Sempre defendi e ainda defendo o "princípio da auto-determinação dos povos". Primeiro porque o mesmo constitui-se no fundamento da moderna Legislação Internacional em vigor (que foi negociada entre Estados membros da ONU e internalizada pelos mesmos). Segundo porque este princípio não foi inventado, mas o resultado de um longo processo de sedimentação histórica. Foram precisos séculos de guerras e de processos de paz para que chegasse à adequada formulação do mesmo e ao respeito da "autodeterminação dos povos".

A doença de Chavez e as dúvidas acerca de sua posse ou não transpuseram as fronteiras da Venezuela. A imprensa brasileira e norte-americana inclinam-se a tentar impedir a posse do "ditador", muito embora ele tenha sido regularmente eleito numa disputa limpa com participação da oposição. Para estes grupos anti-bolivarianos o respeito à "soberania popular" só é um corolário da democracia quando os inimigos deles são derrotados, quando seus amigos são derrotados eles ficam rangendo os dentes e arrotando comandos autoritários (exatamente como os tucanos/demonicos brasileiros, que por um processo de fusão político/biológico defende tudo que os EUA e a imprensa norte-americana e brasileira defendem).

A esquerda (pseudo-esquerda para os anarquistas) luta para empossar Chavez. O Brasil, por intermédio de seu representante, diz que aguarda e apóia a posse. Os Presidentes da Bolívia e do Uruguai (Morales e Mujica, nomes adequados para uma dupla tradicional caipira ou de repentistas) não só apoiam Chavez como foram à Venezuela participar de manifestações em favor do líder bolivariano.

A Constituição da Venezuela vai se transformando rapidamente num clássico latino-americano. Jornalistas de direita e de esquerda empunham a Constituição Bolivariana (bíblia do comunismo do século XXI) para justificar ou reforçar posições que não foram resultado da análise acurada e racional do documento, mas apenas fruto do ódio ou amor que se sente por Chavez há décadas.

Não se deve tentar interferir dentro de outro país. No momento, entretanto, todos parecem querer decidir os destinos da Venezuela mais do que os próprios venezuelanos. Esqueceram que a "não intervenção" é uma decorrência lógica do princípio da "autodeterminação dos povos" assegurado pela Legislação Internacional?

Cada vez que Morales, Mujica ou mesmo Dilma e Lula tentarem interferir na Venezuela (ou em qualquer outro país latino-americano) estarão justificando interferências ainda mais determinadas, desastrosas e destrutivas dos EUA (país que tem muito mais experiência em intervenções e grana para bancar golpes de Estado ou desestabilizações políticas).

Na minha opinião deveriam deixar os venezuelanos resolverem a parada, nem que eles tenham que quebrar o pau entre eles para afastar as influências norte-americanas (e latino-americanas também). O respeito ao "princípio da auto-determinação dos povos" pode parecer uma covardia moral, mas é uma necessidade política. Quem tentar interferir no resultado da disputa que ocorre na Venezuela neste momento terá que conviver com o rancor histórico e duradouro do grupo que for derrotado.

E por falar em derrota, nunca é demais lembrar que nos anos 1960/1970 os vietnamitas derrotaram os norte-americanos politicamente e militarmente. Desde então nunca mais os EUA tentaram interferir dentro daquele país. Recentemente até pediram desculpas pelos horrores da guerra que começaram.

Por que os norte-americanos respeitam tanto os vietnamitas e desprezam com fervor igual os venezuelanos (também os bolivianos, paraguaios, uruguaios, brasileiros, etc...)? Porque foram eles, os vietnamitas, que decidiram o que fazer com seu país, expulsando o inimigo sem se submeter a qualquer aliado ou vizinho.

A força de um povo vem da sua resolução de resolver seus próprios problemas. Toda vez que tentarmos interferir num outro país latino-americano (mesmo que para contrabalançar uma interferência dos EUA), a soberania do nosso vizinho será comprometida. O enfraquecimento da resolução dos venezuelanos de resolver seus próprios problemas não será produzida só pelos EUA, mas por todos os outros países latino-americanos que correm a socorrer os bolivarianos.

Líderes nascem, crescem e morrem (este é um fato inexorável). As ideologias também nascem, crescem e eventualmente morrem. Mas estas (as ideologias) também podem sobreviver à morte dos líderes pois são um fenômeno social e não singular. Se o povo venezuelano não alimentar e não defender o bolivarianismo sem Chavez, de nada adiantará tentar interferir naquele país. Não só isto.

Qualquer interferência latino-americana favorável à preservação do bolivarianismo (com ou sem Chavez) poderá fortalecer a oposição ao partido chavista. Diante daqueles que ainda não decidiram de que lado ficarão, os dois partidos (o dos bolivarianistas e o dos anti-chavistas) serão vistos como iguais pois todos estarão aceitando interferências estrangeiras dentro da Venezuela.

Confiem no povo venezuelano. Nenhum outro povo pode decidir melhor os destinos da Venezuela.