Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [IV]

 

Artigos do Jornal do Brasil e de outros jornais sobre os esquadrões da morte e grupos de extermínio em Belo Horizonte: período de 1980 a 1985 e ano de 2001.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22/03/1980, cad. 1, p. 19

 

Secretário de Segurança de Minas manda apurar a morte de três bandidos

 

Belo Horizonte? Apesar de não acreditar na atuação do Esquadrão da Morte, o Secretário de Segurança Pública, Coronel Amando Amaral, ordenou à Delegacia de Homicídios que apure a morte de três bandidos na última semana, pelas quais se responsabilizou uma instituição que se denomina Cravo Vermelho. Ontem, a polícia encontrou o terceiro cadáver, com uma rosa vermelha ao lado.

Há 15 dias, em telefonemas anônimos, aos jornais, rádios e televisões e à Delegacia de Homicídios, uma pessoa que se apresenta como Relações Públicas do Cravo Vermelho anunciou que o Esquadrão da Morte passaria atuar em Belo Horizonte. Na semana passada, voltou a telefonar, indicando os locais onde estariam os cadáveres.

 

ROSA

 

A primeira vitima foi o assaltante Edson da Silva Santos, de 15 anos, com várias entradas na Delegacia de Menores. Seu cadáver, com uma rosa vermelha ao lado, foi encontrado no dia 10, num loteamento do Bairro Dona Clara. Nesse dia, um telefonema anônimo anunciou o local onde o corpo se encontrava.

Dois dias depois, após novo telefonema, a polícia encontrou o corpo do assaltante Rosival Pereira da Costa, de 19 anos, em um terreno vazio do Bairro Canaã. Como no primeiro caso, ele foi morto a tiros e, ao lado, havia uma rosa. Ontem, foi achado o corpo de um homem ainda não identificado.

Na semana passada, o Secretário de Segurança disse não acreditar na existência de um grupo exterminador de bandidos em Belo Horizonte e creditou às mortes a brigas entre quadrilhas. Afirmou, também, que a polícia está investigando qualquer crime, "com rosa ou sem rosa".

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25/05/1980, cad. 1, p. 18

 

CPI da Violência não tem conclusões novas

 

Brasília? Um mês depois de sua instalação, e de ouvir ministros de Estado, prefeitos, cientistas, juristas e dirigentes de órgãos e movimentos sociais, a CPI do Senado sobre violência urbana, presidida pelo Senador Orestes Quércia (PMDB-SP), limitou-se a confirmar o que a CPI do Menor, que teve como relator o atual Ministro Ibrahim Abi-Ackel, já mostrava, há cinco anos: o menor como problema-chave do crime e da violência.

O desinteresse demonstrado pela maioria dos senadores membros da CPI, que só chegam atrasados às reuniões ou a elas nem comparecem, é motivado, na opinião de alguns, pela convicção que alimentavam sobre a inutilidade dos seus resultados, no campo das providências práticas, por sinal um mal de todas as CPIS. Ultimamente, o presidente fica a telefonar para os senadores, pelos menos para formar número.

 

Sem política

 

O relator da CPI, Senador Murilo Badaró (PDS-MG), resolveu não aceitar qualquer manifestação política dos expositores convidados na abordagem da violência. A essa discussão estritamente técnica não se submeteu a Presidente do Movimento em Defesa do Menor, de São Paulo, Sra. Lia Junqueira, que terminou seu depoimento denunciando crimes e torturas contra menores, pela polícia e a FEBEM paulistas, oferecendo-se para provar em juízo. Com isso, forçou os membros da CPI a abandonarem o seu pessimismo e o comodismo dos relatórios e exposições laudatorias, marcando uma investigação pelos membros da comissão em São Paulo e Rio de Janeiro.

O clima dos debates, sem a tônica política, amplia a perspectiva de desânimo em torno dos resultados práticos dos trabalhos da CPI, que vem limitando as discussões ao campo das causas e das alternativas de soluções já demasiadamente repetidas em todos os simpósios, estudos e tratados sobre a violência e a criminalidade. O próprio Ministro da Justiça, o primeiro a depor na CPI, repetiu, no seu depoimento, tudo o que constou do relatório dos juristas e sociólogos que contratou para estudar o problema nos centros urbanos. Os relatórios foram inclusive publicados no Diário Oficial. Os dados estatísticos que citou foram os mesmos da CPI do Menor, de 1975, da qual ele foi o relator.

