Marcha de encerramento do Encontro Unitário

Entre os dias 20 e 22 de agosto de 2012, ocorreu em Brasília o Encontro Nacional Unitário dos Trabalhadores e Povos do Campo, das Águas e das Florestas. O Encontro reuniu camponeses, pescadores, indígenas, assalariados rurais e demais setores populares organizados em movimentos como o MST, CONTAG, MAB, MCP, MMC, MPA, CIMI, dentre outros. Este Encontro se autointitulou como continuador do ?Congresso Camponês? de 1961.

O Congresso Camponês de 1961

Há 51 anos ocorreu o 1° Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas que uniu as principais organizações camponesas da época: a ULTAB (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil) e as Ligas Camponesas. O Partido Comunista nesse período apostava na aliança com a burguesia nacional, inclusive com setores do latifúndio, para a construção pacífica e parlamentar de um ?governo democrático e nacionalista? capaz de desenvolver as forças produtivas e uma nação capitalista. A ULTAB, dirigida pelo PCB, possuía uma linha oficial e legalista, voltada a conquistas trabalhistas rurais em diálogos com o governo.


Ligas Camponesas

As Ligas Camponesas possuíam uma estratégia de ruptura mais clara. Defendiam o potencial revolucionário do campesinato e a construção de uma revolução socialista no Brasil. Em um de seus discursos durante o Congresso, Francisco Julião, liderança das Ligas, deu o tom da luta que os camponeses deveriam travar: ?A reforma agrária será feita na lei ou na marra, com flores ou com sangue?. Apesar de o Congresso ter sido convocado pela ULTAB, a linha estratégica das Ligas Camponesas saiu vitoriosa.

A expansão do agronegócio e o governismo no movimento camponês

Com o atual avanço do agronegócio, sob a gerência de um governo de ?esquerda?, podemos ver mais claro do que nunca o caráter de classe do Estado. Independente do partido fantoche que ocupar o governo, os interesses da classe dominante permanecerão intactos, tal como na última década de governos Lula-Dilma. Após tantos anos do Congresso Camponês de 1961, o conflito reforma-revolução permanece vivo nos desafios do movimento camponês.

No Congresso de 1961 estavam claras as disputas no interior da luta, porém, no Encontro Unitário em Brasília, um campo hegemônico de alianças governistas (especialmente MST e CONTAG) deu praticamente o tom consensual ao evento. Apesar da fraseologia ?radical?, o encontro não conseguiu levar um questionamento responsável à concepção de ?reforma agrária? tutelada pelo Estado que hoje impera nos movimentos do campo, nem mesmo esboçou as críticas necessárias ao caminho parlamentar e burocrático que vem atrelando os movimentos à lógica e aos acordos com o Estado burguês. Atualmente, centenas de milhares de famílias esperam nas beiras das estradas as migalhas do INCRA, a concentração de terras vem aumentando e novas ofensivas ruralistas se anunciam.

O Encontro não foi capaz de apontar as principais tarefas da luta no campo brasileiro. Estamos a anos luz do tipo de organização e da clareza política combativa que os camponeses possuíam na década de 50/60. Em vez de nos desanimar, devemos continuar na luta pela construção de uma alternativa combativa no campo!

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Artigo publicado no Causa do Povo nº66.