Você chega do trabalho se sentindo mal? Se sentindo cansado? Sente que seu trabalho está minando a sua saúde? Resfriados, alergias, dores de cabeça, fadiga inexplicável, indisposições gástricas, náuseas, letargia, sonolência, dificuldade de concentração, tosse, coceira, olhos e mucosas irritados? Nem sempre isso se deve a um chefe filho da puta ou a uma empresa sem consideração. Pode ser que a culpa seja do prédio onde você trabalha. Desfavor Explica: Síndrome do Edifício Doente.

Em 1983 a Organização Mundial da Saúde reconheceu oficialmente a existência da Sídrome do Prédio Doente ou Síndrome do Edifício Doente (SED, para os íntimos) ou ainda DRE ? Doenças Relacionadas com Edifícios. Um mal moderno que predomina nas grandes cidades e está inserido na categoria ?doença ocupacional?. O curioso é que os prédios mais insalubres costumam ser justamente os mais modernos e luxuosos. Isso mesmo, a incidência em prédios antigos é menor. Segundo dados do último levantamento realizado pela própria OMS, cerca de um terço dos novos edifícios comerciais estão doentes ou, se preferirem, um em cada três trabalhadores está neste momento em um edifício doente.

Tudo graças a um mix de desinformação com economia porca de seus empregadores, que no final das contas não beneficia ninguém, pois, ainda segundo dados da OMS, o prejuízo anual com os danos causados à saúde dos trabalhadores em decorrência deste problema, só nos EUA, chega aos cem bilhões de dólares por ano. Manutenção adequada do ambiente de trabalho pode custar caro, mas não fazê-la pode custar mais caro ainda e às vezes o preço pode chegar a custar vidas humanas.

A quantidade de armadilhas que estes prédios escondem para a saúde huamana chega a assustar. Alguns fatores aparentemente pequenos, se isolados, não seriam capazes de, por si só, gerar danos significativos, mas quando somados podem detonar a saúde humana. Ácaros em quantidades industriais, carpetes colados com materiais tóxicos, fumaça de cigarro, temperatura inadequada (seja ela muito fria ou muito quente), filtros de ar condicionado cuja limpeza se dá com menos frequência que o desejado, ventilação inadequada, produtos tóxicos usados na decoração e limpeza e diversos outros fatores podem estar detonando a sua saúde. Considerando que uma pessoa adulta inala cerca de quinze mil litros de ar por dia, é assustador fazer uma estimativa da quantidade de porcarias que um prédio doente joga no nosso organismo.

O grande primeiro passo para que um prédio fique ?doente? é a ventilação. Locais fechados, sem a possibilidade de circulação de ar criam um ambiente propício para o desenvolvimento de todo tipo de detonador de saúde, sejam eles prédios grandes ou pequenos. Não importa a fonte, seja o Feng Shui, seja a Psicologia Ambiental, todos concordam que a falta de ventilação adequada é a mãe dos demais problemas. Entretanto, continuam construindo prédios sem janelas, ou com janelas que não abrem, ou janelas que abrem três dedos e não promovem a ventilação adequada. Isso cria o que especialistas chamam de ?poluição interna?, uma ambiente viciado onde os dejetos dos próprios seres humanos estancam e, somados a outros agentes poluentes, causam danos à sua saúde.

No início, a intenção era boa. Na década de 50 consta que muitos engenheiros e arquitetos decidiram criar prédios fechados como forma de isolar os trabalhadores do barulho externo para assegurar maior concentração em seu trabalho e também como forma de protegê-los da poluição que despontava com a crescente industrialização. FAIL. EPIC FAIL. A coisa de agravou após uma grave crise energética na década de 70: prédio sem janelas implica em um gasto de energia menor. E quem está pagando o preço somos nós. Até hoje insistem e fazer prédios sem ventilação adequada, o que desencadeia ou, no mínimo potencializa os demais problemas de um edifício doente.

