?Os marchantes esperavam nos calar
Pra todas nós este instante e esta glória
Não esperavam que sobrevivêssemos?
(Audre Lorde)
-
-
Viemos a público para nos pronunciar a propósito das recentes afirmações caluniosas da atual gestão do DCE e atual concorrente à releição (chapa 1 ? Aliança Pela Liberdade) em relação a nós, estudantes negras/os coletivamente articuladas/os e organizadas/os na UnB. Viemos também veementemente repudiar as agressões racistas que sofremos pela chapa 2 (Chapa Troll) no debate entre as chapas que concorrem ao DCE da UnB em 2012, ocorrido no dia 27/11/2012 Não poderíamos deixar de nos pronunciar e buscar gerar reflexão que possa barrar, no futuro, novas ocorrências de situações similares, haja vista nosso compromisso com a desconstrução de equívocos, reparação de danos, construção de uma tradição de alteridade e justiça ampla/profunda.

Em diversas ocasiões - quando indagada sobre seu posicionamento a respeito das Cotas Para Negras/os - a ?Aliança Pela Liberdade? afirmou que nunca foi contra tal política e que, inclusive, sua postura teria sido congratulada por suposto ?coletivo de estudantes afrodescendentes? presente no Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (CEPE) que debateu a Lei nº 12.711/2012 no dia 11 de outubro de 2012. MENTIRA. Nós, estudantes e pesquisadores e ativistas negras/os presentes na ocasião não elogiamos nada. Muito pelo contrário: nos agoniou a distância do DCE em relação aos pontos fundamentais do tema, a falta de diálogo preciso com os pontos por nós apresentados e a reprodução ?distraída? de posturas conservadoras e desinformadas sobre o que estava sendo discutido (sem contar outras evidências simbólicas que para nós soavam como um ?tapa?). Remetemos-nos e cumprimentamos respeitosamente a todas as pessoas membras do CEPE naquela ocasião, contudo, não elogiamos ninguém, muito menos no tocante aos representantes do DCE. Nunca vimos essa última gestão do DCE como aliada, MUITO pelo contrário MESMO...

No debate ocorrido na última terça-feira (27/11/12), quando a ?Aliança Pela Liberdade? mentiu sobre ser parabenizada no CEPE, uma pesquisadora/ativista negra, que foi estudante cotista da UnB e que estava presente na ocasião, ergueu-se imediatamente afirmando ? trêmula, negativamente emocionada, revoltada ? que a comunidade negra jamais parabenizou a participação do DCE. A reação hostil e violenta por parte da Chapa 1 tornou evidente a forma como este grupo lida com os termos próprios e os sentidos singulares da luta negra e, certamente, também com ativismos correlatos. Na mesma ocasião, quando outro estudante/pesquisador/ativista negro retomou o tema ao fim do debate com vistas a firmar de vez posição contrária às citações inverídicas, uma integrante da chapa 2 (Chapa Troll) deferiu a seguinte frase: "vai começar a putaria". Obviamente acusamos esta injúria de racista e, sem novidade, um membro da ?Aliança Pela Liberdade? partiu em sua defesa ameaçando nos processar por "calúnia", pedindo para que provássemos o suposto ?crime de racismo? e, ainda, que provássemos se de fato éramos nós os/as estudantes negros/as presentes no CEPE (afirmando que nós, insultadas, éramos quem mentia). Evidenciaram toda a violência a nós reservada hoje e há tantos séculos, a invalidação forçada e a ridicularizarão de nossas vozes. De onde vem a licenciosidade para realizar tal postura? Será a naturalização introjetada de que não estaríamos lá, de que não estamos legitimamente na universidade, de que não temos voz para garantirmos nossa verdade dos fatos? De que não somos cidadãs/ãos plenamente consideráveis?

Nós estudantes negras/os organizadas/os e à frente das batalhas na Universidade de Brasília jamais vimos a última gestão do DCE como aliada! Seria bem mais honesto este grupo assumir suas posições insuficientes sobre nossos temas do que fingir que atua no assunto e ainda por cima citar isso para sustentar posturas dúbias e superficiais. Caso assumisse publicamente que não tem discussões sérias sobre a luta antirracista ou que é contrária, ou que é dividida sobre o assunto mas busca aperfeiçoar-se na temática, seria até melhor para rebatermos com soberania e seriedade... Mas, ao contrário, tentam fazer a comunidade negra de massa de manobra, acreditando em nossa ?ingenuidade?, nos citando indebitamente.

