Neste final de ano o Portal IG proporcionou aos interessados no estudo da mídia uma excelente oportunidade para analisar o comportamento dos cidadãos e para interpretar o resultado da ação da própria imprensa na opinião pública.

Trata-se da retrospectiva 2012  http://retrospectiva.ig.com.br/

Através da mesma o internauta pode votar no fato que considera mais importante nos diversos temas escolhidos pelo IG (carros, ciência, comportamento, cultura, economia, esporte, games, gente, mundo, política, tecnologia, videos).

Os temas podem ser agrupados em dois grandes blocos.

No primeiro estão todos aqueles que refletem o desejo do IG de fazer propaganda de produtos ao consumidor em potencial. Neste bloco estão: carros, games, cultura, tecnologia.

No segundo bloco agrupamos os demais temas, que referem-se a questões jornalísticas sem relação aparente com propaganda. Neste bloco estão: ciência, comportamento, economia, esporte, gente, mundo, política, videos).

A hierarquia dada pelo IG aos temas é importante e reflete como o mundo é distorcido ideologicamente pela mídia. O primeiro item a ser votado pelo internauta reflete um grande valor agregado como produto industrial, comercial e propagandístico ("carros"). "Economia" é apenas o quinto tema na ordem de votação e a "política" é o ante-penúltimo item a ser votado.

Por razões óbvias, "política" e "economia" são ou deveriam ser os temas mais importantes para o cidadão. O primeiro diz respeito à sua vida em sociedade e à utilização dos recursos comuns arrecadados; o segundo refere-se à preservação de sua vida biológica. Mas estes temas foram relegados para segundo plano. A "política" para o IG é menos importante que a "economia", como se a chave da cidadania na nossa sociedade não fosse a participação popular mas sim o capital privado e a produção de lucro para o mesmo e para a imprensa.

"Carro" é apenas um produto industrial em cuja produção uma pequena parte da população está empenhada. Seu consumo para a esmagadora maioria da população não é tão relevante quanto o "transporte público" (tema relacionado à política). Mesmo assim, o IG o escolheu "carro" como o tema mais importante. Isto ocorre não porque o carro foi o tema mais importante para a sociedade brasileira em 2012, mas porque a mídia recebe dinheiro para fazer propaganda dos diversos modelos de carros que são lançados e comercializados pela indústria.

O interesse público, que deveria nortear a atuação da mídia, fica em segundo plano. Primeiro o IG cuidou de seus interesses comerciais, fazendo o internauta acreditar que um produto (carro) é mais importante que os temas que dizem respeito à vida do internauta em sociedade (política e economia). Depois, o Portal manipula até os temas que não teriam relação com o mercado para fins mercadológicos.

O tema "cultura" mostra bem o direcionamento mercadológico da retrospectiva proposta pelo IG. Apenas filmes foram escolhidos para serem votados. De todos os filmes só 1 filme é europeu, todos os demais são norte-americanos e 2 referem-se a heróis de HQ. Os filmes também são produtos rentáveis para a imprensa, que recebe muito dinheiro para promovê-los.

No tema "comportamento", que teoricamente não teria relação com a comercialização de produtos, o primeiro item a ser votado é o que se refere à moça que vendeu a virgindade. No mundo criado pela mídia as aparências enganam, mas não muito. Numa sociedade como a nossa sexo e virgindade também são coisas e sua comercialização gera produtos midiáticos (tendências culturais). A principal valoração moral não é feita pelo internauta no momento em que escolhe em que item votará, mas pela mídia ao delimitar quais são os possíveis objetos de escolha.

Os dois últimos itens do tema "comportamento" também refletem uma certa preocupação mercadológica e sexual. As próteses e o sadomasoquismo também são produtos comercializados e geram lucro para os médicos, empresários do sexo e para a mídia. A imprensa tem o hábito lucrativo de transformar propaganda paga por médicos em "entrevistas com especialistas". Os anúncios de produtos para sexo maniacos estão espalhados nos jornais, revistas e portais de internet.

O sexo como produto é algo "capitalisticamente correto" e sempre deu bastante lucro, além de manter focada a atenção do internauta. Não foi a toa que a maioria dos votantes escolheu como item mais importante aquele que se refere à garota que vendeu sua virgindade. Por algum tempo ela saiu do anonimato para se transformar numa verdadeira celebridade. O que ela fez (vender sexo) é algo absolutamente trivial e sua nova profissão tem um nome bastante antigo. A mídia, porém, não tratou esta moça como uma "puta" qualquer, mas como alguém que inventa uma nova tendência. O produto midiático que ela representa, entretanto, não totalmente é novo.

Há bem pouco tempo uma outra "puta" fez sucesso na internet. Depois ela foi lançada como produto cultural para ser consumido na tela grande (refiro-me a Bruna Surfistinha). Quanto tempo o "mercado" (este verdadeiro deus dos jornalistas) levará para fazer um filme da vida desta moça que vendeu a virgindade?