Nada é mais porco e mais sujo do que o próprio ser humano. Estudos indicam que prédios fechados podem chegar a ser até cem vezes mais poluídos que uma rua movimentada. Por mais que exista um sistema de ar condicionado que ?renove? (muitas aspas aqui) esse ar, o filtro fica imundo em pouquíssimo tempo e dificilmente o limpam com a frequência desejada. Resultado: ácaros, fungos, bactérias, protozoários e outras nojeiras sendo ejetadas full time pelo duto de ar. É como beber água de um filtro imundo cheio de fungos, bactérias e coliformes, só que água você bebe meia dúzia de vezes por dia, já respirar, é o dia inteiro.

E o problema não são apenas os filtros. Todos os dutos por onde circula o ar do prédio deveriam ser higienizados, pois além de ficarem sujos, formam poças de água onde fungos e bactérias dançam valsa. Ocorre que para que esta limpeza seja eficiente, ela deve ser feita de uma forma cara, trabalhosa e demorada, coisa que muitas vezes se torna inviável, pois sendo um prédio comercial de grande porte, costuma funcionar sem intervalos. Vai explicar para os executivos que o ar condicionado será desligado por 48h para limpar todos os filtros e dutos de ar do prédio! Simplesmente não dá para fazer isso com frequência, então, só se faz quando a coisa já está completamente insalubre. Quando se faz. Existem prédios que passam anos sem uma limpeza desse porte.

Outro fator que compromete a saúde dos prédios: deveria ocorrer uma suposta renovação de ar que geralmente não acontece. Em vez de sugar o ar de fora, mais limpo que o ar que está do lado de dentro, eles optam por apenas fazer circular o ar que já está dentro. O motivo? O ar de fora está em outra temperatura (aqui muito acima da interna), logo sugar ar de fora implica também em ter que resfriá-lo (ou, se fosse o caso, aquecê-lo), o que consequentemente implica em um gasto maior de energia. E, vocês sabem, quando é preciso escolher entre dinheiro e bem estar do ser humano, a primeira opção costuma ter a preferência.

O ser humano também se encarrega de piorar a situação de um ar já viciado, já indevidamente reciclado. Um cigarro fumado escondido no primeiro andar (e no Rio, muita gente fuma em edifícos comerciais!) acaba circulando o dia todo e pode alastrar suas toxinas até uma pessoa infeliz que tenha alergia a cigarro que esteja dez andares acima. Aquela porra contaminada fica circulando o dia inteiro, contemplando a todos com um belo fumo passivo. Por culpa de um babaca que não respeita a lei talvez dez, vinte tenham câncer de pulmão a longo prazo.

Para piorar a situação, por algum motivo que eu desconheço mas talvez nossos engenheiros Impopulares saibam explicar, alguns prédios colocam a entrada de ar em locais absurdamente idiotas. Vi uma foto de um prédio cuja entrada de ar ficava bem na saída da chaminé de uma fábrica! Nesses casos é ainda pior, pois o ar já entra escrotamente sujo e fica ainda mais sujo do lado de dentro. Você sabe onde fica a entrada de ar do prédio em que você trabalha? Pois é, nem eu. Quando eu pergunto se recusam a me dizer, ninguém sabe, ninguém viu. Você sabe de quanto em quanto tempo os filtros e os dutos de ar são limpos? Do meu prédio eu sei: ?Olha, Dona, procurei me informar e me disseram que não tem filtros não?. Pois é, pelo visto existem prédios que nem filtro tem.

E não pense que você está seguro por trabalhar em uma grande empresa: grandes empresas costumam ser as que mais gostam de reduzir os custos e as que menos tomam cuidado com seus funcionários. Um exemplo do que eu citei no parágrafo anterior aconteceu com um escritório da Levis, em São Francisco: o ar que era jogado para dentro do prédio era sugado nas proximidades da chaminé de uma fornalha de um restaurante que ficava ao lado. A coisa só veio à tona porque uma grande revista fez uma investigação e acabou descobrindo os problemas de saúde dos funcionários e conseguiu provar uma correlação. As empresas procuram abafar esse tipo de coisa, a gente só fica sabendo quando há uma condenação judicial, mas acontece mais do que a gente imagina. Nesse caso da Levis, internamente, um dos escritórios chegou a ser apelidade de ?cubículo da morte?, porque as três pessoas que trabalharam ali morreram de câncer.

