O DETRAN quer ouvir você

Pois não. Aceito a intimação de dois cartazes do DETRAN fixados nas paredes interiores do CIRETRAN (não sei o que significa isso, mas é de alguma maneira a mesma coisa que o DETRAN) em Seabra, Bahia.

Moro em Piatã, Bahia. Uns 120 km ao sul de Seabra. Em Piatã não podemos fazer ou renovar carteira de motorista por falta de TUDO que caracteriza inclusão de fato no Estado. Tenho, portanto, que viajar pra fazer a renovação.

Significa: Levantar às 03:00. Andar até a rodoviária às 04:00 para esperar ou uma van ou o busão que cheguem entre as 04:30 e 05:30. Fui o que fiz na terça-feira, dia 15 de janeiro de 2013. (Minha carteira vence no dia 21/01.)
Cheguei a Seabra as 06:30. A CIRETRAN abre s 08:00. Já têm outros quatro na minha frente. E até as 08:00 a fila cresceu para umas quarenta pessoas.

O atendimento ocorre numa espécie de ante-sala. Sem nada. Não pode sentar, não tem senha, não tem qualquer informação. Tem é o rotineiro caos. Os menos inescrupulosos levando o melhor.
Quando chegar à quiche tem de se curvar na cintura a 90 graus pra poder enfiar a cabeça em baixo de uma janela aberta para poder se comunicar com quem estiver atendendo do outro lado.

Entrego os documentos requeridos (tive pesquisado na internet anteriormente o que me ?salvou?) e após muita confusão, me perguntaram se tivesse profissão remunerada o que logicamente afirmei e o atendente em seguida me classificou no ?sistema? ? quando se tratar de órgão é sempre imperativo colocar a palavra sistema entre aspas, ao menos aqui na Bahia! ? como ?motorista profissional?, o que requer uma série de exames mais complexos e pagamento maior, recibo, finalmente, o papelzinho certo. Foi estressante não só pra mim, más para todos os outros atrás de mim. Porque só UM funcionário atende...

Fui pro centro de Seabra, ao Banco do Brasil. Pegando outra fila. O que, também, é rotina na Bahia. Pagamos via os nossos impostos (entre os mais altos do M-U-N-D-O!) todo e todos tanto no DETRAN quanto no Banco (estatizado), e em contrapartida temos que perder horas em filas e pagar qualquer servicinho de novo quando chegar nossa vez (de sermos roubados). 126 Reais a mais para os cofres do DETRAN.

As 10:30 chego na clínica indicada (clínica única, monopolizada) pelo DETRAN para fazer exame de vista (como se não soubéssemos se enxergamos bem ou não, e como se não procurássemos óculos para corrigir eventuais problemas de visão). Lá é tudo de novo: fila-pagar (90 Reais)-fila antes de ser atendido (por um médico correto e até simpático ? enorme exceção!)
Rapidamente o oftalmologista afirma minha aptidão e se despediu com ?já pode voltar ao DETRAN fazer sua prova de legislação, já está liberado, boa sorte e vai com Deus?.
Cheguei de volta ao DETRAN as 11:15. Querendo fazer a prova. Porém, não é surpresa não! ? É BAHIA!!! ? nada consta na minha ficha eletrônica sobre o exame médico... E sem a aptidão física confirmada no ?sistema? não se pode fazer exame técnico. O ?sistema? (entre aspas negritas!) DETRAN. (Ao menos aqui na Bahia.)
Corro de volta à clinica. E custa muito pra poder passar pelo segurança para poder perguntar ao médico se ele realmente já colocou os meus dados no ?sistema?. O que este afirma (e eu acredito nele).
Corro ? tem uns 35 graus em Seabra ? de volta ao DETRAN. Onde chego as 11:45. O funcionário abre novamente minha ficha no ?sistema? e: nada.

Só pra não deixar duvida: toda essa correria é tentativa de completar tudo hoje. Num só dia. Para não ter que perder outro dia, trabalho e renda (como autônomo) e mais dinheiro com as viagens, a alimentação etc.

O funcionário faz a proposta que fosse almoçar e voltar as 14:00. Já que o DETRAN fecha meio-dia e só voltará neste horário.

E posso fazer o quê? Só desistir e perder de fato mais um dia (veja acima) ou tentar minha sorte nesse ?sistema? do DETRAN pela tarde. Procuro um lugar onde servem PF. Como. A primeira van de volta a Piatã já perdi. Sai meio-dia. A segunda van também já posso esquecer. Porque vai sair as 13:00.

