O jornal francês Le Monde se viu obrigado a tratar para valer da corrupção no governo Lula. Até então, era um detalhe irrelevante, mencionado assim en passant, de passagem, nas reportagens em que o vespertino francês abordava assuntos brasileiros. Quase como um incoveniente, um estorvo. Em nenhum momento a corrupção no durante o governo Lula foi questão que mereceu reflexão detida no jornal.

Antes de embarcar para a terra de Joseph Stalin ? o ditador soviético sustentava que, se a mentira fosse repetida várias vezes, encontraria incautos prontos a considerá-la a mais pura verdade ?, a presidente do Brasil respondeu a perguntas do Le Monde. Na entrevista, não há uma linha sobre corrupção no Brasil. Depois da entrevista coletiva de Dilma Rousseff à imprensa no Palácio do Eliseu, na qual os jornalistas brasileiros questionaram a presidente sobre detalhes do depoimento de Marcos Valério, revelados pelo O Estado de São Paulo, o Le Monde fez um adendo com material omitido no corpo original da entrevista:

?O Brasil conseguiu conter a corrupção??, peguntou o jornalista do Le Monde.

Dilma: ?Não são as pessoas que devem ser virtuosas, mas as instituições. A sociedade deve ter todo acesso aos dados do governo. Todos que utilizam recursos públicos devem prestar contas. Caso contrário, a corrupção é beneficiada. É preciso ser voluntarista. Devido às novas tecnologias, o Brasil criou o Portal da Transparência, que registra, diariamente, todos os gastos públicos. Não tolero a corrupção e meu governo tampouco. Se há suspeitas fundamentadas, a pessoa deve sair. Bem entendido: não se deve confundir investigação e caça às bruxas, como acontece nos regimes autoritários e de exceção. Para concorrer às eleições, o candidato brasileiro deve estar em conformidade com a Lei Ficha Limpa. O Ministério Público e a Polícia Federal prendem e sancionam. E quem começou esta política foi o presidente Luiz Inácio da Silva.?

Bem, como é notório, a Lei Ficha Limpa foi aprovada devido à mobilização de milhões de brasileiros e criada a partir de projeto de lei de iniciativa popular. Mas a questão é a seguinte: por que a pergunta acima foi sonegada incialmente da entrevista? Por que foi um adendo posterior às revelações de Marcos Valério? Se o correspondente do jornal francês no Brasil e o autor da entrevista tivessem um décimo do interesse pela corrupção durante o governo Lula como o Monde tem pelas dos ex-presidentes franceses Sarkozy e Chirac, já estaria de bom tamanho.

De longe, alguns ainda acham que o Le Monde de hoje ainda é o Le Monde de outrora. Do jornalão que investigava os grampos telefônicos ilegais realizados por um grupo de arapongas, instalado dentro no Palácio do Eliseu pelo governo Mitterrand, restou o nome mundialmente famoso. Hoje, o vespertino deficitário lembra de forma recorrente um panfleto de luxo da esquerda francesa. Vide a cobertura partidária na recente eleição presidencial francesa. Bons repórteres, responsáveis pelo jornalismo investigativo do jornal, saíram do Le Monde. Juntos com colegas da revista Nouvel Observateur e do tabloide Liberation criaram um site na internet, o Mediapart. É dele que emergem as notícias mais reveladoras da política francesa.