Tenho amigos queridos que trabalham no jornal O Tempo. Mais do que queridos: jornalistas talentosos que fazem o melhor trabalho possível em suas respectivas áreas. Não irei citá-los por não achar justo relacioná-los, mesmo que perifericamente, ao que discutirei abaixo, mas saliento que o caderno Magazine, em especial, é fruto de um trabalho de incrível competência e amor por parte de seus responsáveis.

E é por esta razão que Walter Navarro merece ir para a rua. Não apenas por vomitar preconceitos e, no processo, se apresentar ao mundo como um ser humano absolutamente repugnante, mas por sujar, praticamente sozinho, as páginas do caderno que seus colegas tão brilhantemente criam. E é por esta razão, também, que não escrevi uma linha sequer sobre o texto incrivelmente estúpido de José Robert Guzzo publicado na Veja sobre o movimento LGBT: está na Veja, que, historicamente, encontra-se sempre do lado errado de qualquer questão sobre a qual se manifeste ? e é impossível poluir algo que já atingiu níveis tóxicos. (Além disso, Jean Wyllys já publicou a resposta definitiva a Guzzo.)

Neste sentido, Navarro é o cadáver em putrefação que flutua num lago límpido (eu iria compará-lo a outra coisa flutuante, mas isto apenas descreveria o que ele carrega na mente) e que precisa ser removido antes de contaminar a água de forma irremediável.

Em primeiro lugar, o contexto: em sua coluna semanal no jornal O Tempo ? e cuja existência já me impressiona há tempos, já que o sujeito obviamente não sabe escrever, sendo péssimo não apenas em estilo, mas em gramática, ortografia e retórica -, Walter Navarro decidiu falar sobre um tema espinhoso que normalmente deveria ser deixado a cargo de pessoas que possuem algum conhecimento mínimo sobre História, Sociologia ou Caráter: a tragédia envolvendo os Guarani-Kaiowá, que, expulsos das próprias terras e mantidos distantes de suas raízes culturais em um pedaço minúsculo de chão que mal lhes permite a sobrevivência, publicaram uma carta chocante e comovente sobre a situação na qual se encontram.

Entra Walter Navarro, com a sensibilidade típica de um homem incapaz de compreender qualquer coisa que se mostre distante de sua realidade imediata.

?Tem coisa mais chata, hipócrita, brega e programa de índio que este pessoal do Facebook adotando o nome Guarani Kaiowá??, começa o colunista em seu espaço em O Tempo ? e até aqui posso compreender suas motivações. De fato, o cyberativismo rende patetices risíveis e perigosas ? e não são poucos aqueles que alteram seus sobrenomes por alguns dias no Facebook para manifestar uma ?causa? que descobriram na web enquanto acreditam que isto os tornará admiráveis e engajados, quando, na verdade, apenas torna-os ainda mais passivos. Não digo, com isso, que todos que o fazem são ?tolos? ou ?ingênuos? (como alguns inicialmente interpretaram), mas apenas que este tipo de manifestação não deve substituir um envolvimento mais ativo nas causas defendidas.

Infelizmente, esta primeira frase é a única no texto de Navarro que faz algum sentido ? o restante é uma enxurrada de imbecilidades, preconceitos e da mais profunda ignorância. Com um tom que ele acredita ser irreverente, mas que soa apenas como a mais profunda intolerância, o sujeito inclui afirmações como ?Como diriam o Marechal Rondon e os irmãos Villas Boas, ?Índio bom é índio morto?! ?Matar, se preciso for, morrer, nunca!??; grafa ?Barack (Obama)? como ?Barak? (isto num jornal!); chama Rita Lee de ?maconheira? para tentar desqualificar uma de suas letras pró-Índios; e arremata um longo e tolo parágrafo com a inacreditável sentença de que ?Os guaranis kaiowá não passam de recolhedores de mel no meio do mato. É o povo mais primitivo do mundo, nem chegou à Idade da Pedra?.