Nesse ponto você pode estar se perguntando ?Mas meus colegas não sentem nada, só eu sinto, não deve ser culpa do prédio se não todos sentiriam?. Sempre existe um elo mais fraco em matéria de resistência e saúde: uma pessoa com sistema imunológico debilitado, com propensão a alergias ou com qualquer porta aberta que facilite problemas de saúde. Por isso o fato de algumas pessoas passarem mal e outras não se abalerem não significa que o prédio não esteja doente, significa que algumas pessoas tem uma resistência maior. Spoiler: se nada for feito, chega uma hora que o caldo entorna, mesmo para aqueles que tem maior resistência. E quanto mais tempo (em matéria de horas e em matéria de anos) você passa no prédio, maiores as chances do seu organismo cansar e apresentar sintomas.

Já aconteceu diversas vezes ao redor do mundo do prédio ser tão insalubre que acabou afetando uma grande parte dos usuários. Um caso famoso ocorreu em um hotel nos EUA, onde os hóspedes tiveram, todos juntos, um surto de pneumonia bacteriana. Quando finalmente se deram conta de onde vinha o problema, resolveram limpar a torre de resfriamento de ar e, pasmem, encontraram até FUCKIN? ALGAS ali. Vinte e nove pessoas morreram. Não foi a primeira e não será a última vez. Aqui mesmo, no Brasil, a morte do então Ministro das Telecomunicações, Sergio Motta, foi atribuída a esta mesma bactéria (papo técnico: Legionella pneumophila) que teria sido encontrada também nos dutos de ar condicionado do prédio de seu ministério.

Esta morte fez com que criem a Portaria 3.523/98, estabelecendo algumas normas protetivas, que em conjunto com a Resolução n° 9 da ANVISA e NR 32 tentam minimizar o problema, além da proibição de fumar em ambientes fechados. Infelizmente não é o tipo de coisa que nós, leigos, saibamos fiscalizar e ainda que soubessemos, dificilmente poderiamos tomar uma providência. O máximo que posso te dizer é que um ambiente onde mais de 10% dos empregados sinta sinais de desconforto ou problemas de saúde já não é considerado um ambiente saudável. E para quem pensa que isso quase não acontece, que são casos isolados, nos EUA cerca de 18 mil pessoas adoecem por ano em decorrência desta bactéria, com índice de morte oscilando entre 5 a 30%.

A ventilação é sim o fator principal, mas existem outros fatores secundários que se somados, podem ser tão graves quanto. Um deles é uma praga do demônio chamada CARPETE, um jeito fácil e barato de forrar o chão. E insabubre. Desde a colocação o carpete já é nocivo para a nossa saúde. Dependendo da cola que se use (e adivinha se não se usa a mais barata e mais tóxica do mercado?) diversas substâncias nocivas podem detonar o organismo humano, causando desde irritação nos olhos e tosse até tontura e sérios problemas pulmonares. Com o passar do tempo, o carpete continua espalhando a doença: por ser difícil de limpar é um playground para sujeira, ácaros, poeira e todo tipo de porcaria.

Um vilão que normalmente não provoca suspeitas: os móveis. Móveis de madeira maciça não costumam causar problemas, porém tendem a ser mais caros. Por isso, quando são adquiridos em larga escala costuma-se optar por móveis da chamada ?madeira compensada?, móveis feitos de material mais barato que tem apenas uma casquinha externa, um ?forro? de madeira grudada com uma cola similar à usada para colar carpetes (papo técnico: resina de formaldeído). Essa cola é altamente tóxica para o ser humano e o cheiro pode ficar por muito tempo. Alguém aqui reconhece o ?cheirinho de novo? de móveis de escritório? É justamente o cheiro dessa cola. A longo prazo ela pode causar uma série de danos à nossa saúde. Essa cola é o novo amianto. Pior: além de móveis, ela é usada também em divisórias e portas, então realiza o estrago de quem trabalha naquelas baias pequenas, cercado de divisórias ?formaldeidadas? e longe de janelas!