Atitudes são também símbolos e se localizam em contextos, símbolos evocam universos, histórias, processos complexos; assim, atitudes como as da ?Aliança Pela Liberdade? nas situações supracitadas, em nossa direção, aprofundam um panorama de degradações, às quais não são mais possíveis que nossa comunidade continue sujeita, sendo sempre acusada de vitimizadora, extremista, violenta, como se nossas vozes, estudos, trajetórias, experiências, narrativas, de nada valessem... Ou seja, mais invisibilidade, amordaçamento, exclusão.

Antes e depois de assumirem o DCE membros da ?Aliança pela Liberdade? já se pronunciaram publicamente contrários às ações afirmativas para inclusão étnico-racial. Por exemplo, no vídeo "Raça humana", André ?Tatcher? Maia, presidente de honra da ?Aliança pela Liberdade?, aparece falando argumentos bem rasos e perversos contra as cotas para negras/os; no mais, havendo interesse, não é difícil encontrar outros exemplos nos meios e redes de comunicação. Durante sua gestão a ?Aliança Pela Liberdade? não realizou nenhum projeto consistente em relação às pautas da comunidade negra, especialmente no tocante à luta contra o racismo. Muito menos buscou contato adequado com as/os estudantes negras/os coletivizadas/os, suas organizações ou programas específicos. Toda vez que era indagada sobre o tema ?cotas para negras/os? neste ano de gestão, a chapa dizia não ter nada a declarar, que as cotas já eram um fato e que não estavam para ser discutidas (tema tão complexo e sempre demandante de aprofundamentos analíticos, imagina se não precisa de discussão, ainda mais diante das demandas de parcela da comunidade universitária que é cotista!). Reforça-se, com isso, o silenciamento das pautas negras na universidade e excluem-se os canais de diálogo e representatividade da comunidade de estudantes negros/as em um diretório que se afirma como representante de todas/os as/os estudantes.

Fato exemplar e aberrante, foi quando o Centro Acadêmico de Sociologia (Gestão Caso com Elas) procurou o DCE para questionar sobre a programação do dia 20 de novembro de 2011 e os membros do DCE presentes afirmaram não saber do que se tratava (!!!), chegando a perguntar se realizar atividades desse tipo era uma tradição do DCE, do Movimento Negro ou um feriado comum em outros estados do Brasil. Ou seja, deram mais uma demonstração da falta de articulação do DCE junto à comunidade negra da universidade. Uma desarticulação proposital e consonante com o desinteresse/desrespeito frente à agenda social das inúmeras organizações negras. A gestão 'Aliança pela Liberdade' pediu, então, para divulgar a ?Semana Dandara da Consciência Negra?, sendo esta divulgação a pretendida atividade deles para o dia 20 de novembro. Tendo o pedido negado pelo Centro Acadêmico de Sociologia, o DCE organizou então o evento intitulado ?Debate Livre: A Constitucionalidade das Cotas Raciais no Ensino Superior: A ADPF 186 no STF?. Assim que o Debate foi divulgado no site do DCE, o ex-coordenador de Cultura, Esporte e Eventos do DCE , Kadu Freire, escreve:
?Espero que não seja mais do mesmo.
O ideal é que haja um verdadeiro debate e não a mesma baboseira afirmativa de sempre.
E espero que a audiência saiba se comportar dessa vez.?
(Disponível em:  http://www.dceunb.org/grupos/semana-da-consciencia-negra/forum/topic/241119h-seminario-sobre-as-cotas-raciais-no-ensino-superior/, acessado em 04/12/2012.)

Nesse contexto, é de extremo mau-caratismo político o DCE se descrever como parceiro da luta negra. De fato, não o poderiam ser.

