Alguém aí já tirou dez segundos para reparar como estão as fotografias tiradas pelas pessoas hoje em dia? Não me refiro à qualidade técnica e sim aos protagonistas. Tirem dez segundos para reparar no quão ridículas estão ficando as fotos. Dá tristeza que as pessoas achem esse tipo de coisa bacana.

Creio eu, do alto do meu romantismo, que a intenção da fotografia seja capturar um momento legal da vida da pessoa, um momento do qual ela queira se lembrar depois, um momento que ela queira compartilhar com entes queridos em um futuro. Talvez um dia tenha sido assim. Hoje, o brasileiro médio tira foto com a mesma intenção que faz quase tudo na vida: se promover, se exaltar e fazer parecer determinada imagem perante terceiros. Ostentar ao mundo algo, geralmente muito equivocado em uma escala de valores inteligente.

Pare para avaliar um ábum de fotos de um brasileiro médio qualquer. Observe. Não são fotos de momentos felizes que a pessoa vai querer relembrar, são fotos onde a pessoa saiu gostosa, sarado, bonito ou sensualizando. São fotos onde de alguma forma a pessoa conseguiu ostentar alguma coisa: um bem material, um lugar que ela considera ?tiração de onda? estar frequentando ou até um belo decote. A foto virou uma máquina de autopromoção barata. E, é claro, mais uma forma de evadir a privacidade.

Ainda fico chocada com pessoas que, ao se prepararem para tirar a foto não se preocupam em retratar aquele momento e sim em arrumar o cabelo, mostrar o muque, o decote ou fazer biquinho. A foto passou a ser um EU: EU tenho que estar bonito, EU tenho que aparecer, EU tenho que parecer magro, EU, EU EU. Egocentrismo e evasão de privacidade estão cagando as fotos modernas. Tanto é que elas estão ficando todas iguais, quase que padronizadas.

Dificilmente você vê uma foto espontanea, criativa, divertida. É sempre gente tentando se promover de alguma forma: promover seu corpo, seus pertences, sua vida falsa ostentada em redes sociais. Gente querendo mandar recado, mostrar a determinadas pessoas que está ótima. Coitados, eles não sabem que o primeiro sinal de que a pessoa não está bem são fotos ostentando o quanto se está bem.

Não é saudosismo. Eu não acho nada bonito aquelas fotos de antigamente, posadas de forma dura e impessoal, com pessoas que mais parecem bonecos de cera. É tristeza mesmo, por ver a mediocridade chegando às fotos. Sou fã de fotos, acho do caralho, acho mágico poder eternizar um momento seu e revê-lo quantas vezes quiser. Sinto pena que um recurso tão valioso esteja sendo usando por anencéfalos sem camisa e anencéfalas fazendo bico de pato.

Saudade das fotos onde o foco era o momento vivido e não a pessoa, seu corpo, seu cabelo, seu decote. Sou de um tempo onde foto que priorizava pessoa era foto de book de modelo ou de publicidade. Talvez porque nesse tempo uma minoria possuísse máquina fotográfica. Popularizou fodeu, como quase tudo nessa vida. Principalemente esses celulares de última geração, que vem não apenas com câmeras de excelente qualidade, como também com um recurso que eu apelidei de ?vergonha alheia?: aquela câmera interna que te permite ver na tela do celular como vai ficar a foto antes de bater. Fodeu ao quadrado, neguinho passa horas fazendo caras e bocas para o próprio celular. Fazer isso deveria ser considerado um teste positivo para anencefalia.

É muito vergonhoso ver as pessoas se paquerando no celular antes de tirar uma foto. Foto espontanea nem pensar, a pessoa faz caras e bocas, testa diferentes ângulos e invariavelmente faz aquele bico de pato medonho. Não raro ela deixa passar o momento que estaria supostamente querendo retratar, mais preocupada em checar sua aparência no visor do celular. Chega a dar pena, porque aqui entre nós, quem é bonito pode tirar foto chupando macarrão que continua bonito. Todos esses atos preparatórios para uma porra de uma foto são típicos de gente feia. Gente que tira cem fotos para conseguir uma boa, que só ficou boa porque, por algum motivo, a pessoa não está parecida com ela mesma na foto.

Adoro ver fotos de pessoas sorrindo, gargalhando. Gente rolando no chão, gente conversando. Gente que não percebeu que estava sendo fotografada. Gente espontânea é sempre mais bonito. Quase não vejo mais. Também? pudera. No que alguém puxa um desses celulares a mulherada automaticamente faz algum gesto estilo meme, ou bota a mão na cintura ou faz o famigerado bico. Ficam todas iguais nas fotos, uma falta de personalidade coletiva eternizada para sempre em um retrato. Os homens costumam fazer sempre o mesmo sorriso padrão, ou dar aquela cruzada de braço mais do que ridícula na tentativa de fazer seu bíceps parecer maior. Estou com exaustão visual dessas coisas, sabe? Não consigo mais nem ver sem soltar uma onomatopéia pejorativa. Sério mesmo.

