A Revolução Proletária Russa de 1917 é um dos principais marcos da luta de classes. Passados 95 anos da revolução, seu significado e sua própria história são alvos de disputas políticas e ideológicas. É comum, por exemplo, a Revolução de 1917 ser denominada de ?Revolução Bolchevique?, ?Revolução Comunista? ou ainda ?Revolução Marxista?. Como resultado da política do PCUS, essas diferentes denominações são, na verdade, formas de esconder a pluralidade de organizações políticas da classe trabalhadora russa que atuaram como sujeitos revolucionários.

Um capítulo decisivo da história da Revolução Russa foi a atuação do Exército Insurgente Ucraniano ? a Makhnovtchina, e a proposta de uma revolução dentro da revolução. Sendo a referência bakuninista durante a Revolução de 1917, a história e o significado da Makhonovtchina devem ser resgatados.

1. O papel revolucionário de Nestor Makhno


Makhno em meio em Exército Insurgente preparando tática contra Wrangel ? Outubro de 1920

A história do Exército Insurrecional Makhnovista, ou simplesmente Makhnovitchina, começa com a saída do camponês anarquista Nestor Makhno, em fevereiro de 1917, da prisão Boutirki, em Moscou. Ele havia sido preso devido a sua participação no movimento insurrecional de 1905-07, quando era ainda um adolescente. Ao sair da cadeia, se livrando da pena de prisão perpétua devido a anistia, ele retornou a sua terra natal, de nome Gulai-Polé, na Ucrânia. Reencontrou o Grupo Anarquista Comunista, de que fizera parte, e neste travaria um debate interno sobre o posicionamento do anarquismo frente à revolução.

O debate entre os anarquistas girava em torno da seguinte questão: os anarquistas deveriam participar das organizações populares ou fazer propaganda de fora delas? Makhno sustentava que os anarquistas deveriam atuar no interior do movimento dos trabalhadores, cuja base na Ucrânia era de camponeses. Kalinitchenko, por sua vez, defendia que os anarquistas deveriam limitar-se ao trabalho de propaganda.

Seguindo a linha política de Makhno, o Grupo Anarquista Comunista constrói a União dos Camponeses, que agregaria toda a população camponesa de Gulai-Polé, em torno de um programa de ação coletiva de expropriação dos grandes proprietários e de combate ao Governo Provisório de Kerensky. A atuação da União dos Camponeses, juntamente com as Uniões Operárias das Usinas e Fábricas e com os Sovietes de Camponeses, Operários e Soldados, possibilitou a instalação do autogoverno dos trabalhadores. No ano de 1918, se formariam na região de Gulai-Polé e cercanias, quatro comunas livres (sem obrigação para com proprietários rurais), denominadas Comuna Rosa Luxemburgo, Comuna 1, 2 e 3.

Em 1918, eclode a Guerra Civil. Os Bolcheviques assinam o acordo de paz com a Alemanha, Brest-Litovsk, aceitando entregar a Ucrânia. Tropas austro-alemãs invadem a Ucrânia e apoiam às forças contrarrevolucionárias do Exército Branco. Os trabalhadores organizados fazem a resistência e a defesa da revolução. Primeiro na forma de guerrilha, mas os confrontos exigem a organização de um exército popular. Assim, como resultado direto da linha política de Nestor Makhno e do Grupo Anarquista Comunista de Gulai-Polé, é organizado o Exército Insurgente da Ucrânia. Portanto, a Makhnovtchina era um movimento de massas, de base camponesa e orientação anarquista.

2. A Makhnovtchina e a defesa da Revolução

No fim de 1918, durante a Guerra Civil, três forças políticas importantes, muito diferentes, estavam em ação na Ucrânia: 1) Petliurovstchina ? movimento nacionalista, de nome oficial Rada, composto pela burguesia nacional, e que conseguiu uma adesão de segmentos das frações trabalhadoras ; 2) Bolchevismo ? o Partido/Estado; e 3) Makhnovtchina ? Exército Insurgente.

O Exército Insurgente da Ucrânia operava no ?Governo? de Ekaterinoslav ? unidade administrativa regional, composta de diversos Distritos, Comitês Comunais (unidades locais) e inúmeras aldeias. A Rada Central, Governo Nacional, ficava em Kiev. Ao sul e ao leste de Ekaterinoslav, era território libertado pela Makhnovtchina. Ekaterinoslav era território sobre domínio dos bolcheviques, e à oeste o domínio era dos petluristas.

A Makhnovtchina atuou durante a Guerra Civil na defesa da Revolução, avançando na libertação de territórios para garantir a soberania dos Sovietes. A partir daí, a política socialista de conselhos da União de Camponeses adquiriu expressão territorial, com a sua influência no Soviete de Camponeses, Operários e Soldados de Gulai-Polé. Foi consolidada a expropriação, o desarmamento da burguesia (comerciantes, industriais, grandes proprietários) e a liquidação do organismo político local do Estado, e sua substituição pelo Soviete.

A resistência dos trabalhadores ucranianos, especialmente da Makhnovtchina, foi fundamental para a defesa da Revolução Russa, pois, o precedente histórico da Comuna de Paris (1871) mostra que a invasão imperialista, resultante da ?solidariedade? burguesa interestatal, é determinante para as forças contrarrevolucionárias.

Entretanto, as divergências inconciliáveis entre os Bolcheviques e a Makhnovtchina, enquanto os primeiros implementavam a Ditadura do Proletariado, os camponeses insurgentes defendiam o autogoverno dos trabalhadores. Depois da unidade para derrotar as forças contrarrevolucionárias, o Exército Vermelho e o Exército Insurgente da Ucrânia se enfrentaram até 1921, quando a traição bolchevique resultou na perseguição de trabalhadores, na liquidação de quadros políticos e do movimento makhnovista.

A experiência revolucionária da Makhnovtchina é fundamental para o desenvolvimento da luta de classes, pois ao mesmo tempo que lança as bases do movimento insurrecional para a destruição do Estado e do Capital, mostra que a luta também passa pela superação das debilidades do revisionismo e do ecletismo, bem como pelo combate a centralização e burocratização marxista.