Texto já de alguns anos mas ainda atual


Publicações


O triunfo da Revolução Cubana em 1959 foi um grandioso acontecimento que impactou sobremaneira toda a América Latina. O imperialismo ianque, inimigo odiado pelos povos da América Latina, sofrera duro golpe. As tentativas de reação, como a invasão da Baia dos Porcos, fracassaram uma após outra elevando o clamor popular antiimperialista por todo continente.

Os revolucionários dos diferentes países da América Latina, cada vez mais, rechaçavam a linha reformista e pacifista predominante nos partidos comunistas seguidores das teses kruschovistas do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956). Tal descontentamento, aliado aos êxitos da Revolução Cubana, influenciou muito a luta ideológico-política nos partidos revisionistas que já vinham se fracionando e terminou dando origem a inúmeras organizações revolucionárias, que elegeram a luta armada para a libertação nacional e social. No Brasil surgiram muitas organizações revolucionárias influenciadas pelas idéias surgidas na Revolução Cubana, tais como ALN, MR8, VPR, etc. O PCdoB, PCdoB-Ala Vermelha, APML e PCR se aproximaram da experiência da Revolução Chinesa. Já o PCB de Prestes afundou-se mais ainda no revisionismo soviético de Kruschov.

Contudo, já no final da década de 1960 e inícios da de 1970, essas organizações, em sua grande maioria, foram derrotadas em sua luta armada. Entre outros fatores, a causa essencial de tais derrotas se deveu à concepção de luta armada empregada. A concepção militar, de forte influência da Revolução Cubana, que prevalecera na maioria dessas organizações ficou conhecida por ?teoria do foco?. A idéia de que grupos de revolucionários pudessem deflagrar um processo revolucionário, rapidamente se verificou incorreta e fracassou. Apesar do heroísmo de tantos combatentes que verteram seu sangue em prol da causa de libertação popular, na prática, revelou-se incapaz de incorporar as massas e por diversas causas fracassou. Essencialmente o erro esteve na concepção militar que expressava um caráter de classe burguês ou pequeno-burguês, a qual baseia todo êxito na capacidade militar e no armamento. Mesmo as organizações que buscaram adotar outra concepção militar terminaram, na prática, de uma forma geral, incorrendo nos mesmos erros ?foquistas?.

Che, como revolucionário, defendia abertamente em seus escritos e discursos a luta armada como única forma capaz de levar o povo à conquista de sua libertação. Defendia a Guerra de Guerrilhas como caminho para se construir as forças armadas populares, passando de pequenas e débeis a grandes e poderosas, até superar as forças armadas dos exploradores e opressores que são grandes e muito bem equipadas. Defendia que as revoluções nas colônias e semicolônias deveriam estar dirigidas contra o imperialismo, principalmente o ianque, tendo em vista ser este o inimigo comum dos povos e ser principal a contradição que opõem nações e povos oprimidos ao imperialismo. Todos estes pontos de vistas são verdades confirmadas por todas as revoluções do século XX.

No entanto, Che descuidou subestimando alguns princípios da teoria revolucionária do proletariado (o marxismo), como ficou demonstrado em algumas iniciativas suas, tais como a luta no Congo e na Bolívia. A questão de que, para a revolução proletária (e em decorrência, na época do imperialismo, também as revoluções de libertação nacional) faz-se necessário a existência de um partido de vanguarda do proletariado, armado com a ideologia e teoria científicas e ao mesmo tempo sendo um partido que tem caráter de massas, é pedra de toque do marxismo. Pois, segundo o marxismo, são as massas que fazem a história e o partido as dirige . Isto implica que, sendo a luta armada a forma superior da luta da classe, para o proletariado ela só pode ser conduzida consequentemente se dirigida pela ideologia do proletariado concretizada no seu partido de vanguarda, o partido comunista.

Isto quer dizer que um autêntico partido comunista, não importa o seu tamanho, pois este será construído no curso da própria guerra revolucionária, tem que estar armado com uma teoria e concepção militar correspondente à ideologia, política, organização e métodos do proletariado revolucionário e não com outras concepções militares.