De acordo com Walter Navarro, este grande antropólogo, historiador e filósofo, ?(?)o Brasil é assim, uma mistura de índios flatulentos com criminosos portugueses?. E encerra, orgulhoso de seu ?humor? que levaria até mesmo Rafinha Bastos a considerá-lo ofensivo: ?A vadiagem dos guaranis kaiowá pelo menos é lucrativa. Ontem, troquei um canivete suíço (falso) por várias toras de mogno de sua reserva?

Se J.R. Guzzo não fosse apaixonado por cabras, eu sugeriria que procurasse Walter Navarro, o asno. O filhotinho resultante desta união despertaria interesse de cientistas em todo o planeta e daria início a uma nova espécie: Intolerantis imbecilicus.

- X -

A repercussão do texto de Navarro, claro, assustou os donos de O Tempo, levando a um editorial claramente apavorado visando controlar os danos. Infelizmente, as palavras do editor Vittorio Medioli são atrasadas, poucas e leves demais. Embora diga que O Tempo errou ao permitir a publicação do texto, que traz ?linguagem chula? (aparentemente, o grande problema da coluna, em sua visão), ele afirma que defenderá a permanência de Navarro como colaborador. Ora, considerando que Medioli é também fundador de O Tempo, isto não é defesa, é decisão.

O curioso é que, no mesmo editorial, ele escreve que insistiu ?para ?mais uma oportunidade? em outras ocasiões?, apontando o que todos já sabem: Navarro faz há muito tempo este tipo de discurso odioso. Quem acompanha o jornal já leu suas colunas misóginas, homofóbicas e racistas.

Para justificar a manutenção do sujeito, Medioli diz que o jornal defende ?a liberdade de expressão?. Ora, ninguém está sugerindo que Navarro seja amordaçado ou impedido de se manifestar. Por outro lado, oferecer a ele uma plataforma para que divulgue suas ideias é algo reprovável e perigoso. Abomino Bolsonaro, por exemplo, mas não pretendo impedi-lo de jorrar seu ódio ? mas tampouco ofereceria a ele uma coluna no Cinema em Cena.

Demitir um colunista como Walter Navarro não é cercear a liberdade de expressão; é apenas exibir discernimento suficiente para reconhecer que, em 2012, discursos como os dele são anacrônicos e inaceitáveis, denunciando uma natureza que merece o ostracismo, não divulgação. Homens como Walter Navarro devem ser encontrados berrando insanamente seu ódio e preconceito sobre um caixote no centro da cidade, não escrevendo (mal e porcamente) nas páginas de um jornal como O Tempo.

Update importante: um leitor aponta nos comentários abaixo que o editorial de Medioli é de 2010, o que comprova o que escrevi acima: Navarro já há muito espalha ódio nas páginas de O Tempo. Resta saber se o jornal continuará a ser leniente com o sujeito. Considerando que já assumiram publicamente os problemas provocados pelo colunista, a partir de agora só posso considerar os editores de O Tempo cúmplices do odioso ?articulista? que sustentam.

Update 2: Em sua página no Facebook, o jornal O Tempo publicou o seguinte post por volta da meia-noite de hoje: ?Informamos que o jornal O TEMPO decidiu afastar o colunista Walter Navarro do seu quadro de colunistas e que a Sempre Editora não compactua com nenhum tipo de preconceito e/ou manifestação preconceituosa. Reforçamos, assim, o nosso compromisso com o bom jornalismo.?

Ok, parece uma boa notícia. No entanto, o que exatamente é ?afastar?? Demissão? Suspensão temporária? Com pagamento ou sem? Ou é apenas colocá-lo na geladeira até que todos se esqueçam de mais esta abominação que publicou nas páginas do jornal? Até que isto fique claro, hesitarei em celebrar.

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-  http://youtu.be/0zSas_3SLZ8