Você já ouviu falar em ?Smog Fotoquímico?? É a perigosa combinação de lâmpadas fluorescentes com partículas em suspensão. Quase todos os escritórios usam lâmpadas fluorescentes, pois reduzem os gastos com energia elétrica, sem se importar com o fato de que elas emitem raios ultravioletas que quando entram em contato com essas partículas em suspensão criam uma fumaça poluente que acaba respirada por todos aqueles que estão no ambiente. Carpete + lâmpada fluorescente = sua saúde chorando em posição fetal.

Você trabalha nas proximidades de uma máquina de Xerox ou de fax? Pois saiba que dependendo do modelo, ela emite uma quantidade de ozônio suficiente para fazer mal ao organismo humano gernado desde fortes dores de cabeça até problemas maiores. A lista é tão grande que eu não vou conseguir citar todos os acessórios que fazem mal à saúde humana, você vai ter que se observar e, por tentativa e erro, procurar descobrir o que te faz mal, tentando se afastar ao máximo da fonte de insalubridade. Vale a pena tomar esse cuidado, pois a exposição a algumas toxinas a longo prazo pode gerar consequências muito mais desagradáveis que garganta irritada, que o digam os funcionários da companhia de petróleo BP Amoco, dos EUA, que desenvolveram uma forma rara de câncer no cérebro.

O grande problema, como eu já disse, é que nós leigos não sabemos identificar a adequação do prédio às normas que protegem nossa saúde. Posso até citar algumas recomendações oficiais, mas confesso que estou citando sem entender. Por exemplo, existe a necessidade de pelo menos 34 metros cúbicos de ar por hora por pessoa (coisa que eu jamais serei capaz de estimar). Em uma hora, o sistema de climatização deve realizar de quatro a seis renovações totais de ar (como caralhos saber isso?). A iluminação deve equivaler a uma lâmpada de 60 watts situada a uns 35 centímetros de altura, enquanto a temperatura interior deve oscilar entre 20 e 24 graus no inverno, e entre 23 e 26 graus no verão.

Você sabe verificar isso? Eu não sei. Resta o estudo empírico. Você se sente melhor quando sai do seu local de trabalho e vai para a sua casa? Você melhora e no dia seguinte, quando está bem ou quase bem sente todos os sintomas novamente quando chega no trabalho? Não, não é estresse, não é inveja que seus colegas jogam em você, não é macumba. É seu prédio que está doente mesmo, e está adoecendo você junto.

E os riscos muitas vezes transcendem a saúde individual. Existe uma coisa chamada ?concreto doente? que coloca em risco a construção como um todo, seja por alguma falha na ?congênita? (na construção ou na matéria prima) ou por um problema adquirido ao longo do tempo (como por exemplo, gás de cozinha que vaza no solo e forma ácido sulfídrico, que compromete a segurança do concreto ou então reações internas do prórpio material do qual o concreto é feito: reação alcali-agregado). Sim, concreto pode adoecer e ruir. Tenham medo.

Em qualquer caso, é muito difícil que leigos identifiquem exatamente qual é o problema. O que você pode fazer é uma pesquisa entre seus colegas e se ficar constatado que várias pessoas sentem desconfortos, levar a questão ao seu chefe. Caso ele te ignores, você pode oficializar a reclamação junto a um órgão público competente (cada município ou estado tem sua secretaria competente, procure saber qual é). Na pior das hipóteses você pode procurar também o Conselho Regional de Engenharia (que no Rio de Janeiro deixa prédio no Centro da cidade ruir sem fiscalização). Dando tudo errado, procure a imprensa. Quando sai notinha na imprensa as coisas tendem a ser solucionadas. E, claro, procure um médico.

A ganância e a menos-valia pela vida humana levam a esse tipo de problema. Trabalho nenhum no mundo vale ter a sua saúde diariamente detonada. Pense nisso.


Para dizer que nunca sentiu nada disso mas como é hipocondríaco agora vai passar mal cada vez que for trabalhar por estar sugestionado, para dizer que essa é a melhor desculpa do mundo para faltar ao trabalho ou ainda para enviar este texto para seu chefe de forma anônima para ver se ele se manca do ambiente insalubre que está promovendo:  sally@desfavor.com