Os acontecimentos no Oriente Médio passaram a ocupar intensamente a mídia
internacional a partir da criação do Estado de Israel, no ano de 1947, decidida na
histórica sessão das Nações Unidas presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha. Não
tardaram a ocorrer atos de hostilidades naquela parte do planeta. Em 1957,
quando Israel completava dez anos de existência, o editor Isaiah L. (Si) Kenen
(1905-1988) começou a publicar o boletim ?Near East Report?. Sua intenção não
era apenas a de divulgar notícias sobre o Oriente Médio, mas de acender uma luz
sobre os conflitos árabe-israelenses.

A maior preocupação de Si Kenen foi a de rebater versões que considerou
?fabricadas? por autores interessados em ?reescrever? a História de acordo com
interesses particulares ou nacionais. Era o que, desgraçadamente, se verificava: a
objetividade ? logo ela, que deveria servir de lanterna da nossa vida profissional
?, estava sendo morta e enterrada no resto do mundo, porque o noticiário enviado
pelos correspondentes no Oriente Médio era ?esquentado?, como se diz no jargão
das redações de jornais; isto é, sofria estranhas e inadmissíveis interferências em
seu conteúdo original.

Kenen de imediato se apercebeu de um fato ? as notícias transmitidas para
diversos veículos de imprensa nos cinco continentes eram, constante e
maldosamente, distorcidas. Por esse motivo, optou pela análise em profundidade
dos temas, pela clareza na linguagem e concisão no trato das informações.

Diante do extenso repertório de mitos, alguns nascidos nas décadas de 1940 e
1950, outros surgidos muitos séculos antes, só mesmo com o compromisso da
exatidão, poucas palavras e sempre um dedo na ferida, seria possível transmitir a
verdade sobre o que ocorria naquela conturbada esquina da Ásia.

Em 1957, eu era apenas um menino de uma família católica do Rio de Janeiro.
Meus pais tinham parentes, amigos, vizinhos e colegas de trabalho de sangue
árabe e de sangue judeu ? e muitos deles freqüentavam nossa casa num harmonioso
convívio que, no Brasil, felizmente é uma realidade. Lembro que foi na minha
juventude, nos anos 60, que tomei conhecimento do Holocausto.

Como todas as pessoas deveriam reagir às aberrações, horrorizei-me com o sacrifício
de seres humanos em campos de concentração, fiquei estarrecido ao ler os
depoimentos dos sobreviventes, chorei ao assistir às cenas de matança coletiva
registradas pelas câmeras e filmadoras nazistas, mais tarde reveladas ao mundo.

Sinto o mesmo horror, nos dias atuais, com as novas formas de terrorismo e com as
duras respostas militares que parecem realimentar a insensatez dos líderes religiosos
e paramilitares que enviam mulheres e até crianças a missões suicidas. Afinal,
entre o mar e o rochedo estão seres humanos ? judeus e palestinos. Gente como você,
eu ou qualquer outro humano, lutando. para viver/sobreviver e, se possível, ser feliz.

É dever do jornalista buscar a verdade. Não a ?verdade? que resulta da mentira
repetida mil vezes, como na máxima atribuída ao ministro da Propaganda nazista,
Paul Josef Goebbels. Mas, sim, a verdade perseguida pelos homens e mulheres de
bem, pela Ciência e as religiões ? sejam elas quais forem.

Como jornalista, comprometido pelo compromisso de busca da verdade para a
profissão que escolhi, passei a acompanhar com maior atenção os conflitos
sangrentos que brotam no cotidiano daquela terra sagrada, sobretudo a partir das
guerras ?Dos Seis Dias? (1967) e do ?Yom Kippur? (1973), tornando dramáticas as
condições de vida dos povos israelense e palestino. Homens e mulheres que com
certeza conviveriam em harmonia se tantas mentiras divulgadas por falsos historia-dores e falsos profetas não tivessem engrossado o caldo de cultura da intolerância.

Foi nas redações de importantes veículos da mídia impressa e eletrônica para os
quais trabalhei, no Brasil e no Exterior, que percebi, mesmo à distância, o fecundar
de novos ovos de serpentes gerados pela falsificação de fatos. Depois, ao visitar,
profissionalmente, o Oriente Médio, pude constatar no simples convívio com aqueles
sofridos homens e mulheres que, desse conflito, as informações chegam ao resto do
mundo bem distantes da verdade. Recentemente, tomei conhecimento das atividades
de Si Kenen, graças ao trabalho de outro garimpeiro da verdade, o escritor norte-americano Mitchell G. Bard ? que transformou no livro ?Myths & Facts? o material
colhido pelo editor do ?Near East Report?. Bard apurou ainda mais a pesquisa
original de Kenen, acrescentando-lhe farto material de consulta, mais documentos,
mapas e indicações de novas fontes confiáveis que estão disponíveis também na
Internet. Sua obra, que tenho a honra de prefaciar nesta edição em português,
tornou-se best sellerem muitos países e, ao que tudo indica, seguirá o mesmo
caminho aqui no Brasil.

Como foi dito por Bard na edição original norte-americana de 2002 de ?Myths &
Facts?, os mitos sobre o Oriente Médio não se originaram na década de 1950. Os
acontecimentos tumultuados da região parecem, invariavelmente, acompanhados
de toda sorte de novas distorções dos fatos. Da mesma forma como o autor, rendo
meu respeito às palavras de Lord Acton: ?A verdade é o único mérito que dá dignidade
e valor à história?. Outro analista muito citado, o senador norte-americano Hiram
Johnson, disse: ?Quando começa uma guerra, a primeira vítima é a verdade?.

É uma necessidade permanente acender novas luzes sobre este assunto para que a
verdade não seja metralhada e apenas ela, a verdade que buscamos, seja repetida
mil vezes. Só com a livre e correta informação, de um lado e de outro do conflito,
iremos desfazer mitos e garantir o inalienável direito da humanidade ao
conhecimento dos fatos.

Este livro ? embora enfatize o ponto-de-vista israelense ? constitui-se numa
contribuição valiosa para que o leitor faça seu próprio julgamento sobre o conflito
no Oriente Médio. E que, a partir desta leitura, se interesse em buscar a correta
visão palestina, também muito importante para a justa análise da questão. Num
aspecto, todos certamente estamos de acordo: esta guerra já devia ter acabado há
muito tempo, seja de quem for a parcela maior de responsabilidade por tantos
séculos de discriminação e tantas décadas de frustrada busca do entendimento.

Para a humanidade deve prevalecer o espírito da paz entre os povos como forma
de garantia de um mundo melhor, único compromisso que, a rigor, temos para
com o futuro. Que este livro possa, no mínimo, provocar um debate no qual
homens e mulheres de boa vontade, dos dois lados, mostrem seus fatos e derrubem
seus mitos sobre esse dramático conflito. E, desse diálogo, surjam novos horizontes
de mais fraternidade e amor, uma nova luz no Oriente Médio, emanada apenas
das palavras da ?Torá? e do ?Alcorão? que conclamam à paz, à fraternidade e ao
amor ao próximo.

CONTINUA...


* Ricardo Viveiros é jornalista, escritor
e empresário do setor de Comunicação.