As 13:00 estou de volta ao ?Castelo? de Franz Kafka vulgo CIRETRAN-Seabra na rua Boninal. O sol radiando e queimando eu e outros. Não há lugar onde se proteger. Não há assento algum. Só há portões fechados. Continuem fechados as 14:00. Pontualidade na Bahia é como neve na Amazônia.

Quando então o funcionário as 14:20 novamente abre minha ficha eletrônica... O mesmo resultado nulo. Também as 15:10. Nada.

Está confirmado: o ?sistema? do DETRAN não consegue atualizar dados eletrônicos via internet de pessoas que PAGAM DUAS VEZES (impostos + tarifas) para toda esta tragicomédia dentro de quatro horas e meia. (Um sinal de rádio viajando à velocidade da luz percorre, neste tempo, perto de cinco bilhões de quilômetros. Mais ou menos a distância entre a Terra e o Plutão. A Idade da Luz, porém, está séculos da realidade dos órgãos baianos...)

Está confirmado também: Vou ter que voltar outro dia mais uma vez para fazer essa prova de ?legislação? (Sobre direção defensiva e primeiros socorros. Coisas que já aplico no meu dia-a-dia de motorista há 35 anos. Como, também, consta pelo fato de nunca ter sido envolvido num acidente de trânsito. Fato que aqui no Brasil, porém, não é considerado. Tampouco na hora de pagar IPVU. Pago a mesma quantia enorme que todos aqueles que batem e matem a vontade. Eis, alias, uma das essências seculares do Brasil: país da Justiça burlada e violentada por todos e todos os dias. O Brasil oficial em primeiro lugar!)

Agora é pra correr de novo. Correr ao terminal rodoviário para não perder o busão, a última oportunidade de chegar a casa ainda hoje.

Quando chego a casa, nessa terça-feira, 15 de janeiro de 2013 são 18:10 horas. Gastei
275 Reais e mais do que 14 horas. Contrapartida do Estado que pago TODOS OS DIAS via os impostos embutidos em tudo que compro: Um atestado de vista perdido no cyberspace da ficção do ?sistema? DETRAN...

O dia depois, quarta-feira, 16 de janeiro, olho periodicamente a página do DETRAN na busca de meu atestado. Nada, nada, nada. Consta, finalmente!, apenas as 16:40. 30 horas após. Eficiência impressionante. Em plena época digitalizada...

Não posso viajar a Seabra no dia seguinte. Para dar continuação ao meu papel neste pesadelo kafkiano e/ou tragicomédia. Porque tenho de trabalhar. Para a) continuar comendo = vivendo, e para b) pagar os salários de toda esta imensa pirâmide de incapazes e insaciáveis. Da chefia da república, pros ministros, secretários, senadores, deputados federais e estaduais, governadores e seus mordomos e mordomias..., até os funcionários do Banco do Brasil e do DETRAN (e dezenas de outros ?órgãos? vitais para nosso pesadelo de todos os dias).

Viajo, então, na sexta-feira, dia 18 de janeiro na tentativa de concluir um processo que em outros países nem existe (porque te dão carteira vitalícia) ou demora uma hora se for muito: renovar uma carteira de motorista.

O mesmo esquema. Levantar as 03:00. Sair de casa as 04:00. Chegar a Seabra as 06:30. Esperar.
Por volta das 08:00 começam chegar funcionários. Poucos, alias. E avisem logo: ?Gente hoje não vai ter atendimento. Não tem energia.?

É a hora quando sinto empatia por terroristas. E não ? como é de costume ? pelas vítimas.

Seabra, a única cidade num radio de 150 km que oferece o serviço de tirar carteira de motorista está, como dizem as pessoas nativas na fila, desde o dia anterior as 21:00 sem energia. O que só confirma mais uma vez o que todos nós que somos flagelados por vivermos no Estado da Bahia com seus péssimos governantes de TODOS os ?partidos? (aqui coloco aspas porque são cartéis de interesses próprios sem ideologia nem ética algumas) sabemos empiricamente muito bem. A COELBA-IBERDOLA, multi espanhola que recebeu o monopólio de fornecimento de energia na Bahia, entrega é mais apagões e apaguinhos e interrupções do que energia própria. Quando não chover dizem que é por falta de água. Quando chover dizem que é por causa da chuva. Pinóquios profissionais. Como se em países com pouquíssima chuva não tiver fornecimento de energia. Como se em países com altíssimos índices de chuva não tivesse fornecimento de energia. Só no país chamado Brasil mesmo ocorrem tais milagres. Apesar de nós pagarmos um dos preços mais altos DO MUNDO pela kWh (que não chega).
Eu e alguns outros que vieram de lugares até mais afastados (Ibotirama, por exemplo) decidimos esperar. E rezar.