O tema "mundo" mostra duas coisas interessantes sobre o imaginário dos jornalistas que prepararam a retrospectiva. Primeiro, não há nenhum fato ocorrido no Brasil digno de ser considerado importante para o tema "mundo" pelo IG. Dos cinco itens em que o internauta pode votar, 3 ocorreram nos EUA ou referem-se aos EUA (reeleição de Obama, atirador no cinema e morto do embaixador norte-americano). Mesmo quando dá ao internauta a oportunidade de votar, a mídia brasileira se mostra inteiramente colonizada pela idéia distorcida de que o que ocorre nos EUA é mais importante do que ocorre nos outros lugares ou que nada do que ocorre no Brasil tem importância mundial. E isto exatamente no momento em que o Brasil, com sua economia saudável em tempos de crise mundial, se tornou porto seguro para investimentos estrangeiros e destino de produtos industrializados nos países ricos em crise.

Neste caso o resultado da votação também é interessante. A maioria dos internautas acredita que a reeleição de Obama é o fato mais importante. Obama, contudo, já não é novidade. Quando ele foi eleito pela primeira vez, o fato era realmente novo (nunca antes um negro havia sido eleito presidente dos EUA). Ao fim de seu primeiro mandato, entretanto, Obama havia feito bem pouco para mudar as tendências da política externa dos EUA (ele não conseguiu nem mesmo fechar Guantanamo).

Dentre os itens escolhidos pelo IG, a morte do embaixador dos EUA é de longe o fato mais importante ocorrido em 2012. Ele mostra duas coisas: 1) que a política externa morte-americana continua a mesma (unilateral e baseada no uso de extrema violência militar) e segue despertando o mesmo ódio nos povos pisoteados pelos soldados dos EUA; 2) que os diplomatas norte-americanos não estão e não ficarão seguros, pois eles continuarão a ser considerados legítimos alvos de guerra (no Brasil, um embaixador dos EUA foi sequestrado após o golpe de 1964 orquestrado pela CIA ( http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/02/440049.shtml ).

Mesmo preservando o critério distorcido (segundo o qual o que refere-se aos EUA é mais importante do que aquilo que diz respeito aos outros países) o IG poderia muito bem ter substituído no tema "mundo" o item do atirador do cinema por outro bem mais significativo: o uso de Drones para matar terroristas e crianças no Paquistão. Este fato marcou negativamente a administração de Obama em 2012, quer porque crianças inocentes foram despedaçadas por máquinas de guerra operadas a milhares de quilômetros de distância, quer porque o uso de misseis em Drones não é permitido pela legislação internacional. O debate em torno desta questão jurídica foi intensa até mesmo dentro EUA, mas no "mundo" do IG nada disto parece ter relevância.

Como se vê, a imprensa brasileira (provavelmente por razões lucrativas) parece não gostar destas coisas desagradáveis, que maculam a imagem dos EUA ou mostram aquele país como ele realmente é. Neste caso me parece evidente que o IG induziu seu leitor a votar na reeleição de Obama. A questão foi colocá-lo como primeiro item de votação. A morte do embaixador, que é o item mais importante, foi relegado ao final da lista, como se fosse um fato menos relevante. Ainda no tema "mundo", o internauta poderia votar no atirador do cinema, muito embora todos saibam que este tipo de incidente é bastante trivial nos EUA (tanto que voltou a ocorrer há alguns dias numa Escola). Se uma outra questão mais importante substituísse o incidente do atirador do cinema (por exemplo, o uso de Drones ilegalmente armados com mísseis para matar terroristas e crianças no Paquistão) o resultado da votação certamente seria outro.

A maioria dos internautas votou na reeleição de Obama não na de Chavez. A distorção produzida pela mídia pró-norte-americana neste caso é evidente. A Venezuela, que se tornou membro do Mercosul e já faz parte da UNASUL, será em breve um importante parceiro econômico do Brasil. Mesmo assim, o IG preferiu fazer a reeleição Obama disputar com reeleição de Chavez e não com a entrada da Venezuela no Mercosul (algo bem mais importante para o mundo e para o Brasil).

E já que estamos falando de comércio exterior, nunca é demais lembrar que faz tempo que os EUA deixou de ser o principal parceiro econômico do nosso país, posição hoje ocupada pela China. Contudo, para o IG nada do que ocorreu na China (que em breve será mundialmente mais importante que os EUA) é digno de ser votado pelos brasileiros. Esta omissão significativa aliada às distorções relevantes anteriormente mencionadas, revela como a votação na reeleição de Obama (fato mundial mais importante para os internautas do IG) foi produzida intencionalmente pelo IG.

Há muitas outras questões a serem avaliadas nesta retrospectiva mercadológica do IG. Mas não pretendo continuar. Os interessados que consultem os resultados e produzam suas próprias interpretações.

Para mim, o fato mais marcante de 2012 foi a preservação das distorções pró-norte-americanas na mídia brasileira. A retrospectiva do IG demonstra isto de maneira bastante eloquente.