Em janeiro de 2003, após três tentativas frustradas, o Partido dos Trabalhadores, através de Luis Inácio Lula da Silva, assumia, enfim, à presidência da República.

Para alguns intelectuais, essa seria a grande oportunidade para o Brasil ter um governo realmente de esquerda, direcionado aos anseios e aspirações populares.

Em contrapartida, outros pensadores já demonstravam certo ceticismo em relação ao mandato de Lula, pois o ex-líder sindical, antes mesmo de ser eleito, já havia divulgado a famigerada Carta ao Povo Brasileiro, em que se comprometia a manter a estrutura conservadora de nosso Estado. Não obstante, Lula tinha como vice-presidente nada menos que José de Alencar, um dos maiores industriais do país na época, filiado ao antigo Partido Liberal, um dos expoentes da direita brasileira.

Assim, era extremamente controverso para um candidato que se proponha a defender os interesses da classe trabalhadora, ter como companheiro de chapa justamente um grande capitalista.

Pois bem, após dez anos no poder, a concepção de que o PT faz uma gestão melhor do que a de seu antecessor, PSDB, é praticamente unânime entre os pensadores progressistas. Por outro lado, também é fato que o mandato petista está muito aquém do que pode se esperar de um governo de esquerda.

Entretanto, alguns pensadores ainda insistem em defender cegamente as gestões petistas. São os intelectuais pelegos. Assim como trabalhadores pelegos estão demasiadamente vinculados aos patrões, portanto agindo contra os seus interesses classicistas; os intelectuais pelegos são pensadores que, ao invés de manter uma postura crítica em relação ao Executivo Federal, preferem atrelar-se incondicionalmente ao governo.

Vejamos alguns exemplos de peleguismo intelectual. Emir Sader, conhecido sociólogo paulista, tem publicado em seu blog inúmeros artigos em que endeusa as figuras de Lula e Dilma Rousseff. [Os governos petistas] priorizam [...] um modelo de desenvolvimento intrinsecamente articulado com políticas sociais redistributivas, colocando a ênfase nos direitos sociais e não nos mecanismos de mercado. [...] Essas características constituem o eixo do modelo pós-neoliberal, comum a todos os governos progressistas latino-americanos, apontou o cientista social em um texto.

Ora, modelo pós-liberal? Onde? Uma gestão responsável por concessões de aeroportos, marcada por Parcerias Público-Privadas (PPPs) e que repassa quase metade do orçamento federal para o capital financeiro, rompeu, peremptoriamente, com os paradigmas neoliberais? Pergunte ao Eike Bastista se Lula e Dilma não são generosos com o mercado?

Não por acaso, Emir Sader é presença constante em programas da rede pública de televisão. É fato, o peleguismo intelectual também pode gerar visibilidade midiática.

Por sua vez, Gilson Caroni Filho apresentou a seguinte colocação para justificar a injustificável aliança entre Lula e Maluf em favor da vitoriosa campanha de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo: Ao firmar acordo com o deputado federal Paulo Maluf (PP), se deixando fotografar com seu adversário histórico, o ex-presidente Lula produziu a perplexidade que dominou, no primeiro momento, setores do próprio campo progressista. [...] O purismo tem que despertar da frívola ciranda para a dura realidade do mundo adulto, do universo das relações reais entre pessoas e partidos. [...] Aliança com Maluf, à direita, para neutralizar parte do PSD de Kassab. Pelo visto, faltou combinar com uma geração que gosta do suicídio político para expiar culpas sociais. Faltou dizer que o Maluf atual, aquele que merece combate, aquele que é conhecido pelas falcatruas e pelos métodos fascistas de lidar com adversários e movimentos sociais, atende por outro nome: José Serra.

Bajulação tem limite. Quanto contorcionismo literário para corroborar uma prática politicamente bem-sucedida, mas eticamente reprovável. Em nome de uma pseudo-governabilidade, o PT se alia ao que há de mais nefasto na política brasileira: Paulo Maluf, José Sarney, Fernando Collor, ruralistas, pastores evangélicos, entre outros. Por isso, paradoxalmente, um Executivo supostamente de esquerda, somente consegue aprovar políticas de direita no Congresso.

Voltando ao assunto das concessões, Helena Sthephanowitz escreveu o seguinte argumento: Claro que concessão não é privatização. Conceder não é vender uma propriedade estatal, mas sim permitir que uma empresa privada explore determinado patrimônio, neste caso, as rodovias e ferrovias, com obrigação de efetuar melhorias, sendo que o Estado continua titular do bem e com efetiva participação nos resultados da empresa. Simples assim.

Todavia, como bem enfatizou Heitor Scalambrini, professor da Universidade Federal de Pernambuco, sejam por concessão, privatização ou PPP, os governos que se seguiram depois da ditadura militar, no afã de servir a doutrina neoliberal com a diminuição do tamanho do Estado brasileiro, vêm transferindo à iniciativa privada a prestação de serviços essenciais à população, que são de sua inteira responsabilidade. [...] Nestes processos são bem conhecidas as consequências para a sociedade: redução de postos de trabalho, aumento das tarifas e comprometimento da qualidade dos serviços, agora prestados pela iniciativa privada.

Evidentemente, este texto não é uma espécie de manifesto antipetista ou tampouco pretende compactuar com a intensa campanha midiática contra o Partido dos Trabalhadores (vide o falacioso julgamento do mensalão, por exemplo).

Contudo, não é complicado refutar os argumentos dos intelectuais pelegos, difícil é concordar com os seus discursos padronizados. Em última instância, um estudioso que frequentemente se posiciona de maneira subserviente ao governo vigente (seja para obter benefícios, ou por mera ideologia barata) comete um enorme desserviço ao pensamento crítico e libertário.