UM CABRAL ?DESCOBRIU?, UM OUTRO QUER ENCOBRIR

Sérgio Cabral impôs sigilo a relatórios de gastos do governo. Informações sobre execução orçamentária e gestão financeira do Estado deverão ser doravante confidenciais. Sob pretexto de organização do arquivo estadual, documentos podem ser eliminados antes de tornados públicos. Transparência? Lei de Acesso à Informação? Brechas e margens para manobras.

Manobras a favor de quem? Dos bilhões dispostos na mesa. O poder do capital. 12 de janeiro. Agravada a questão da ?Aldeia Maracanã?, cercada por policiais militares do Batalhão de Choque. De um lado, fuzis, metralhadoras e revólveres; de outro, arcos, flechas e tacapes. Marcelo Auler, do Jornal do Brasil, foi preciso ao definir como bisonha e ridícula tal cena em pleno século XXI.

O fato é que a reforma do Complexo do Maracanã foi decidida a portas-fechadas, empurrada goela abaixo da população, com dinheiro desta última e, frise-se, não pouco. Oficialmente, R$ 940 milhões.

Nos seus mais de 60 anos, o Maracanã acolheu multidões. Até 200 mil pessoas, há quem sustente. Nas últimas décadas, porém, deixou de ser o ?maior do mundo?. Reformado por exigência da Fifa, terá a capacidade reduzida para 76.000 pessoas. Privilegiada a perspectiva da elite: da geral às cadeiras individuais; das arquibancadas aos camarotes de luxo. Confortável espaço para very important people.

Em nome da ?mobilidade urbana?, que não era invocada quando o estádio recebia mais de 100.00 espectadores, propõe-se ? digo - impõe-se colocar abaixo um prédio com mais de 150 anos de história, no qual se traçaram planos nacionais para preservação da cultura indígena.

O projeto consiste em derrubar a ?Aldeia Maracanã? para construir no lugar um shopping e um estacionamento, que será ? alguém tem dúvida? - usado por veículos particulares. Investir na integração efetiva entre trens, metrô e ônibus? Criar corredores expressos para coletivos? Quanta ingenuidade desta escriba. Os interesses da camarilha são outros.

É evidente para quem governam. As montadoras, as instituições bancárias, as seguradoras, as concessionárias e empreiteiras lhe são ternamente gratas, chegam a fazer generosas ?doações? para campanhas sem, é claro, exigir nada em troca.

Cristalino é o propósito: preparar o terreno para ávida exploração da iniciativa privada, faturar dinheirama em suma. Terraplenagem para picaretagem. Chegaram a chorar quando o Brasil e o Rio de Janeiro foram anunciados, respectivamente, sede da Copa do Mundo e da Olimpíada. Lágrimas de canalhocratas por tanto cascalho amealhado. Quem vai pagar a conta? Os crocodilos de olhos marejados se recusam.