Brasil: Mudanças estruturais a caminho?

A nação brasileira enfrenta uma situação contraditória: imensa (8.500.000 km2), riquíssima de tudo por natureza (terras agricultáveis, minérios estratégicos e outros, florestas imensas ainda, as maiores reservas da água doce do mundo, tremendo potencial de energia solar, hidrelétrica, eólica, de biocombustíveis, de petróleo, quase duzentos milhões de habitantes e um respeitável mercado interno, também respeitável parque industrial, etc...), tem ainda muita gente na pobreza, terríveis faltas de infra-estrutura inclusive em áreas críticas como transportes e saneamento básico, isso se deixarmos momentaneamente de lado questões vitais como segurança pública, educação e saúde, e não consegue enveredar pelo caminho do crescimento econômico com o mais que desejável desenvolvimento humano.

O diagnóstico não é complexo: hipertributação introduzida na era FHC e causada em verdade pelos juros abusivos pagos anos a fio pelos títulos da dívida pública, estrutura fundiária extremamente concentrada (o que determina o inchaço favelado na periferia das grandes cidades), política cambial que vinha desmantelando a indústria instalada no país, política de juros que vinha determinando o desenvestimento público por longos anos e mandatos, inexistência de uma política industrial e tecnológica consistente, inexistência de uma política agrícola que exceda o atendimento aos agro-exportadores, sucateamento das ferrovias, quase inexistência das hidrovias, num país que conta com quase 50.000 km de águas fluviais navegáveis, para começar...Claro que há muito mais...

Observando atentamente os números do ministério da fazenda (industriaeagricultura.blogspot.com), veremos que o que determinou a hipertributação e o desinvestimento, foram a dívida pública, seus encargos e seus juros, estranha e deliberadamente aumentados pelos próprios governos, por anos a fio. Se olharmos mais de perto ainda, veremos que, em realidade, arrecadando o que arrecada, o país não precisa absolutamente vender títulos da dívida pública, muito menos ainda com juros acima dos padrões internacionais.

A presidenta Dilma Roussef, vem entretanto, reduzindo paulatinamente os juros referência da economia, introduziu uma política cambial compatível com a industria e a industrialização, com os empregos que gera qualitativa e quantitativamente e estuda outras medidas.

Talvez seja necessária uma mudança na equipe econômica para que se consiga avançar rapidamente na direção de uma política industrial e tecnológica.

A presidenta sabe disso.

Dilma Roussef além de haver destinado vultosos recursos para novas ferrovias e rodovias, estuda, em parceria com Venezuela, Colômbia, Paraguai, Argentina e Uruguai, a construção da hidrovia norte-sul, ou Caribe-Rio da Prata, que requer apenas intervenções modestas nos rios Casiquiare e Guaporé, fazendo as ligações das bacias do Orinoco com a do Amazonas e deste com a do Prata. Na bacia amazônica, 20.000 km de águas navegáveis ficam integradas imediatamente.

Basta olhar o mapa da América do Sul para perceber a importância desta hidrovia e a "virada" que ela representa. Ademais, outras obras, em anos subsequentes, permitirão a conexão com outras bacias do subcontinente, como a do São Francisco e permitirão a integração, por este modal, de 9 dos 10 países que o integram.

Estuda também, nossa presidenta, a reconstrução do solo, da flora, da fauna e do regime pluviométrico do semi-árido brasileiro (veja o mapa!), que abriga 18.000.000 de brasileiros e ocupa quase um milhão de quilômetros quadrados. Tal reconstrução se fará a baixíssimo custo, sem obras de engenharia, porém apoiada na sucessão natural das espécies, segundo uma técnica chamada Sistemas Agroflorestais Regenerativos Análogos (SAFRA), desenvolvida e divulgada no Brasil, pelo suisso Ernst Götsch, que está em plena atividade.

O regime pluviométrico melhora, à medida em que as espécies vegetais e animais ganham porte.

Medita Dilma Roussef também sobre as formas de promover a desasfixia tributária da economia.

Por último, mas certamente não o menos importante, avalia uma linha de financiamentos de longo prazo para aquisição de pequenas propriedades rurais, tendo as próprias fazendolas como garantia, organizadas em bolsões, com toda a assistência técnica necessária e de informação e conhecimento, associado cada bolsão a uma agro-industria que o dinamize. Desnecessário frisar que estas medidas aquecerão o mercado de terras e ampliarão a oferta de alimentos, matérias-primas, fármacos e empregos.

Alguma alteração de leis poderá fazer-se necessária.

Vindo de longa experiência na administração pública e de um passado legendário, Dilma Roussef assume seu compromisso com a história.

* Constarão ainda: mapa do semi-árido, mapa dos rios da América do Sul e bela foto da Sra. Presidenta.

Emilio José Lemos de Lima,  emiliojoselemosdelima@gmail.com