A grande notícia da semana é a investigação de algumas operações com Drones executadas pelos EUA no Paquistão, Afeganistão e Iêmem que produziram centenas de vítimas, muitas das quais crianças. A crítica às Guerras Dronicas começou.

Todos nós acostumamos a jogar Games de guerra. O que pode ser mais gostoso do que matar inimigos virtuais numa tela colorida em que os cenários imitam ruas, becos, complexos industriais e até florestas reais? A sensação produzida por um bom Game é tão gratificante quanto a provocada por uma droga e vicia tanto quanto. A adrenalina despejada em nossa corrente sangüínea durante o jogo aguça os reflexos e amortece a percepção do tempo. Podemos passar horas jogando sem nos darmos conta disto.

Nossos instintos mais primitivos são estimulados pelos Games de guerra. Ao jogá-los sentimos o mesmo desejo e prazer de matar que alguns soldados reais sentem, mas não corremos o risco de morte real. Quando nosso avatar morre ficamos frustrados, mas podemos recomeçar tudo de novo. A morte nestes casos não coloca fim a guerra, ela serve apenas como uma experiência educativa. Da próxima vez, na mesma fase do Game, não cometeremos o mesmo erro.

A guerra real não era parecida com os Games. Nela pessoas de verdade matavam e morriam de verdade. Os sobreviventes geralmente ficavam mutilados no corpo ou na psique pelo resto de suas vidas. Estudos referidos por historiadores militares norte-americanos (como Bevin Alexander, por exemplo) comprovam que um elevado percentual de soldados dos EUA se recusaram a combater durante a II Guerra Mundial. Muitos surtavam, muitos mais apenas jogavam suas armas no chão e desertavam. A visão aterradora de corpos sendo perfurados e mutilados, o cheiro de carne humana queimada, de fezes misturadas com sangue, não era uma coisa muito agradável.

Ideologias se desfazem na confusão que é a guerra. Em Stalingrado russos desertaram para lutar com os nazistas e alemães se tornaram soldados soviéticos. A fome imposta pela privação no front soviético fez russos, ucranianos, romenos, alemães, etc regredirem ao canibalismo. Todos estes fatos estão bem descritos nos livros de Antony Beevor e outros escritores que se dedicaram ao tema.

As Guerras Dronicas iniciadas por Obama produzem o mesmo resultado devastador que as guerras antigas (morte, destruição e mutilação) com uma diferença: elas retiram os soldados do campo de batalha. O sujeito que opera um Drone de combate está a centenas ou milhares de quilômetros da ação, sentado diante de uma tela jogando um sofisticada espécie de Game. Nenhuma experiência desagradável é associada ao ato de matar, mutilar e destruir. Ao fim da operação militar ele comemora o resultado exatamente como nós mesmos quando vibramos ao passar uma fase do nosso Game de guerra predileto. Como um jogador qualquer ele levanta-se e vai tomar um café, encontra os amigos num ambiente desprovido do risco, do barulho, do cheiro e da tensão reais do campo de batalha.

Quando matamos bonequinhos virtuais não cometemos nenhum crime. Não sentimos nenhum remorso. Não estamos sujeitos a nenhuma crise de depressão associada a cada uma daquelas mortes e mutilações virtuais que provocamos. O operador de um Drone de combate provavelmente sabe que o que ele faz é diferente de jogar um Game (os bonequinhos virtuais na sua tela são pessoas reais), mas em razão do distanciamento provocado pelo sistema que opera dificilmente ele enfrentará os mesmos dilemas éticos e morais que levaram tantos soldados dos EUA a surtarem e abandonarem suas armas recusando-se a combater na II Guerra Mundial. Além disto (e mais importante) estes são soldados que cresceram jogando Games de guerra, que gostavam de guerras virtuais (como muitos de nós mesmos) e que foram recrutados exatamente em razão de suas habilidades como jogadores de Games.

As Guerras Dronicas são, penso, mais perigosas do que as guerras do passado. Não porque são feitas com maquinas e sim porque nelas os próprios soldados podem agir como se fossem maquinas, sem poder ou precisar demonstrar qualquer empatia pela condição humana de suas vitimas. Bem vindos às Guerras Dronicas, o estágio final da desumanização da própria guerra.

Quais são os desdobramentos prováveis? Em se tratando de um império capitalista altamente militarizado em que predomina a produção, o culto e o consumo de armamentos (no mercado interno) e a realização de "guerras limpas" para conquistas de campos de petróleo (no plano externo) podemos antever duas coisas. No futuro Drones de combate maiores serão usados para despejar bombas nucleares limpas sobre inimigos considerados virtuais pelos norte-americanos. Mini-Drones armados com metralhadoras de baixo calibre serão fabricados e vendidos ao consumidor comum norte-americano para caça esportiva ou defesa pessoal em fazendas e grandes propriedades.

As Guerras Dronicas também gerarão toda uma nova série de filmes, que podem ou não ter alguma relação com operações militares reais realizadas pelos EUA. Como ocorre desde a década de 1950, os filmes serão uma vitrine para os consumidores em potencial das novos sistemas automatizados de armamentos.

Nos países periféricos a construção e utilização de Drones de combate se tornará uma realidade em pouco tempo. Todo um novo mercado bilionário está sendo criado neste exato momento. Nãos e enganem, a ONU não vai proibir estas novos armamentos. No máximo vai sugerir a criação de uma comissão para certificar Drones de combate e definir regras básicas de utilização dos mesmos.