1- O livro

Ao escrever O HOBBIT o escritor J.RR. Tolkien, fez inúmeras referências ao seu cotidiano. Mesmo se não conhecêssemos a época em que livro foi escrito, poderíamos assegurar com absoluta segurança que esta ata do século XX. E mais, que o livro poderia ter sido escrito no Reino Unido. Afinal, várias são as pistas deixadas pelo autor.

Logo nas primeiras páginas Bilbo afirma "E uma manhã muito agradável para fumar um cachimbo..." Originário do Novo Mundo, fumo somente se popularizou no ocidente a partir do século XVII. O uso do cachimbo é uma peculiaridade inglesa. E Tolkien e seu cachimbo eram inseparáveis, como prova sua foto na abertura da luxuosa edição da Martins Fontes que adquiri.

Mais adiante, ainda no princípio do livro, ao perceber que Gandalf veio visitá-lo Bilbo lembra que o mago "...costumava fazer fogos de artifício..." Os fogos de artifício foram inventados na China. Chegaram ao velho continente na Idade Média junto com a seda.

Mais adiante o narrador frisa: "Um pouco antes da hora do chá, um tremendo toque soou na campainha da frente, e então ele se lembrou! Apressou-se e colocou uma chaleira no fogo, pôs na mesa outra xícara..." Chá, campainha, chaleira e xícara são objetos que se tornaram elementos essenciais da cultura ocidental. Entretanto isto somente ocorreu a partir do momento em que a Inglaterra conquistou a Índia e monopolizou o comércio com a China.

Os costumes e objetos importados do Oriente ajudaram a construir o imaginário vitoriano. Alguns hábitos se tornaram tão cristalizados (como o consumo do chá e o uso da xícara) que, no final do século XIX, passaram a ser considerados como sendo genuinamente ingleses. Se reconhecer a não naturalidade de quaisquer costumes e estiver preocupado com suas origens, o crítico pode perfeitamente usar as referências feitas pelo autor para descobrir a época em que a obra foi escrita e a nacionalidade do autor.

O primeiro capítulo do O HOBBIT é pródigo em referências desta natureza. "Um grande bule de café acabava de ser levado ao fogo..." O café é originário do Oriente Médio e se tornou o principal produto de exportação do Brasil no século XIX. Seu consumo também se popularizou na Europa e Estados Unidos, principais importadores do produto brasileiro.

Além das referências diretas, as metáforas criadas a partir da realidade ajudam a delimitar o momento em que a obra foi concebida. "-Cuidado! Cuidado! ?disse ele. ? Não é do sei feitio, Bilbo, deixar amigos esperando no capacho, e depois abrir a porta como uma espingarda de pressão!" As espingardas de pressão foram inventadas a pouco tempo e somente se popularizaram no século XX.

As ferrovias ajudaram a construir o universo vitoriano. A Inglaterra foi a primeira nação a investir na construção de vias férreas. À Revolução Industrial seguiu-se uma verdadeira Revolução dos Transportes no Reino Unido. Bilbo estranha o estilo de Thorin "... que irrompeu como o apito de uma locomotiva saindo de um túnel." porque locomotivas e apitos possivelmente fizeram parte do cotidiano do autor ou dos leitores para quem ele escreveu a obra.

Referências a sistemas métricos e de medição do tempo ajudam o critico a situar a época em que a obra foi escrita. Ainda no primeiro capítulo, as passagens "...A cabeça voou pelos ares cerca de cem jardas...", "- E seu pai Tharin foi-se embora no dia 21 de abril, fez cem anos na última quinta ?feira." e " ?Se tivesse tirado o pó do consolo da lareira, teria encontrado isto bem debaixo do relógio." denotam que o livro não poderia ter sido escrito na Ásia ou na Antiguidade. A medição em jardas é um costume difundido no Reino Unido e suas colônias. O calendário mencionado no livro é ocidental e recente. E se não estou enganado o relógio é uma conquista tecnológica do século XVIII.

No capítulo IV há uma interessante metáfora comparativa que também remete para o cotidiano inglês "...-Se o vento não nos levar, se não nos afogarmos, se um raio não cair em nossas cabeças, seremos apanhados por algum gigante e chutados para o céu como uma bola de futebol." Apesar de ter se tornado o esporte nacional do Brasil, o futebol foi inventado pelos ingleses. Já era muito popular na Europa antes da II Guerra Mundial.

Sobre os terríveis orcs o narrador afirma: "Não é improvável que tenham inventado algumas das máquinas que desde então perturbam o mundo, especialmente os instrumentos engenhosos para matar um grande número de pessoas de uma só vez, pois sempre gostaram muito de rodas e motores e explosões, como também de não trabalhar com as próprias mãos além do estritamente necessário." Apesar das atrocidades cometidas durante a Guerra Civil Americana e Guerra do Paraguai no século XIX, a guerra mecanizada somente se tornou sinônimo de matança em larga no princípio do século XX. Portanto, O HOBBIT somente poderia ter sido escrito após este conflito.

No capítulo V Bilbo "... procurou fósforos..." e, depois, acabou sendo observado por Gollum, criatura de "...olhos pálidos, que pareciam telescópios." Nós consideramos fósforos e telescópios coisas banais, mas é preciso salientar que ambos são objetos modernos. Como também é moderno o costume de jogar boliche, referido no capítulo VIII.

As referências e metáforas comparativas existentes na obra não deixam dúvidas. O HOBBIT foi escrito no século XX e provavelmente no Reino Unido. É claro que esta conclusão é irrelevante. Afinal, a autoria do livro é conhecida. Entretanto, nosso trabalho não foi em vão.

Nossas observações ajudam a comprovar a tese de que não há literatura fantástica sem algum tipo de apelo à realidade. A intersecção entre realidade e fantasia é que possibilita ao leitor penetrar no mundo fantástico, decodificar os símbolos do universo construído pelo escritor e perceber o quanto este é ou pode ser semelhante ao mundo em que vive.

O que distingue os homens dos animais não é a fala e o bipedalismo. É também e principalmente nossa capacidade de conhecer pelas semelhanças e diferenças. E a racionalidade é tão essencial à literatura fantástica quanto o devaneio. Nenhuma obra literária pode ser construída a partir de sonhos desvinculados da vida cotidiana dos leitores.

São as referências à realidade que unem o imaginário do leitor ao mundo imaginado pelo autor. Se ambos não partilhassem universos simbólicos com pontos de contato a comunicação seria impossível. É por isto que um texto absolutamente hermético nunca poderá ser considerada uma obra de arte. Mas é claro que isto não se aplica ao livro analisado.


2- O filme

O filme é uma excelente adaptação do livro.

O mais interessante, para mim, é constatar que a LITERATURA INFANTIL FANTÁSTICA se tornou o principal tema de FILMES ADULTOS SÉRIOS. Quanto fui assistir o filme, numa tarde de sexta-feira a sala estava quase cheia e haviam apenas duas ou três crianças nela.

Esta constatação importante, que tem sido bastante ignorada, diz muito sobre o tipo de sociedade global em que vivemos neste momento. E explica como, por exemplo, Obama pode chorar por causa de 10 crianças que morreram nos EUA pouco tempo depois de ter usado Drones para matar muitas outras crianças no Paquistão (e fomentar a morte de muitas mais na Síria).

A fantasia se tornou realidade em todos os sentidos. Os antropólogos, psicólogos, sociólogos e historiadores não tem nada a dizer sobre o assunto?