DE VOLTA ÀS RUAS
Dez meses após a derrocada do regime de Hosni Mubarak,milhares de egípcios voltaram às ruas para exigir a saída de Mohamed Mursi, representante da Irmandade Mulçumana, organização política e religiosa que ocupou o espaço vago gerado pela destituição do ex-ditador. Mursi foi eleito presidente em junho, com a missão de comandar a transição para a democracia.

Pois são justamente os métodos dessa transição o que não tem agradado aos partidos e movimentos políticos que se colocaram em permanente vigilância após a assunção da Irmandade ao poder. A maioria das forças oposicionistas identifica no atual governo os mesmos traços autoritários que levaram à destituição do antecessor. Suspeita ainda que ele tenda a privilegiar os islâmicos em detrimento dos demais grupos políticos e religiosos, e em benefício de um suposto futuro estado teocrático.

Mursi dá razão aos adversários quando, alegando a necessidade de maior autonomia para dar cabo à transição, e maior autoridade para reformar órgãos e instituições contaminados pelo antigo regime, edita decreto em que se concede superpoderes e o protege de contestações judiciais.

Por seu turno, as oposições se dividem numa multiplicidade de tendências e lideranças que as impossibilitam de chegar a um a um projeto democrático que seja minimamente consensual. Por enquanto, o que as motivam é o desejo comum de se livrarem das marcas impostas o país pelos trinta anos da ditadura de Mubarak.

O projeto de Constituição em elaboração tem sido questionado, tanto por atribuir poderes extraordinários ao atual chefe do governo, quanto por conceder privilégios exclusivos à população islâmica, em desconsideração aos direitos das mulheres, dos trabalhadores e dos cristãos.

Em que pese a intensificação do movimento de protesto, não é evidente que a tendência pró derrubada de Mursi resulte inevitavelmente na queda do líder. Ainda existe espaço para o diálogo. No confuso quadro político que se estabeleceu no Egito, a Irmandade Muçulmana é a principal referência para um futuro diálogo que venha envolver a comunidade internacional.

O mais provável é que se inicie um acordo que inclua uma maior parcela das forças atualmente insatisfeitas . Porque um novo vácuo no poder, a essa altura, seria fatal para a racionalização do processo, conduzindo o país ao caos ou à guerra civil, colocando por terra as aspirações democráticas da maioria da sociedade. A possibilidade do prolongamento da crise não interessa aos democratas e à comunidade internacional. que projeta na existência de um Egito democrático uma ponte para se alcançar a paz no Oriente Médio.
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