Gosto de futebol. Mas sempre me pergunto: Quanto de "futebol" realmente existe neste imenso negócio capitalista global de entretenimento com efeitos catárticos, ideológicos e políticos?

A quantidade de dinheiro público brasileiro que está sendo investido nos novos estádios é colossal. Ficaremos sem recursos estatais para combater o mosquito da dengue ou para melhorar o atendimento médico dos cidadãos no SUS? "O povo brasileiro sempre foi e sempre será muito feliz", dizem aqueles que não aceitam críticas. Os banguelos também riem, mas isto nunca fez ou fará nascer novos dentes nas suas bocas.

"O Brasil é uma República federativa soberana dotada de uma Constituição que protege o patrimônio cultural da nação e dos povos indígenas" dizem os constitucionalistas. Mas neste momento o poder político da Fifa (uma instituição privada internacional que visa lucro) é tamanho que justifica a destruição da memória cultural do país. No Rio de Janeiro um Museu do Índio corre o risco de ser demolido com ajuda da imprensa. O patrimônio cultural do Brasil e sua Constituição valem menos que um evento internacional que durará algumas semanas?

Disseram que a Copa seria um marco de modernização do país. Tudo que vejo é o Brasil se reencontrando com seu passado de desprezo pelo seu próprio regime constitucional, de ódio irracional pela cultura indígena e, sobretudo, de abjeta subserviência e demonstração de apreço por europeus como se tudo que aqui existe merecesse ser destruído ou reformado para agradá-los.

Todos os telejornais se esforçam o tempo todo para mostrar como os brasileiros estão se preparando para a Copa do Mundo. Até os taxistas, garçons e camareiras dos hotéis estão aprendendo inglês para melhor servir os europeus e norte-americanos que desembarcarão aqui em 2014. Franceses, alemães e espanhóis se deram ao trabalho de aprender a falar português quando seus países sediaram Copas do Mundo? É claro que não.

Quem visita um país é que tem que se abrir para a cultura local e para a língua do povo que pretende conhecer. Cá, porém, o complexo de vira-latas é uma instituição muito difundida e sequer questionada pela maioria dos jornalistas. Querer agradar estrangeiros é uma coisa tão "respeitável" no Brasil, que a imprensa apóia até mesmo a destruição da cultura nacional à bem do turismo internacional.

"Venham conhecer os nossos Mac Donald's?" dizem os jornalistas brasileiros aos estrangeiros. "Eles são iguais aos Mac Donald's que vocês têm nos seus países."

Não será assim que seremos modernos. Modernidade alcançam os povos que cuidam primeiro daquilo que lhes é peculiar (cultura e língua) e só depois se abrem para os outros povos.