Pensar sinceramente o advogado

Assis Rondônia.

Advogados comunguemos uma vez mais nossa impotência perante o sistema social no qual somos ator e espectador, em que somos Reis e Súditos. Não tivemos força social suficiente para o impedimento da classe empresarial da educação, destacando-se grandes universidades virtuais mais que física e compósita de ideais.
A universidade, ou melhor, o saber, deixou de ser uma obediência devida pelo sistema social governante ao sistema social governado, diz-se, dominado, de "dominados".
Os diretores das maiores universidades e ou faculdades de peso fazem parte das câmaras de discussões dentro do Ministério da Educação. Há legalmente uma permissão para que representantes das universidades particulares componham essa ou aquela câmara de debate. Agora essas câmaras não possuem a mesma importância e suas decisões não possuem o mesmo peso. Ai se instalou o nosso empresariado da educação privada. Resultados, falsos resultados. Estes apareceram logo em 1965, com a ditadura e a mudança ideológica do modo de governar. Os idiotas que se instalaram no Poder, por não possuírem projetos sérios academicamente, ou cientificamente, próprios, trataram primeiro de anular "um sistema" que vinha em crescimento seguro, pois nessa época 1956-1964, pariu Djanira, Rebolo, Bossa Nova, teatro, cinema, artes em geral.


Poxa como íamos bem!

Tínhamos uma enorme vontade, um enorme tesão, sonhávamos como loucos, apaixonados, delirávamos com tudo. Amávamos às pampas. Havia lança perfuma nos carnavais, era tudo uma festa, até que um louco professor de português, dicionarista de merda, se instalasse para impedir o lança perfume. Estragou um pouco da festa, por enquanto, posta a enorme cagada que ele faria pela segunda vez depois do lança perfume e do fim das brigas de galos e das "zonas".

E o que veio depois? Ora veio toda uma força que se achava embaraçada pelo progresso social que se acelerava, veio com a força policial. Estes homens cresceram da noite para o dia, eles de repente passaram a mandar, instalando-se dentro das superestruturas como força de decisão, pois, na infra-estrutura já se achavam instalados depois das sesmarias, do café, dos coronéis, dos pistoleiros.
Foi no compasso acima que revelamos nossa incompetência (cadê os grandes tribunos do direito, cadê os falastrões do Tribunal do Júri?), por não termos unidade, sabedoria e menos arrogância, ou por não nos importarmos mesmo com o natural progresso das ideias com seus movimentos filosoficamente definidos. Sim, porque não pudemos prever essa encruzilhada construída adredemente pelos homens financiadores das "C-14" de todas as cores - mas predominava a azul desanimado - esses homens financiadores (Defins da Vida, Armando Boilisen, Coperçucar, Fiesp?s, confederações, igreja, etc, etc e etc.) .

Nós íamos bem.

Juntamente com o crescimento industrial também cresceu e se desenvolveu sob às mais variadas argumentações - num discurso extremamente retórico, mas com ordem de fé pública - a indústria do ensino. Até aí, não se vê grande importância se estivéssemos a falar de um jogo leal e honesto do sistema capitalista, mãos não é isso o que se vê, e nem mesmo nesse sentido se compromete a quadrilha (se quiser, pode chamar de Quadrilha do Bem, no primeiro momento) do Poder. Eles vão jogar pesado para ganhar dinheiro e prestígio. Educação e principalmente cultura - para eles - que se foda o país. Nós advogados não vimos isso tudo acontecer? Não sabíamos e não somos preparados para deglutir o sistema social em todas as suas nuances de Aristóteles a Marx?


Pois deveríamos sê-los.

Aí está. Uma enormidade de criaturas desprotegidas pelo ensino que lhes deram, com a ideologia que lhes deram. Se ao menos houvesse esses empresários feito esforços para desmistificar a figuro do advogado-tribuno. Tivessem eles conseguido impor o mestrado, de qualidade, como forma de se admitir bacharéis, e somente bacharéis de direito nos concursos públicos, para essa especificidade. A OAB ele obterá no momento da posse no cargo público conquistado em concurso limpo e puro.
Não fizeram os empresários com seus lobbies a "necessidade" do bacharel. Permaneceu a condição de sindicalizado para ser admitido em tais serviços públicos.
Mas é curioso que para ensinar direito o professor carece de mestrado e de doutorado e não é nada relevante possuir ou não a carteira do sindicato OAB. Não é paradoxal?
Agora, se a OAB se impôs com tanta força e vigor e não pensou antes nas soluções apontadas, agora, terá de escangalhar suas portas para ingressarem todos os bacharéis em direito, posto que não vai suportar a sangria gerada pelo desforço da elite de bacharéis e de deputados - antes não pensaram ou não tiveram cú para afirmar o que devia ser afirmado, ou por covardia e oportunismo - vão agora fazer coro com a elite dos bacharéis e dos seus criadores. Estes, buscam agora protegerem suas crias. É natural. Não é?
Eu pessoalmente sou indiferente à sorte dos bacharéis na obtenção da carteira da OAB. Só que, agora, precisamente agora, em 1973 adiante, a OAB resolveu dizer o tipo de bacharel que ela esperava em suas fileiras.

