MARIGHELLA NA CASA DO FIM DA RUA
Por Fábio de Oliveira Ribeiro


Em 07 de novembro assisti dois filmes. Primeiro vi A CASA DO FIM DA RUA no cinema. Já em casa assisti MARIGHELLA, o belo documentário feito por Isa Grinspum Ferraz.

O que pode haver de ligação entre dois filmes tão distintos? O que os distingue: a política.

A CASA DO FIM DA RUA é um típico filme de suspense norte-americano concebido para distrair. Um garoto mata a irmã na infância e é obrigado a substituí-la pelos pais. Já adolescente ele mata os pais e reassume sua porção masculina, mas para compensar a falta da irmã, que foi obrigado a substituir por tanto tempo, ele rapta uma garota e a prende no porão da casa da família tratando-a como se fosse louca. A complicação ocorre quando ele se apaixona pela vizinha que mudou-se para a casa ao lado. Apesar dos vizinhos odiarem o psicótico, a personagem interpretada por Jennifer Lawrence se aproxima dele e ao final acaba descobrindo seu segredo.

MARIGHELLA narra a trajetória do emblemático líder de esquerda que lutou contra a Ditadura militar e morreu crivado de balas numa emboscada montada pelo Delegado Sérgio Paranhos Fleury. Protagonista das ações mais ousadas contra a Ditadura, Marighella emerge das sombras através dos documentos, fotos e depoimentos explorados com bastante cuidado por Isa Grinspum Ferraz.

A violência do protagonista do filme A CASA DO FIM DA RUA não tem propósito político. A de Marighella tinha.

Enquanto o personagem norte-americano reage ao meio de maneira patológica, o brasileiro reagiu a uma Ditadura da única maneira adequada: violentamente. Toda Ditadura se impõe pela violência e, em razão disto, autoriza uma reação igualmente violenta. O abuso da força na instituição do poder por tiranos que ignoram ou desprezam a vontade popular retira do novo regime qualquer legitimidade política, autorizando o uso da violência para restabelecer a ordem ou fundar uma menos tirânica. Não seria tirânica uma sociedade que permite aos pais agredir sistematicamente um filho para obrigá-lo a substituir a irmã morta?

A patologia do protagonista de A CASA DO FIM DA RUA mostrada no filme esconde uma outra bem mais grave: uma patologia social e política. O protagonista reagiu doentiamente à violência que sofreu em casa e que não foi interrompida pelo poder público no momento em que ocorria. A sociedade norte-americana tolerante (para não dizer negligente em relação aos abusos cometidos contra as crianças dentro de casa) e seu Estado ausente (para não dizer omisso em relação à proteção da infância) produziram o protagonista violento do filme gringo tanto quanto a Ditadura ajudou a produzir Marighella.

Nada na trajetória de Marighella indicava que ele tomaria o rumo que tomou. Preso e agredido nos anos 1930 por ser comunista, ele disputou eleições e se tornou Deputado Constituinte na década seguinte. Sua primeira opção política era pela legalidade, não pelo anonimato. Disputar pela palavra era sua vocação natural; o uso da força bruta foi consequencia de uma situação lhe imposta. Vem daí que ninguém pode dizer que Marighella era um criminoso nato ou que ele estava predestinado a comandar uma guerra urbana subterrânea. O golpe de estado de 1964 rompeu a legalidade, a subsequente repressão aos dissidentes e comunistas obrigou o líder baiano a reagir da única maneira possível naquele momento. Isto não é dito abertamente no documentário MARIGHELLA, nem precisaria.

Na verdade ninguém precisa dizer que um monstro é produto do seu meio. Basta mostrar o meio e o monstro. A ligação será feita por qualquer pessoa com inteligência mediana. A monstruosidade de uma Ditadura como a brasileira do período 1964/1988 é semelhante à monstruosidade da sociedade norte-americana que permite que crianças sejam agredidas até enlouquecerem (hipótese implícita no filme A CASA DO FIM DA RUA).

A diferença na maneira como se expressa a reação das vítimas da violência (política no caso de Marighella e patológica no caso do personagem do filme norte-americano) fica por conta da natureza das duas histórias (real num caso, fictícia no outro) e da clara distinção entre as culturas brasileira e norte-americana. Mas é sempre preciso lembrar algo importante: a ditadura brasileira foi construída pelos EUA e a realidade social norte-americana nunca sofreu qualquer influência positiva ou negativa do Brasil.

Penetrar na lógica do mundo para poder invertê-la é a tarefa do todo revolucionário. Marighella fez o que podia com os instrumentos que dispunha. Nós dispomos de outras ferramentas e podemos levar a luta ideológica ao coração da besta fera que produz tragédias políticas e familiares para poder contar histórias de maneira cinematográfica.