Nas fotos modernas todo mundo está feliz, está com um sorriso plastificado, está com uma pose programada. Ninguém nunca está sujo, descabelado ou confortável, mesmo quando a situação pede. Nunca esqueço do dia em que estava com um grupo de amigos em uma paintball e depois de uma partida nos reunimos para tirar fotos: as mulheres se recusaram a posar antes de lavar o rosto, passar maquiagem e escovar os cabelos. Porque este é um mundo tão cagado que periga alguém até acreditar que uma panaca toda escovada e limpa acabou de jogar paintball. É o mundo das aparências.

Ninguém quer retratar o momento pelo que ele é, as pessoas querem pegar aquele momento e fazer com que ele pareça algo que lhes seja mais benéfico, que lhes dê algum status. É autopromoção full time. Mas o pior não é isso. O pior é que são péssimos publicitários: o que eles consideram como autopromoção qualquer pessoa com mais de dois neurônios costuma considerar como vergonha alheia, demérito ou simplesmente vexame. Xinga aí, chama de velha, mas na minha opinião é tããão ordinário uma menina postar uma foto segurando um copo de bebida? Feio mesmo, desnecessário. ?Olha! Olha como eu bebo!?. Vamos tirar onda com as coisas certas, só uma vez na vida? Foto de mulher bebendo me parece infantil e vulgar.

Igualmente podre é homem tirando foto com garrafa de bebida. O que é homem posando com garrafa de Absolut? FILHO, ESCUTA A TIA SALLY: ABSOLUT É BEBIDA DE POBRE! É falta de berço posar com garrafa de Absolut! Se for vazia, deveria acarretar prisão. Ninguém com um pentelhésimo de sofisticação posaria com uma garrafa de Absolut, a menos, é claro, aquele grupo de pessoas que não tem dinheiro para comprar uma garrafa de Absolut e por isso presume que uma foto assim gera algum tipo de status. Homem posando com garrafa de bebida é tão idiota e infantil?

E aquela foto sem contexto algum, que você percebe gritantemente que a pessoa tirou dela mesma? Nem precisa ser aquela clásica de pobre na frente do espelho ou aquela com o quarto de fundo tirada via webcam. Qualquer foto sem contexto, onde o único motivo da foto é você mesmo, é meio vexaminosa. Denota um mix de autoestima baixa com necessidade de afirmação e uma pitada de pobreza e cafonice. O que leva uma pessoa a tirar trocentas fotos de si mesma e depois postar tudo na Rede Social Whatever? Se amem. Não façam isso. Se as mães de vocês não lhes deram essa dica, a Tia Sally dá: isso depõe contra a pessoa. Muito.

Mas a pessoa se acha super importante. Ela acha que o mundo todo quer ver trocentas fotos dela mesma, nos mais diversos ângulos, nas mais diversas roupas. Daí quando alguém rouba essas fotos, passa um batom falso no Paint e começa a responder perguntas usando essa foto como pano de fundo, a pessoa reclama. Bem feito. Abre o olho, você pode ser o novo rosto da Somira Responde.

Me dói de verdade que as fotos de hoje estejam tão desinteressantes. São basicamente uma ode ao ego do fotografado. Muitas vezes na hora de tirar uma foto que supostamente deveria ter como foco principal outra coisa que não a pessoa (por exemplo, uma foto na Torre Eiffel ou em qualquer outro monumento) o egocentrismo da pessoa a faz cortar o cenário para centralizar em si mesmo(a), de modo a que nem sequer se torne identificável onde foi tirada a foto.

Essas fotos programadinhas, egocêntricas, autopromocionais são tão cansativas? Será que um dia as pessoas voltarão a tirar fotos realmente interessantes? Será que um dia as pessoas sentirão falta de retratar os momentos importantes de suas vidas e não seus cornos? Porra, sua cara seus amigos conhecem, o que eles querem ver são os momentos que você está vivendo.

Outro dia vi uma foto em que uma colega minha que acabou de parir fazia bico e se posicionou de forma a tapar parcialmente o rosto do próprio bebê na foto com o braço para alcançar a pose padronizada de quem manda um beijinho. Sabe? daí coloca a legenda ?Fulana chegou? (sendo Fulana o nome do bebê). Fulana chegou e você aí, mais preocupada em fazer bico do que em mostrar seu próprio bebê. EU, EU, EU. Por isso viram uma merda de mães, porque não sabem abrir mão do EU, porque não admitem que quando se tem filhos o EU deve ficar em segundo plano e o filho ser prioridade. Não, não. Colocar filho como prioridade seria ?se anular?. Então tá. Assim até eu tenho filhos. Meia dúzia.

