Tarantino fez dois filmes parecidos nos últimos anos. Em ambos ele deu um tratamento 'tarantiniano' à História para produzir uma inversão de valores impensada: em Bastardos Inglórios judeus torturam e exterminam nazistas; em Django um Siegfried negro do século XIX mata brancos com a mesma desenvoltura que os brancos que matavam negros.

Os ferozes defensores de Tarantino no Brasil ficaram irritados com as críticas ao filme do diretor norte-americano. Em razão disto, resolvi sugerir ao gringo que realize 'Guerra do Paraguai - o filme'.

A obra terá como tema a Guerra do Paraguai, mas na versão fílmica os paraguaios levarão a melhor sobre os malditos brasileiros.

A guerra começa quando o Brasil tenta controlar a bacia do Rio Paraguai. Em reação à política brasileira, os paraguaios invadem o Mato Grosso e o Rio Grande do Sul e o glorioso exército imperial foge para o mato 'porque a pátria é grande mas o mato é maior'.

O imperador brasileiro, completamente bêbado de vinho do Porto, vomita na mesa logo após assinar o ato imperial pelo qual foi encomendada a construção da Frota Brasileira. Os recrutadores dos Voluntários da Pátria percebem que a maioria dos homens que se oferecem para ir à guerra no Paraguai são 'veados de armário' e começam a dispensar os mesmos. Mas Osório intervem para garantir o alistamento dos veados voluntários da pátria. Corte.

A cena seguinte já é de guerra. Após bombardear Humaitá a Frota Brasileira faz a passagem da Fortaleza paraguaia e desembarca tropas atrás da mesma. À frente das tropas estão o Duque de Caxias e Osório. Enquanto eles começam a construir um acampamento, a Frota retorna à Argentina para buscar víveres e munição para os soldados brasileiros. Mas ao fazer novamente a passagem da Fortaleza de Humaitá as embarcações brasileiras são surpreendidas e afundadas pelos paraguaios sob o comando de Solano Lopes. Corte.

O filme retorna para o período anterior à guerra. Osório está totalmente entretido com o alistamento dos veados voluntários da pátria. Ele acaba se apaixonando por um recruta. Os beijões na boca entre Osório e o seu Pátroclo* serão filmados em close, bem espalhafatosos. Num quartinho sujo de um hotelzinho carioca, Osório fica de quatro para seu amante vestindo apenas cinta-liga e sutiã de seda. Corte.

A primeira batalha campal entre o exército de Solano Lopes e os brasileiros está prestes a ocorrer. Por três dias seguidos o Exército do Paraguai entra em formação de batalha, mas os brasileiros se recusam a combater porque está fazendo sol. No quarto dia está chovendo e os brasileiros entram em formação e os paraguaios aceitam a batalha. O primeiro fogo é dos brasileiros porque eles usam fuzis de culatra enquanto os paraguaios estão armados com fuzis de chispa (e não conseguem acender os pavios por causa da chuva). Discurso de um soldado brasileiro louvando Caxias por causa de sua estratégia covarde de só combater Solano Lopes quando os soldados deles não podem atirar.

Sem receber víveres, os brasileiros começam a roubar as boiadas paraguaias para poder se alimentar. Muitos brasileiros começam a desertar por fome. Um batalhão inteiro de negros brasileiros se rebela quando um recruta negro é brutalmente chicoteado porque se recusou a dividir, com um sargento branco brutal, o calango que apanhou no mato para poder saciar sua fome. Na madrugada do dia seguinte o batalhão de negros deserta e se oferece para combater pelo Paraguai sob promessa de soldo, cidadania paraguaia e liberdade ao fim da guerra.

Na segunda batalha campal entre brasileiros e paraguaios o Pátroclo* de Osório morre em combate. O Brasil leva a pior porque os soldados ficam sem munição. O exército brasileiro desmancha diante de uma carga de baionetas dos paraguaios. Milhares de brasileiros são mortos a estocadas e cutiladas. Alguns brasileiros e salvam porque correram com 'sebo nas canelas' para o acampamento fortificado. O primeiro a correr foi justamente o Duque de Caxias; "a tropa seguiu o corajoso exemplo de seu grande líder" (diz um soldado brasileiro).

No acampamento, Osório fica sabendo da morte de seu Pátroclo*. Corte. São retomadas as cenas de amor entre Osório e seu amante. Corte. Osório apanha uma pistola, monta seu cavalo e investe sozinho e furiosamente contra um pequeno contingente de paraguaios. Ele saca a pistola mas seu cavalo tropeça num buraco e ele dispara a pistola acertando o próprio rosto. Dando gritos lancinantes de dor, Osório volta para o acampamento brasileiro onde morre alguns dias depois, sempre lamentando a morte do homem de sua vida.

Solano Lopes não sabe que o Brasil não tem uma outra Esquadra e, receoso de que as tropas brasileiras venham a ser abastecidas em breve, envia um emissário ao acampamento brasileiro propondo uma justa** entre ele e o Duque de Caxias. Quem vencer ganhará a guerra, com garantia de vida e retorno ao país de origem para os soldados do exército derrotado. Caxias hesita, mas acaba aceitando a justa** porque recebeu a notícia de que a Frota brasileira foi afundada e que o Brasil não tem uma outra Frota para abastecer as tropas por ele comandadas. Corte.

O imperador brasileiro bêbado recebe a notícia de que a Frota Brasileira foi afundada. 'Agora fodeu!' são suas únicas palavras antes de entornar um copão de vinho do Porto e cair no sono na mesa do jantar. Corte.

Uma escaramuça ocorre entre os veados voluntários da pátria o batalhão de negros brasileiros que passou a lutar para o Paraguai. Vitória inconteste dos negros com cenas de torpeza e covardia vil dos veados brasileiros se repetindo aqui e ali no campo de batalha. Corte.

A justa** entre Solano Lopes e o Duque de Caxias começa. Armados apenas de seus sabres, Solano Lopes e Caxias estocam, defendem, cutilam e praguejam. Caxias acerta uma leve cutilada no ombro de Solano Lopes, que solta o sabre e cai por terra. Certo da vitória, Caxias se vangloria para suas tropas e faz um discurso sobre a superioridade dos brasileiros e a inferioridade dos paraguaios (Estes paraguaios são todos uns índios e no Brasil nós sempre matamos índios, finaliza o brasileiro).

Depois de fazer seu discurso, Caixas investe com furor contra o oponente. Mas Solano Lopes dá um pulo de gato, apanha seu sabre e decapita o Duque de Caxias antes dele desferir seu golpe.

Finda a Guerra com vitória do Paraguai, o imperador fica em maus lençóis. As notícias sobre a veadagem de Osório geram mexericos maldosos nos salões brasileiros onde ele fazia pose de macho. O filme termina com um abolicionista dizendo a seguinte frase: "negros escravos do Brasil, uní-vos aos seus irmãos paraguaios que são homens livres."



* Pátroclo = amante de Aquiles na Ilíada, cuja morte leva o herói grego à loucura, à derrotar Heitor em combate singular e morrer quando comemora sua vitória.

**Justa = combate singular para definir o resultado de uma guerra.



A direita brasileira sempre acreditou que ideologia apimentada no rabo dos outros é refresco. Então precisamos dar muito refresco ideológico para a direita brasileira.