Isto é uma verdade?

Seja como for, o exame é dificílimo. Se houvéssemos nós advogados de nos submetermos a exames de tal nível, seríamos reprovados. Mas ao menos, nós, em sua grande maioria, têm habilidades e competências com o uso dos raciocínios - uma maioria pensa como "direita" sempre; desconhecem Marx e Hegel - outra quantidade razoável, nem mesmo pensa.

Mas reafirmo: somente os bacharéis é que poderiam concorrer nos concursos públicos específicos para direito. O Advogado escolhe: ou a Carteira Profissional ou o emprego público. Chego a pensar para se trabalhar em empresas privadas deveria se impor um limite, também, de portadores de Carteiras da OAB.
Do contrário, não haverá como se segurar por muito tempo a cancela. A OAB, como a Maçonaria, morre em nome de sua tradição ou de seu tradicionalismo, geralmente com uma grande carga de vaidades e seus gabares, não desejando se comprometerem com um movimento firme e constante de crescimento intelectual e de toda ordem, incluindo a fome cultural e também aquela do estômago. Todo Ser tem o dever de buscar o crescimento coletivo, além do seu particular, mas o coletivo em primeiro lugar encuanto você faz sua própria construção, pois, em sua construção está o crescimento do coletivo; você precisa crescer para entender e para poder fazer os outros irmãos também entenderem, a dança não se faz isolada, a música não se houve só. O sonho também pode ser sonhado em forma coletiva. Nós Sabemos disto e não precisamos de deus nessas coisas. Precisamos um do outro. É difícil, mas nós podemos fazer acontecer. Infelizmente, o método, é aquele já conhecido: o do voto. Mas cuidado com as unanimidades tipo "plebiscito", porque neste, nós os intelectuais sempre tomamos no rabo; eles nos vencem com a mídia .
Mas e a carteira sindical?

Como vai ficar?

Quem vai impedir?

Aqueles que não competentes para pensar antes da crise?

Ou aqueles que foram competentes para forçar a cancela com a enxurrada de bacharéis que produziram?

Aqueles que estiveram, e estão, sempre, nas entranhas e estruturas das superestruturas e também das infra-estruturas?

Na demonizamos aqui os bacharéis, em absoluto. Não estamos aqui para criticá-los. Estamos somente apontando uma tremenda "pipa", uma "bananosa" enorme que temos em mãos. Uma produção de bacharéis que, a exemplo de todas as demais categorias de estudantes, estão pessimamente formados. E muitas vezes, mesmos, deformados. Alienados. Imprestáveis para "pensar" a questão social em sua grande maioria, 95/98%.

Então, e agora?

O que fazer?

Expede a carteira ao doutor?

Nega a carteira ao doutor?

E a pressão dos estamentos, quem vai suportar?

As oligarquias do poder empresariado-escolar vai ou não vai arrebentar essa "cancela" relativamente frágil?

Cantemos.
Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar
O perdão
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Eu pergunto a você
Onde vai se esconder
Da enorme euforia
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar
Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
Você vai se dar mal
Etc. e tal
La, laiá, la laiá, la laia.

Pois é. A música fira feita para o povo em época de Costa e Silva. Mas a forma que teríamos de fazer para que eles pagassem, sem raivosidade, seria uma libertação que somente a educação nos poderia facilitar.
Mas vacilamos.
Não fizemos nada para impedir o movimento social dos produtores da educação e da cultura. Esta, a cultura, nós conseguimos fazer avançar por possuir moto próprio, mas na educação a força empresarial e midiática é muito intensa onde a "Sociedade do Espetáculo" se realiza plenamente, promovendo uma alienação desgraçada. Vai assim se perder no mar imenso: "(...) perdendo assim a consciência de seus verdadeiros problemas". Assim nos perdemos.
E agora?
Dá a carteira ao bacharel, ou não?
O óbvio se apresenta. O que você advogado fez? Perguntando de modo coletivo:
OAB o que fez você, senhora poderosa, constitucionalizada no art. 133, da Constituição Federal de 1988, o que fez?
E agora?
Dá a carteira?
Pois é. Há uma força oligárquica para atravessar a "cancela". Mas eles sempre estiveram lá no Poder. Nós sabíamos. Mas não fizemos nada a tempo.
Assis Rondônia,
Limeira, 15/dez/2012