Um recado para quem tira essas fotos de si mesmo, que eu já dei várias vezes, das mais diversas formas: VOCÊ NÃO É TÃO INTERESSANTE. Não adianta encher seu álbum de fotos com foto sua de frente, foto sua de lado, foto sua de costas. Ninguém quer ver você nas fotos. Uma foto que se resume a você é uma foto vazia. Foto, como qualquer coisa nesta vida, tem que ter essência, profundidade, propósito. Uma foto da pessoa, pela pessoa, é uma foto sem alma. Fotografe momentos, ocasiões. Seus cornos todo mundo conhece, todo mundo está cansado de ver. E, rosto por rosto, corpo por corpo, certamente tem muitos melhores do que você na internet.

Um dos desdobramentos dessa futilização das fotos é que a maior parte das fotos que povoam esses álbuns públicos da vida são individuais. São fotos do dono do perfil sozinho, nos mais diveros ângulos. Seria coisa de gente que não nasceu bonita o suficiente para ser modelo e se realiza por ali? Ou coisa de gente que não nasceu bonita o suficiente para ser modelo nem tem autocrítica e posta essas fotos ali na esperança de ser ?descoberta? por um caça-talentos? Ahhh? a história do caça-talentos, uma das maiores lendas urbanas que tem. Todas as famosas estavam na praia ou na rua quando foram abordadas do nada por um caça-talentos, de tão lindas que elas eram. Meus amores, isso não existe. Palavra de quem já foi modelo.

Mesmo as que são coletivas, continuam todas iguais: o grupinho parado de frente ou de lado, com a mulherada fazendo meme, fazendo bico e jogando o cabelo para cobrir o braço gordo. O mesmo sorriso, a mesma pose, a mesma porra de mão na cintura. O mesmo cabelo alisado em todas as cabeças, a mesma barriga encolhida, a mesma preocupação: ?tenho que parecer linda?, sempre de olho no que o outro (inimiga, ex-namorado, ficante ou quem quer que seja) vai pensar quando ver. A foto não é para a dona guardar o bom momento e relembrar depois, a foto é pensando em terceiros. Fulano tem que ver o quanto a pessoa está se divertindo. Aff.

As coisas que verdadeiramente interessam estão sendo deixadas de lado. Ok, dicurso de gente velha, eu sei. Mas tem um fundo de verdade. Quantas fotos você tem sozinho e quantas fotos você tem com seus pais, com seus irmãos, com seus avós, com sua família? Se o seu pai ou sua mãe morrerem amanhã, você tem bastante fotos para olhar e se lembrar deles com carinho? Provavelmente não. Mas tem dúzias de fotos fazendo bico de pato na frente do espelho. Eu sinto pena de gente assim, mas também sinto pena de mim mesma por viver cercada de gente assim.

Ao tirar uma foto, a pessoa deveria se perguntar: o que eu quero passar com esta foto? Qual é o contexto? O que exatamente daqui eu quero eternizar? Caga regra, eu sei. Mas nesse mar de futilidade e evasão de privacidade, as pessoas deveriam tentar. Dá trabalho mas é muito mais digno se diferenciar do brasileiro médio. Não dou nem vinte anos para o brasileiro médio voltar a andar de quatro. Do jeito que as coisas estão, um diferencial da massa é o melhor invesimento que alguém pode fazer na sua imagem.

Outra coisa: expor trocentas fotos suas em rede social é se desvalorizar. Qualquer um pode te ver nos mais diversos ângulos, nas mais diversas roupas. A banalização de si mesmo é uma armadilha na qual muitos caem. Parece clichê, mas uma verdade: o diamante é caro porque é raro. Se você é pouca merda, não tem o que preservar, joga trocentas fotos para o mundo ver. Se você é especial, se preserva e poucos tem o privilégio de ver a sua cara, ou a sua casa, ou a sua intimidade. Se preserve, faça da sua presença, do seu rosto, do seu corpo, um privilégio para poucos.

Mas não, as pessoas se oferecem em rede social como em um supermercado de gente, à procura de cantadas, de parceiros, de aventuras. Sabe o tipo de gente que essa atitude atrai, né? Depois reclamam que só tem vagabunda ou canalha no mundo. Não se pesca salmão com isca para siri. E para aqueles que pensam que foto é indispensável para fazer amigos ou encontrar relacionamentos na internet, fiz grandes amigos aqui no Desfavor que inclusive convivo pessoalmente e tudo começou sem mostrar a cara. Quando não há foto, as chances da pessoa estar interessada no que você é por dentro são bem maiores.

Eu sei, eu sei. Todo o romantismo que eu não tenho nas relações afetivas eu tenho na forma de reger a minha vida e meus valores. Eu sou uma fodida obsoleta que insiste em remar contra a maré. Mas não se enganem, eu não quero mudar o mundo, quero apenas encontrar outros fodidos e obsoletos como eu para com eles estabelecer uma relação de amizade, porque puta que pariu, ando me sentindo muito sozinha ultimamente.


Para dizer que eu só não posto foto minha porque sou gorda e feia, para dizer que eu tenho inveja de você ou para dizer que se sentir solitário nos dias de hoje é indicativo de inteligência:  sally@desfavor.com