especial, inserido, convencionalmente, no que seria a cultura dita popular.

As comédias gregas, os poemas épicos europeus, os clássicos do cinema moderno ou a literatura imortal, todos são eternizados pela forma com que captaram, relataram e enfrentaram os grandes temas que afligem a humanidade.

O folclore inglês tem um personagem que muito bem calha às reflexões do momento, quem não se lembra de Robin Hood, o exímio arqueiro que rouba dos ricos para dar aos pobres?

O mito retratado nas baladas inglesas, nos filmes e nos livros, se existiu, como homem ou como ideia, nos traz uma saborosa reflexão...

Na maioria das obras trata-se de um nobre que caiu em desgraça após voltar das Cruzadas por volta do século XIII, ao chegar à sua pátria o sobrinho do Rei havia destruído as famílias leais ao monarca e ao Povo. Decide então lutar contra os opressores, pelo povo, roubando dos ricos e dando aos pobres.

Após confrontos de valores, atributos morais e destreza com as armas, contra os agentes do governo central, notadamente o Clérigo e o Xerife, a ordem é restabelecida, sendo o governo injusto derrotado e o justo, ansiado pelo Povo, reassume.

A reflexão é centrada em pontos bem estimulantes.

O Poder representado pelo sobrinho do Rei é legitimado pelas regras de sucessão, ou seja, era uma expressão do ordenamento jurídico vigente, mas não representava o anseio do Povo, pelo contrário, tinha a sua aversão. O governo era legítimo, mas injusto.

O cidadão virtuoso que infringia as normas, ou seja, cometia um crime comum, se tornava um herói quando distribuía seu produto com as vítimas do governo legítimo, mas injusto, sem se locupletar.

No momento político final, na substituição do trono, o fora-da-lei se torna herói e homem público respeitado.

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

O vulgo Mensalão, nome de batismo dado por não sei quem, mas acredito que tenha sido pela Globo, é a história, ?legendária?, de um grupo político oriundo da plebe que chegou ao Poder compartilhado com seus adversários, e teve que ?roubar? e compra-los com este dinheiro, para convertê-los em apoiadores, ou melhor, mantenedores das reformas sociais que fez em favor do povo.

Segundo o relator, Ministro Joaquim Barbosa, o dinheiro de empresas públicas e estatais, capital que não foi dado falta em qualquer livro contábil, mesmo após as investigações da Polícia Federal, seria utilizado para a compra dos parlamentares da ?base aliada? para votar em favor do que o Governo entendia justo e melhor para a população.

Se tal compra de parlamentares, para concretização das metas de governo estabelecidas foi útil ou não para o povo, só a avaliação do governo Lula pode nos dizer, tais atos foram viabilizadores do governo.

Se os companheiros de Robin Hood: João Pequeno, Frei Tuck e Maid Marian irão ter a anistia do povo não sabemos. De fato, só quando o próximo momento chegar, digo, quando o Príncipe Jonh for realmente derrotado e Robin Hood e seus amigos vencerem definitivamente, saberemos se os crime de roubo, corrupção passiva ou ativa, serão absolvidos e considerados heroicos.

Cometer crime em nome da ideologia ou de um projeto para o bem comum é excludente da ilicitude? Mesmo quando o agente não se locupleta e doa tudo a causa nobre...

Mais uma forma do eterno conflito do espírito humano - a síndrome de Robin Hood.