A representação social hegemônica e latente da mentalidade média nos dia de hoje conjuga materialismo vulgar à um determinismo idealista de diversos matizes, que vão das mais irracionais e mistificadoras concepções, às mais refinadas teorias jurídicas e econômicas. Entretanto não vamos trabalhar aqui a especificidade de cada uma dessas representações, mas veremos um resumo do seu censo comum do seu ponto de convergência.
O pensamento determinista sugere que todas as pessoas seriam determinadas pela sua condição econômica, e quando beiram o absurdo idealista, que seriam determinadas por suas idéias e valores. O que temos de fato é uma síntese entre os dois polos. Em relação ao argumento de ordem econômica, sua falha consiste que sua ideologia se baseia em uma pretensão de enquadrar as classes sociais, com seus indivíduos dentro de suas respectivas funções sociais, entretanto elas não podem explicar o desvio, isto é, o fato de alguns sujeitos se orientar mais pelas suas convicções morais e políticas do que pela sua condição econômica, por exemplo as determinações econômicas de uma classe social oprimida não explica as formas variadas de resistência e a constituição de representação dispares. Em um mesmo bairro de periferia, mesmo inseridos no ciclo de trabalho e consumo, sendo facetas do mercado e da economia, alguns trabalhadores evangélicos não orientam sua crença para mercado, sendo críticos à teologia da prosperidade, outros são formam o sindicalismo de luta, cada vez mais raro em dias de crescimento econômico. Outros optam pelo banditismo, outros pela arte critica como o rap, hip hop, outros se dedicam aos estudos e ao serviço publico, outros viram pequenos comerciantes, outros deixam sua classes sociais para ascender, outros mergulham na miséria e na loucura. Essa escolhas são produto de suas trajetória individuais e sobre-determinam as determinações econômicas que é o trabalho assalariado para o mercado.
Quando essa reação parcial de negação de uma vida voltada para o mercado de trabalho é sistemática vê-se formar um ethos insubmisso ou revolucionário. O comerciante local não quer a concorrência do grande capital, nem ter que pagar imposto, o cantor de Rap que compõe músicas de cunho critico político, o sindicalista faz propaganda política, o anarquista que faz propaganda da sua doutrina revolucionária e etc. As diversas rebeliões dos bairros de periferia demonstram isso no Brasil e no mundo. Basta comparar a resistência por exemplo da população da favela Sonho Real com Canudos e ver que apesar das derrotas dessas rebeliões, suas memórias alimentam um imaginário insubmisso, criativo e inovador, embora esse imaginário seja restrito à alguns grupos de inteligência orgânica não à população em geral.
A desocupação da favela Sonho Real em 2005, passou desapercebido do publico geral, mas gerou além de músicas, o rapper GOG dedicou uma música a ela, um documentário, indignação e revolta em indivíduos de diversas classes sociais, alimentando a chama da insatisfação e sede por justiça, além de é claro somar a experiência de luta ajudando a inovar táticas de resistência e respostas políticas. Vemos isso na divulgação hoje, na recepção e na solidariedade que hoje os movimentos de sem teto têm de grandes setores da sociedade, muito maiores que no período da frágil resistência da favela Sonho Real, resistência essa que quase passou anônima. Já a desocupação da favela Pinheirinho, alguns anos depois, por exemplo, repercutiu nacionalmente, e não foi a somente economia do face book que difundiu a informação, antes foi uma geração de cidadão críticos, muitos inclusive que acompanharam as parcas notícias da mídia e assistiu aos documentários produzidos pelo centro de mídia independente à época da desocupação da favela Sonho Real ou que teve contato desse fato através das canções populares de GOG, cantor de rap. Vejamos outro exemplo.
A resistência do povo de Canudos gerou uma das maiores obras da literatura brasileira além de popularizar o nome ?favela? para os bairros pobres. Hoje Canudos se multiplicou por mil. E a cada década novas formas de resistência se somam as antigas. A desocupação da favela pinheirinho foi apoiada por manifestações em todo Brasil e depois seguiu-se um debate intenso com setores esclarecidos da sociedade, e não passou no semi- anonimato como a desocupação da favela Sonho Real cerca de 7 anos antes.
O grande poeta e dramaturgo Bertold Brecht demonstrou com o próprio exemplo da sua vida que as determinações econômicas são um ponto de partida e, se determinam o individuo, o fazem de maneira negativa. Quando jovem Brecht abandonou a fábrica de seu pai e sua herança para lutar com o povo e mais tarde quando o delírio nazi-facista dominou a Alemanha, parecendo ser irresistível, mas uma vez ele negou o sistema e compôs;
?Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de habito como coisa natural, pois em
tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer impossível de mudar.?
Durante a década de 30 na Alemanha muitos poderiam justificar o ?porquê? da adesão da maior parte da população ao nazismo como uma resposta aos fatores econômicos, somados recessão profunda, mais a humilhação do pós guerra, entretanto esse pensamento não mostra que durante os 10 anos anteriores à era nazista, houve uma acirrada disputa pela consciência do povo entre comunistas e nazistas, o apoio da burguesia aos nazistas e a liderança carismática de Hitler foi o que deu a vitória em 1933 aos nazistas. O povo alemão escolheu Hitler por livre vontade, poderiam ter escolhido os comunistas, mas a falta de ?agressividade?comunista (suas divisões e alianças com a social -democracia) vez os alemães temerem Hitler, e por fim o amaram, entretanto nunca deixou de haver resistência na Alemanha, mesmo que ela se restringisse à oficiais do exército, como ficou claro no atentado a Hitler em 1944, e nesta questão o que importa é a diferença em relação aos hábitos políticos massificantes.
Quando se escolhe, se elege um representante com poderes absolutos anulamos nossa liberdade, embora esse ato seja ainda seja um ato de liberdade. Brecht não se iludiu com os benefícios do regime, muito menos com sua monstruosa ideologia. O nazismo foi antes determinado pela vontade do povo alemão do que pela crise econômica, o último exemplo cabal foi a divisão do parlamento alemão em 32, um ano antes a ascensão de Hitler, um terço dos deputados eram comunistas o outro terço nazista, o resto era dividido entre a social-democracia, conservadores e liberais. A derrota dos comunistas selou de morte o povo alemão, afinal eles elegeram Hitler.
Hoje no Brasil o crescimento econômico, somado às politicas sociais, ao reajuste permanente do salário mínimo fazem-nos crer que vivemos um período de declínio da critica e de homogeneização ao centro da política. Todos parecem se tornar conservadores, entretanto as reintegrações de posse permanecem, seja no campo quanto nos centros urbanos, índios, sem tetos são a principais vítimas, existe também um massacre da população pobre e jovem assassinados sob o rotulo de guerra ao crime, mas seria um sintoma de conservadorismo achar que não exista resistência mesmo que na forma de poesia, música e memória, veja o último clip dos Racionais Mcs, realizado na ocupação urbana Mauá, sendo uma homenagem à vida do guerrilheiro Marighella.
Então é de dentro das instituições burguesas através do mercado que surge a resistência, que o homem oprimido encontra a possibilidade de luta. A economia conforta os satisfeitos, os viciados, os saudáveis, mas nunca conforta o ser humano criativo e corajoso. Este tipo forma a memória do povo. São seu espírito de luta.