Esta semana o governador de São Paulo anunciou a internação compulsória dos viciados em crack. A mídia discretamente apóia esta medida. Apesar do discurso humanitário e até religioso difundido através da imprensa, é evidente que Alckimin pretende limpar só o centro da capital. Nas periferias também existem viciados em crack rolando pelas ruas, mas lá eles não incomodam quem realmente importa (para a turma do governador, é claro)


A medida encontra resistência de alguns setores da Igreja Católica. Como bem disse o padre Julio Lancellotti no Jornal da Gazeta ontem "o programa adotado por São Paulo é ilegal, pois contraria uma Lei Federal que proíbe o tratamento confinado de doentes mentais."


O mais perigoso de tudo isto, entretanto, é a forma como as pessoas e até os jornalistas se referem aos pobres viciados. Eles são tratados como "zumbis do crack". A referência aos filmes de "zumbis", que viraram uma febre mundial nos últimos 10 anos, é evidente. Na internet existem mais de 4 milhões de páginas para o vocábulo "zumbis"; a expressão "zumbis do crack" conta com 530 mil páginas.


O processo de desumanização sempre tem ou pode ter consequencias humanitárias e políticas catastróficas. No passado ele dependia da utilização da natureza e da ciência. Dois exemplos clássicos disto são: a comparação dos judeus às infestações de insetos e de roedores pelos nazistas alemães antes da implementação da Solução Final; a comparação dos Tutsis às baratas pelos Hutus antes do massacre em Ruanda.


No presente o processo de desumanização dos pobres viciados em crack se faz mediante a utilização da cultura cinematográfica global. Portanto, no futuro quando um grupo quiser eliminar complemente outro bastará seu líder brutal apontar para o "inimigo indesejado" e dizer "eles são zumbis". "O que sempre se faz com os zumbis nos filmes?" - perguntará o líder. "Eles são mortos sem qualquer piedade porque eles não são seres humanos e nunca serão humanos" - responderão seus seguidores.

De maneira intencional ou não, os comerciantes, "bons cidadãos", crianças e jornalistas que brincam de chamar os pobres viciados que rolam nas ruas de "zumbis dos crack" podem estar preparando o solo paulista para receber rios de sangue. O que ocorreu no Carandiru há bem pouco tempo (o massacre de centenas de presos pela PM) prova satisfatoriamente que os "bons cidadãos paulistas" também gostam de patrocinar e de apoiar genocídios. E um genocídio contra a parcela mais vulnerável da população paulista pode estar sendo preparado neste exato momento.