Há 2 tipos de escravos que têm em comum o fato de quererem se tornar pessoas livres, mas que se diferenciam porque uns querem deixar de ser escravos e passar a ser escravizadores e outros querem se tornar livres e acabar com a escravidão. Os primeiros maltratam seus irmãos, os exploram, os oprimem e os cagüetam para os Senhores. Babam os ovos dos seus Senhores. Os segundos defendem seus irmãos, os livram da medida do possível da exploração e da opressão. Alfinetam a bunda fedida do patrão.

Os primeiros saem da senzala e vão para a casa grande. Os segundos fogem da senzala e vão para os Kilombos. Enquanto esses voltam aos Engenhos para demolir a Casa Grande e abrir as portas da Senzala a fim de libertar seus irmãos, os primeiros vão à senzala reforçar sua segurança, para por a culpa da escravidão nos próprios escravos e absolver o Senhor por esse crime nojento e vão aos quilombos para capturar os quilombolas e trazê-los de volta para a senzala. Esses são os Jorges Velhos, os outros, os Zumbis. Como exemplo desses temos Spartacus. Como exemplo daqueles temos o Joaquim Barbosa, o Manoel Pestana e a Dona Terezinha.

A Dona Terezinha traz na sua vida as marcas da escravidão. Mas hoje está muito bem. É uma exceção. Tem casa própria, casas de aluguel, carros, etc., etc. Odeia pobres. Prá ela todo pobre é ladrão e preguiçoso. Anda sempre com os vidros (fumê) do seu carro levantados para não ser assaltada por esses ladrões pobres preguiçosos. Quando eu digo a ela que as pessoas roubam porque não tem oportunidade ela só falta me expulsar do seu carro dizendo que ela era pobre e não era preguiçosa e venceu; que pobre não trabalhar porque não quer, porque é preguiçoso, pois quem trabalha vive bem. Eu falei a ela que tinha um gari que trabalhava muito mais do que ela umas 3 vezes e era mais pobre do que ela umas 30 vezes. Mas que nada. Ela não se convence. Diz que pobre não quer trabalhar. Eu digo-lhe que não tem emprego suficiente para todo mundo. Ela diz que tem e diz que nenhum pobre quer limpar o quintal dela, que ela pagaria 10 reais para quem o limpasse. Então eu acertei com ela que ganharia esse dinheiro. E fui. Chegando na casa dela vi o quintal muito grande, cheio de imundícies, de ervas daninhas; até cobras e escorpiões devia ter ali. O quê, Dona Terezinha, 10 reais para limpar tudo isso, que eu vou gastar todo o meu dia? Você quer me escravizar? Ela disse: Mas tu num tá desempregado?

E o custo de vida? Nessas condições, é pior trabalhar do que roubar. Aí eu me lembrei do grupo de Rap Face da Morte, daquela música de título 'Mudar o Mundo', na qual há uma estrofe que diz: "Aqui a gente se vira roubando bolsa de madame".

Eu pensei: se a Terezinha que tem uma condição razoável produz toda essa imundície, imagine o Joaquim Barbosa. E o Eike Batista? Nosso planeta vai ficar submerso em imundícies. Ela diz recicla. Eu digo: é necessário mas não é suficiente, hay que reduzir o consumismo, o supérfluo. Ela retruca: cria mais desemprego ainda. Eu digo: reduz a jornada de trabalho. Ela treplica: mente desocupada é a oficina do Satanás, vão beber, fumar, roubar, etc. Mas ela não faz nada a não ser falar mal dos pobres e comer. Parece que ela não come prá viver, vive prá comer.

Os Escravizadores usam essas exceções que saem da Senzala para a Casa Grande para manter seus privilégios e reforçar as cadeias da escravidão. É uma estratégia de manipulação. Vocês, Escravos, são escravos porque não se esforçam. O Joaquim Barbosa e o Manoel Pestana se esforçaram e deixaram a senzala. Vocês mesmos são os culpados da escravidão de vocês.

É a estratégia de manipulação nº 9:

"Reforçar a Revolta pela Auto-Culpabilidade:

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!"