DRAMA SURREAL
A América Latina continua a dar demonstrações de grandes absurdos. Só mesmo aqui se poderia conceber um episódio político digno dos mais imaginativos escritores do Surrealismo: um presidente moribundo, hospitalizado em outro país, mas empossado na presidência numa cerimônia de corpo ausente, e ao arrepio da Constituição. Pois é o que acontece na Venezuela. O país, na última semana, ultrapassou os limites da razoabilidade e do bom senso, e serviu de palco para um episódio que, pelo grotesco e inusitado, acentua a fama de pouca seriedade e apreço à democracia que ainda paira sobre o subcontinente.

O sensato, dado as circunstâncias, seria obedecer a Constituição quando determina que, na ausência do titular, o presidente da Assembléia Legislativa deve assumir a Presidência e convocar novas eleições em 30 dias. Entretanto, o Tribunal Superior de Justiça( TSJ) interpretou a Lei sob o prisma do chavismo, e ordenou o adiamento da posse de Chávez ? como se isso fosse possível ? por tempo indeterminado, permanecendo no exercício do cargo o vice, Nicolás Maduro.

Considerado o contexto de um país que, desde a ascensão de Chávez ao poder, em 1998, vem sendo moldado sob o desígnios do ?Comandante?, a decisão do Tribunal não surpreende. Ao longo dos últimos 14 anos, Chávez praticou constantes intervenções na Constituição e convocou sucessivos plebiscitos que lhe garantiram a continuidade no poder . Manteve a Venezuela sob num regime formalmente democrático, enquanto, de fato, submetia o parlamento ao executivo.

O TSJ foi transformado num mero órgão legalizador das decisões do governo; o Exército passou a ser não instituição do Estado venezuelano, mas uma guarda pretoriana do governo chavista. A Imprensa foi censurada e a oposição sufocada. Nesse contexto, o inusitado seria se o atual imbróglio venezuelano transcorresse dentro da normalidade democrática.

Carismático e personalista, Chávez construiu uma gigantesca e eficiente rede de assistência social, incorporando ao seu patrimônio eleitoral milhões de venezuelanos das camadas mais pobres, que reforçaram o seu propósito de permanecer ad infinitum no comando do país, por sucessivas reeleições. Ao mesmo tempo, acentuou a divisão entre as classes sociais ao alimentar o ódio às ?elites?, e isolou o país internacionalmente ao incentivar a repulsa ao ?imperialismo?.

O que está a acontecer na Venezuela , portanto, nada mais é do que o velho e conhecido golpe de estado, desta vez da forma mais pitoresca possível, e com o apoio dos amigos de Chávez no continente, alguns deles ridiculamente dispostos a participar, in loco, da farsa montada em Caracas na última semana. O governo brasileiro, que se mostrou contundente no episódio da mudança constitucional de governo no Paraguai, e contribuiu para a retirada ?provisória? do país do Mercosul, não teve a mesma atitude em relação ao golpe venezuelano.

Nesse drama surreal vivido pela Venezuela, resta saber o qaue o futuro reserva ao chavismo. Se, por um lado, as demonstrações de apoio a Chávez impressionam, pela força de mobilização das massas , também não pode ser desconsiderado a potencial possibilidade de as oposições se organizarem e enfrentarem o chavismo sem Chávez, pela força da argumentação e do voto. Quem viver,verá.
140113