Para flexibilizar a legislação, fazer acordos espúrios e retirar os direitos trabalhistas, existe um conluio de empresários, membros do governo federal e do judiciário e sindicalistas pelegos.

Já em maio de 2012, em visita a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o presidente da CNI, Robson Andrade, era só elogios para o anteprojeto de lei de Acordo Coletivo Especial (ACE). ?Esse projeto é sinal de uma evolução muito grande nas relações entre capital e trabalho e pode melhorar a legislação trabalhista brasileira, tirando as inseguranças jurídicas que existem para as empresas e melhorando a situação do trabalhador?, afirmava. Ciceroneado pelo então presidente do sindicato, Sérgio Nobre, hoje secretário-geral da CUT, visitou a representação dos trabalhadores na Volks, em São Bernardo, para ver na prática como é o trabalho de um Comitê Sindical de Empresa (CSE) mancomunado com os patrões.

O discurso dessa pelegada de que ?é preciso modernizar as relações de trabalho?, ?a CLT é anacrônica?, ?câmaras setoriais e comitês sindicais de empresas são experiências inovadoras e positivas? soa como música no ouvido da patronal. Por isso, na reunião o presidente da CNI ainda declarou que acredita que os trabalhadores brasileiros estão plenamente capacitados para negociar seus direitos e que os empresários hoje estão mais propícios a negociação. ?O setor empresarial amadureceu bastante?, afirmou.

Figura de proa do governo, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel é velho conhecido do presidente da CNI. Mineiro como ele, Pimentel constava na folha de pagamentos da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), na época que o presidente era Robson Andrade. Consta ter recebido R$ 1 milhão por suposta consultoria em 2009. Ao ser questionado sobre o valor pago a Pimentel, Andrade declarou descaradamente: ?Quanto vale um dia de conversa com a pessoa que tem conhecimento estratégico sobre como trabalhar com o governo? Hoje Pimentel continua só afagos ao seu amigo Robson como foi visto no 7º Encontro Nacional da Indústria, realizado em dezembro último, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília (DF), tendo como tema ?O Futuro da Indústria?.

No 7º Encontro Nacional da Indústria a CNI lançou o documento ?101 Propostas para a Modernização Trabalhista,? e apontou a área como ?um dos entraves primordiais ao desenvolvimento produtivo?. Depois de receber das mãos de Robson Andrade o documento com as medidas de retiradas de direitos trabalhistas, a presidente Dilma Rousseff, discursou afirmando que a busca pela competitividade é um ?objetivo a ser seguido? pelo governo, sendo aplaudida pelos empresários.

Também estavam na abertura do evento, os ministros da Educação, Aloísio Mercadante; da Previdência, Garibaldi Alves; do Trabalho e Emprego, Brizola Neto; da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marco Antônio Raupp; da Secretaria de Direitos Humanos, Maria do Rosário; o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz; representantes de entidades patronais e trabalhistas; entre outras figuras do gerenciamento petista.

Outro mineiro ocupante de cargo de influência para os desígnios do grande capital, presente ao Encontro da CNI, foi o ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Carlos Alberto de Paula. Ele foi um dos palestrantes do evento, participou do painel ?Legislação Trabalhista: há espaço institucional para Relações do Trabalho dar apoio à competitividade? e disse concordar com negociações tripartites (com representantes do governo, trabalhadores e empresários) na criação e alteração de toda e qualquer norma ou dispositivo trabalhista. Carlos Alberto, que fez coro com a posição da CNI de alterar a legislação trabalhista, uma semana depois foi eleito presidente do TST.

No dizer do presidente do Conselho de Relações do Trabalho da CNI, Alexandre Furlan, o documento com as 101 imposições da CNI é um grande passo para se abrir as discussões no Congresso, no governo e nas centrais sindicais sobre a necessidade de se adaptar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) às necessidades atuais da atividade econômica. ?Temos uma legislação trabalhista ultrapassada, que estimula a informalidade. Com este documento, o empresariado sai de uma postura reativa para se tornar propositivo?, salientou o empresário sanguessuga.