Estas duas atividades, porém, temos que realizar no chão de concreto bruto. Encostados em paredes uma vez verdes e agora cheias de manchas escuras de sujeira. Não tem mínima infra-estrutura para acolher um ser humano nesta ante-sala. Nem bicho ? em OUTROS países ? se prende assim.

09:00 horas. Nada de energia.

09:40, a energia está voltando! Após 12 horas e 40 minutos. E volta animo entre os candidatos já na beira da depressão. (Ou do CONTRA-terrorismo, veja acima.)
Porém, o único funcionário capaz de atender os candidatos ? o que os outros lá fazem não sei dizer, é enigmático ? ainda não chegou. Teve preferido ficar em casa. Para que aparecer, se não houver energia? (Moral do ?funcionalismo? baiano.)
Ele chega as 10:00. E novamente não há nenhuma tentativa de averiguar quem tivesse chegado primeiro, segundo, terceiro... Os mais brutais e menos educados levam vantagem. A lei da selva na casa do CIRETRAN Seabra, Bahia. (Recomendo visitação aos estudantes da antropologia social. Ou pra aqueles que pensem em mudar à Bahia. É revelador!)

As 10:30 chega minha hora. Posso sentar diante um computador e começar responder perguntas. Perguntas, alias, escritos numa ortografia às vezes ridícula e difícil de ser entendida (interpretada) por quem SABE da língua portuguesa. Letra maiúscula, por exemplo, no início de uma nova frase: inexistente. Mesmo assim, nem 20 minutos depois concluo minha prova. Aperto a tecla ?concluir? e..., cai o ?sistema?! Surge uma janelinha dizendo que não é pra se preocupar porque tudo foi salvo.

Bom ?não se preocupar? quando depender no exercício de sua cidadania de um órgão como o DETRAN é, diria, uma impossibilidade. ?Não explodir de raiva? seria, no meu ver empírico, o melhor e mais adequado conselho.

Levanto, respiro profundamente, e procuro pelo funcionário. Ele tenta recuperar meus dados e não consegue. Vem uma colega, que tampouco consegue. Eu delirando sobre as conseqüências. Fazer tudo de novo, pagar tudo de novo, perder mais dias de trabalho, mais danos...

Aí, de repente, o rapaz consegue. Surgem meus dados. ?Aprovado?. ?Apto?. Lógico. Sabia disso bem antes de entrar no pesadelo DETRAN na terça-feira passada. 35 anos de moto sem me envolver em nenhum acidente são mais prova que essas perguntas ridículas do exame. Mas, afinal, não trata-se disso, da educação dos motoristas. Trata-se é do roubo organizado do cidadão. Tirar todo dinheiro possível da bolsa e do suor do trabalho dele para em contrapartida o incomodar e torturar com ?serviços? indignos para qualquer país que se quer chamar de Estado Democrático de Direito com: direito.

E minha tortura não acabou. Terá, no mínimo, mais um ato. Porque o DETRAN não envie ou entrega as cartas de motorista duplamente pagas. VOCÊ tem de ir lá procurar.
O que, no meu caso, significa: levantar as 03:00, sair de casa as 04:00...

Após é isto que tenho de dizer. À Ouvidoria do DETRAN e ao Brasil e ao Mundo.

Atenciosamente,
Ardaga


PS: Tem mais. E mais ridículo ainda. Os endereços eletrônicos nos cartazes do DETRAN para onde se deve enviar elogios e críticas ? ?O DETRAN quer ouvir você? ? são:

www.detran.ba.gov.br
www.ouvidoriageral.com.br

O segundo nem sequer existe. Lógico. Órgão governamental tem org. e não com. Mas pros excelências do DETRAN, super-bem pagos com aquilo roubado de nós, isto é desconhecido.
E quando você abre a página da Ouvidoria da Bahia com o endereço certo ( http://www.tag2.ouvidoriageral.ba.gov.br ), tampouco, adianta. Porque o TAG dela ( http://www.tag2.ouvidoriageral.ba.gov.br/tag/novamanif0708.dll/EXEC ) trava. Permanentemente. É inútil. Como todo o resto...