Questão Étnico-Racial é tema estrutural-estruturante do universo sociocultural humano. Logo, na universidade, pautas para se pensar as N nuances de tal tema, inclusive as lutas antirracistas, não se resumem às cotas, apesar de ser este um tema sobrepujante. Nos últimos anos a Universidade de Brasília modificou-se sobremaneira em virtude das cotas e de políticas de expansão, tornando-se referência para todo o país. Nos próximos anos, deve se modificar ainda mais com a nova lei de inclusão no Ensino Superior recentemente aprovada pelo governo federal (Lei nº 12.711/2012). Se uma chapa de DCE com o histórico de defesa de posições contrárias às ações afirmativas para inclusão específica de negras e negros na universidade não faz menção coerente a essa questão em seu programa, só podemos deduzir que ela mantém a opinião contrária à presença negra-indígena-popular nos campi universitários. Não somos bobas! Temos bagagem de séculos de resistência e elaboração no tocante a golpes de opressões em todos os campos, ainda que atuem no campo do velado, do ?inconsciente?, do não dito, motivando ações macropolíticas absolutamente concretas e devastadoras.

Não dá para falar/pensar/desejar ? em um Brasil popular e coletivo , assim como numa universidade ? ensino/pesquisa/extensão, ciência/tecnologia/empreendedorismo, desenvolvimento real e excelências, sem considerar profundamente todos os panoramas/corpos-locais envolvidos, sem ter disposição para desconstruir anomalias, rever/repensar/reinventar códigos, abrir caminhos, construir, integrar, prosseguir... em prol da vida! Nossa luta por afirmação atravessa de forma fundante todos os temas e esferas da sociedade, é luta em tudo, de tudo em infinitos modos! E que isso não seja discurso vazio meramente retórico e pró-elitista, não somos rótulos ideológicos, somos humanidades!

Minimizar e superficializar nossos universos ? especialmente a luta contra o racismo utilizando-se dela como moeda eleitoral ? é um desrespeito à magnitude do que significa o tema e nossas próprias vidas na universidade e no mundo, sob pena de condenar projetos ético-políticos impossibilitando que sejam verdadeiros e de fato universais.


Se hoje estamos aqui devemos a Dandara, devemos a Zumbi!


CONTRA SÉCULOS DE NEGAÇÃO, UM PRESENTE VÍVIDO DE AFIRMAÇÃO!


Universidade de Brasília, novembro/dezembro de 2012.

Assinado:
=> Nosso Coletivo Negro (grupo negro da UnB que articulou e redigiu a ação de Amicus Curiae que o Movimento Negro Unificado apresentou e, sendo acatada, defendeu no Supremo Tribunal Federal frente ao julgamento da ADPF 186 que, constestada por TODOS os ministros da Suprema Corte, resultou na apreciação jurídica indicando ser plenamente constitucional o Sistema de Cotas Para Negras/os da Universidade de Brasília!)

=> Grupo do Afroatitude UnB (público do programa acadêmico de permanência que desde 2005 realiza na UnB uma série de atividades para fortalecimento de estudantes negras/os em situação de vulnerabilidade socioeconomica, já tendo atendido mais de 200 estudantes e afetando profundamente suas comunidades de origem.)

=> Ex-gestão Centro Acadêmico de Sociologia, Gestão CASO com Elas, organizadoras da 'Semana Dandara de Consciência Negra' 2011.

Alguns docentes participantes da luta antirracista e por inclusão na universidade de Brasília que, compromissadas/os com a realidade profunda dos fatos nos panoramas em que atuam, nesta ocasião endossam e assinam o presente pronunciamento:

** Professor Dr. Ivair Augusto Alves do Santos, assessor da 'Assessoria de Diversidade e Apoio aos Cotistas ? ADAC/GRE/UnB' (presente no CEPE de 11/10/2012)

** Professor Dr. Joaze Bernadino Costa, Depto de Sociologia UnB, coordenador do projeto 'Pós-Afirmativas' (presente no CEPE de 11/10/2012).

** Professor PhD José Jorge de Carvalho, Dept. de Antropologia UnB, coordenador geral do 'Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia: Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa ? INCTI/CNPq/MCTI/UnB'; um dos autores do projeto que em 2003 foi aprovado no CEPE e resultou na instauração do Sistema de Cotas Para Negras/os e Vestibular para Indígenas em vigor desde 2004 na UnB (presente no CEPE de 11/10/2012).

**Professora Drª Renísia Garcia Filice, coordenadora do 'Grupo de Estudos em Políticas, Educação das Relações Étnicorraciais e Gênero ? GEPERG/FE/UnB'.