Preciso fazer uma digressão para afirmar que às vezes especialização, idade e experiência podem ser muito relativos. Bem no dia em que foi anunciado o confisco do dinheiro de poupanças pelo governo Collor eu estava chegando em Joinville-SC com o pai de uma colega para vender produtos magnéticos, alguns dos quais caros, porque ele achava que eu conhecia muita gente com muito dinheiro. A grande maioria da população brasileira na época ficou contra aquele governo por causa do confisco. Inclusive porque o Collor tinha falado que o Lula é que iria confiscar as economias da poupança de bancos. O pessoal da campanha do Collor usou diversas táticas para assustar o povo contra o Lula, usando o fato de a maioria do povo - a meu ver com razão - rejeitar o comunismo.
Consta que no Estado de São Paulo, por ex., militantes do Collor se faziam passar por militantes do Lula e fingiam estar medindo terrenos de quintais p/ fazerem a reforma agrária e diziam que quem tinha 2 telefones ou duas casas teria que dividir esses bens particulares.
Bem, apesar de eu não gostar do comunismo sei que o que ele prega não é esse tipo de divisão simplória, que o capitalismo e certas elites têm problemas, que o que os socialistas querem socializar são os meios de produção, etc., etc., mas muita gente não sabia disso e se iludia com o Collor. Muitas mulheres gostavam dele porque o achavam bonito!
Acontece que provavelmente o Lula nunca foi comunista e provavelmente nem socialista. Segundo o Carlos Heitor Cony o Lula participou de pelo menos uma daquelas marchas conservadoras das quais os golpistas de 1964 se aproveitaram para justificarem o golpe.
Segundo meu amigo Vinícius o Lula e a Dilma seriam ideologicamente só trabalhistas.
Acho que pode ser até uma razão sensata para não votar em alguém o fato de este não valorizar o estudo. Mas não foi só isso que ocorreu naquela época de interessante a respeito da mentalidade dos brasileiros.
Certo dia, depois do confisco, eu estava numa fila de banco - no BESC do bairro Trindade, em Florianópolis-SC - e assim como tantos outros expressei minha indignação contra o confisco. Principalmente porque ele atingiu a maioria da classe média, muito pouco os ricos e não atingia os amigos do rei, digo, do Collor.
Então uma sra. atrás de mim começou a dizer que o povo é metido a saber das coisas e que grandes economistas haviam elogiado o confisco eufemisticamente chamado de Plano. Ora, bolas, ela não conhecia meu grau de instrução, meu Q. I., o tipo de leitura que eu fazia nem minha rede de relacionamentos. E na época alguns especialistas foram contra o - vá lá, embora só no sentido dado pelo Cebolinha - "plano".
Tanto o povo estava indignado com aquilo que diziam que o telefone da ministra Zélia era 32-4607 escrito de forma que lido ao inverso dava palavrão.
A rejeição popular ao governo Collor inicialmente só não foi maior porque existia muito medo da inflação e muita rejeição ao Lula e porque muitos não queriam admitir que tinham errado ao confiarem no playboyzinho de passado muito esquisito que depois virou aliado do PT.
Não é preciso ser doutor ou mestre para emitir opiniões e para perceber contradições. Mesmo que o povo brasileiro não tivesse já aprendido muito sobre economia depois de tantos planos econômicos, qualquer brasileiro com mais de 4 anos com Q. I. acima de 60 (ou até menos) poderia detectar enganações de autoridades e achar que às vezes deve expô-las.