A concepção militar do proletariado foi sistematizada, enquanto uma teoria, por Mao Tsetung no curso da grande revolução chinesa. A Guerra Popular, como se denominou, ao longo de mais de 22 anos construiu um poderoso exército popular, incorporando milhões de massas nas guerras de guerrilhas e nas guerras de movimentos, combinadas com levantamentos insurrecionais. Foram três revoluções consecutivas: a Guerra Agrária contra o feudalismo(1927 a 1937), a Guerra de Resistência contra o Japão(1937 a 1945) e a Guerra de Libertação contra o Kuomitang apoiado pelo imperialismo ianque(1945 a 1949). Foi neste complexo contexto que o Partido Comunista da China, sob a chefatura do Presidente Mao Tsetung, comandou e conduziu a revolução popular ao triunfo, expandindo de região em região, até tomar toda a China.

Combatendo as concepções dogmáticas no partido que insistiam em levar a revolução na China pela via da insurreição urbana, Mao mostrou que, por um conjunto de condições particulares da China, a revolução não poderia vencer rapidamente e se apoiar principalmente no proletariado. Mostrou que a força principal da revolução na China era o numeroso campesinato oprimido milenarmente pelo feudalismo e pelo capitalismo burocrático. Que cabia ao proletariado a direção do processo, através do seu partido de vanguarda, o Partido Comunista da China, estabelecendo uma frente única revolucionária baseada na aliança operário-camponesa. A revolução percorreria o caminho do campo à cidade através da Guerra Popular Prolongada por três etapas bem definidas: a primeira a da Defensiva Estratégica, a segunda a do Equilíbrio Estratégico e a terceira a da Ofensiva Estratégica.

Partindo de se criar primeiramente Zonas Guerrilheiras, logo transformando-as em Áreas Liberadas e Bases de Apoio, num movimento sucessivo e em ondas através das guerras de guerrilhas (do início até o fim) e das guerras de movimento e de posição (estas a partir de se atingir o Equilíbrio Estratégico). Isto significava iniciar a guerra sem retaguarda, para logo criá-la (as Bases de Apoio) e se apoiando nelas ir expandindo-as parte por parte. Sempre aplicando o princípio da superioridade relativa (opor sempre uma força numericamente várias vezes superior às forças do inimigo em cada batalha, ou seja, o princípio de concentrar uma força superior para aniquilar as forças inimigas uma por uma ) e a orientação geral de que ? quando o inimigo ataca nos retiramos, quando ele acampa os fustigamos, quando ele se cansa o atacamos e quando ele se retira o perseguimos ? .

Mao formulou ainda a teoria das ?três varinhas mágicas?, o Partido, o Exército Popular e a Frente Única Revolucionária. Afirmava que a Frente era para apoiar a luta armada, isolar e cercar o inimigo, o Exército para fazer a luta armada e que o Partido eram os heróicos combatentes que manejam as outras duas varinhas.

A Guerra Popular, como concepção e teoria militar do proletariado, ao contrário das demais concepções e teorias militares burguesas e pequeno-burguesas, parte de que as guerras são de dois tipos: guerras justas e guerras injustas. As guerras justas são guerras que as massas ou nações oprimidas fazem para se libertarem da opressão e exploração, são guerras revolucionárias para se opor às guerras injustas. As guerras injustas são as guerras feitas pelos exploradores e opressores para manter o sistema de exploração e opressão, para saquear as nações oprimidas e para combater as guerras justas e revolucionárias. De que são os homens e não as armas o que decide. O que importa é a ideologia que tem o homem e dela ser justa e revolucionária.

De forma que a Guerra Popular não é uma ?guerrilha? como os imperialistas e todos oportunistas, tal como os trotskistas procuram caracterizar. A Guerra Popular é uma teoria militar marxista, portanto científica e como tal é uma concepção que vai além de ser um modo particular de fazer a guerra revolucionária. É a concepção marxista mais completa e desenvolvida de como aplicar a estratégia militar da revolução proletária na época em que a etapa imperialista de decomposição e agonia atingiu um grau extraordinário de militarização e violência para subjugar o proletariado em seus países e os povos e nações oprimidas. É uma concepção militar revolucionária proletária que abarca a mobilização e organização das massas para fazer a guerra de massas como condição incontornável para ir destruindo o velho poder genocida da burguesia e latifundiários serviçais do imperialismo e ao mesmo tempo construindo o novo Poder popular revolucionário. Guerra Popular quer dizer poder das massas armadas que exercem o poder político, produzem para sustentar a guerra e promovem uma transformação em todas as relações econômicas, sociais, políticas, culturais e ideológicas destas massas.