A cada ano que passa a realidade se identifica cada vez mais com seu simulacro espetacular. Na fase atual, para subsistir como espetáculo as celebridades passaram a confessar coisas que esconderam do respeitável público durante o processo de construção de sua imagem. Chegamos ao ponto em que dizer "eu menti" diante das câmeras de televisão virou uma virtude pois, dependendo de quem enunciar a frase e seu contexto, a confissão poderá manter o respeitável público atento ao programa de auditório ou de entrevistas (valorizando, assim, os comerciais que sustentam a emissora).

Nos últimos anos vimos atores confessarem que são viciados em sexo, viciados em drogas, que são gays ou lésbicas. Também vimos jovens cantoras confessarem que não são virgens e jogadores, corredores e nadadores admitirem que foram infiéis, que se doparam ou ambos e por aí vai. Esta é a geração "eu confesso".

Se me fosse permitido dar um nome à mania correspondente à nova prática espetacular, a chamaria de "complexo Dorian Gray". Uma referência evidente ao personagem de Oscar Wilde, que preservava a juventude em público enquanto sua verdadeira imagem envelhecia e envilecia num quadro trancado no sótão de sua casa. Mas no caso das celebridades da era "eu confesso" a imagem espetacular delas é conservada ou rejuvenescida justamente pela admissão da mudança, da mentira, do vício, da falha de caráter e da verdadeira opção sexual cuidadosamente escondida no passado.

O primeiro a referir-se ao fenômeno da "sociedade do espetáculo" foi Guy Debord, que em seu livro "A sociedade do Espetáculo" afirmou que:

"O espetáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstrato de todas as mercadorias. O dinheiro dominou a sociedade como representação da equivalência geral, isto é, do caráter intercambiável dos bens múltiplos, cujo uso permanecia incomparável. O espetáculo é seu complemento moderno desenvolvido, no qual a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco, como uma equivalência geral àquilo que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espetáculo é o dinheiro que apenas se olha, porque nele a totalidade do uso se troca contra a totalidade da representação abstrata. O espetáculo não é apenas o servidor do pseudo-uso. mas já é em si mesmo o pseudo uso da vida." (Contraponto, 10ª impressão, 2008)

A era do "eu confesso" e do seu correspondente "complexo Dorian Gray" é mais um desdobramento da "sociedade do espetáculo".

No atual estágio das relações sociais, as pessoas são levadas a fazer qualquer coisa para ganhar ou preservar notoriedade e visibilidade. A outra opção é amargar uma enfadonha "não existência" midiática. O refúgio da filosofia continua sendo uma opção, mas para poucos (pois até alguns filósofos, como comprova a atitude de Slavoj ?i?ek, adoram ser celebridades).

Existir na e para a mídia, entretanto, tem seu preço. E o maior deles é querer continuar existindo no e para o mundo espetacularizado. O simulacro da "sociedade do espetáculo" invadiu a realidade social e a substituiu justamente porque invadiu e substitui as pessoas que o alimentam conscientemente. O resultado aí está. Atores e músicos que se dopam para interpretar mais, cantar mais e, assim, viver sempre mais alienados do cotidiano. Atletas que se dopam mais para continuar a exibir resultados exuberantes que garantam mais prêmios e, sobretudo, mais vida na mídia. Quando suas carreiras começam a decair (o que é natural, pois a ninguém é dado ficar no topo para sempre) atores, atrizes, celebridades em geral, confessam que são gays e lésbicas para voltar a ser o centro das atenções dos gays e lésbicas que povoam as redações dos jornais, telejornais e portais de internet. O espetáculo virou a medida de todas as coisas e, portanto, nada do que diz respeito à vida espetacularizada é alheia aos interesses dos simulacros humanos.

Para algumas pessoas, as que não se bastam a si próprias ou que convivem muito mal consigo mesmas, tudo que se faz, se fez ou se fará tem apenas um propósito: a exposição. A virtude do espetáculo nunca é questionada. Mesmo quando expõe a decadência da celebridade que confessa "eu menti", "eu usei drogas", etc..., o espetáculo é aplaudido. "Ele é um ser humano tão sensível" comentam os anônimos tentando ganhar prestígio emprestado quando um criminoso comete alguma atrocidade diante das câmeras se tornando, imediatamente, objeto de interesse e debate público.

Sócrates dizia que "é melhor sofrer o mal do que praticar o mal". O principal legado ético do grande filósofo ateniense já não tem mais lugar num mundo em que "fazer o mal a si mesmo ou ao próximo é irrelevante desde que se consiga notoriedade". O espetáculo tem que continuar... à qualquer custo para a felicidade enganosa de alguns e o sofrimento de milhões de anônimos que secretamente desejam notoriedade.

Eu confesso... também adoro participar do espetáculo, mas somente como crítico.