Não aceitou o debate político aprovado pelo Senador Pedro Simon (PMDB-RS), que lhe pediu explicações sobre o fenómeno das repressões policiais nas ruas e sobre a institucionalização do crime por organizações fantasmas, tidas como justiceiras, que agiriam apoiadas pela própria polícia. E citou: Esquadrão da Morte, Mão-Branca, Cravo Vermelho e outras.

 

Estratégia

 

            Com a negativa do enfoque político na discussão do problema da violência na CPI do Senado, os expositores se mostram excessivamente sentimentais, ora na abordagem dos sofrimentos das vítimas, ora na encenação dos crimes, construindo frases e ditando soluções até ingênuas. Em outras ocasiões, aparecem as frases de efeito: "Crescemos depressa e ficamos desiguais ainda mais rapidamente" ? disse o Ministro do Trabalho, Murilo Macedo, em seu depoimento. Outras colocações tem sentido óbvio: "O Brasil é um país urbano e com certas aglomerações muito preocupantes do ponto-de-vista social"?também do Ministro Murilo Macedo.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 04/12/1980, cad. 1, p. 24

 

Deputado exalta morte de bandidos

 

Belo Horizonte? Ex-líder metalúrgico do Vale do Aço, o Deputado Rufino da Silva Neto, que trocou o MDB pelo PDS, subiu, ontem, à tribuna da Assembleia Legislativa para "render homenagens à salvadora equipe do Cravo Vermelho" ? versão mineira do Esquadrão da Morte ? "pela 100ª limpeza de animais e abutres", realizada em Minas, este ano.

Ele discordou do seu companheiro de Partido, Deputado Jesus Trindade Barreto, ex-delegado de polícia, que havia pedido no dia anterior providência as autoridades contra o extermínio de bandidos e, por isso, foi ameaçado por um telefonema anónimo. Ele acrescentou que, "quando voltar à Assembleia, em março, quero encontrar no calendário do Cravo Vermelho, se não 200, pelo menos 150 animais eliminados".

O Sr. Rufino da Silva Neto, que raramente ocupa a tribuna a Assembleia, lembrou assaltos a motoristas de táxi e a trabalhadores, citou o Bandido da Cartucheira Ramiro Matilde como exemplo de animal voraz e disse que desejava ser delegado de polícia, a fim de mandar os bandidos "para o fundo do poço do Rio Arrudas".

Depois de elogiar a iniciativa de o Comandante da Polícia Militar de Minas Gerais colocar mais policiais nas ruas, o parlamentar disse ser a medida insuficiente, "porque, enquanto os policiais estão num quarteirão, os abutres estão matando no seguinte". Acrescentou ser necessária a adoçào da pena de morte no país, sem o que continuará defendendo o extermínio de bandidos.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20/10/1981, cad. 1, p. 22

 

"Esquadrão" mata dois em Minas

 

Belo Horizonte? O titular da Delegacia de Homicídios, delegado António Orfeu Braúna, admitiu a volta à atividade de um grupo parapolicial para executar criminosos. No sábado, foram encontrados, em uma estrada de terra da Região Metropolitana, dois cadáveres queimados. Sobre eles, havia um cartaz atribuindo as mortes ao Cravo Vermelho, espécie de Esquadrão da Morte, desaparecido há algum tempo, depois de mais de 100 assassínios.

Desses mais de 100 crimes, Cravo Vermelho e Bom-Bril ? outro grupo de extermínio ? se responsabilizaram por cerca de 40. Até hoje, nenhum dos crimes foi solucionado e o maior empecilho disso, segundo o delegado Orfeu Braúna, é causado pelas famílias dos mortos, que se recusam a auxiliar a polícia, por motivos desconhecidos. Os corpos encontrados sábado estavam parcialmente destruídos por fogo e urubus, o que torna difícil identificá-los.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16/01/1982, cad. 1, p. 16

 

"Esquadrão" de Minas mata dois

 

Belo Horizonte? Pela primeira vez após mais de 100 mortes, há possibilidades de ser identificada uma das vítimas do Cravo Vermelho, o Esquadrão da Morte de Minas Gerais. A mão direita de um dos dois cadáveres ontem encontrados, carbonizados, não foi destruida, o que permitiu exames de impressões digitais.

O Delegado de Homicídios, Antônio Orfeu Braúna, possui outra pista: um nome escrito a caneta em letra de forma ? Cláudio Ferreira ? no que restou da calça de um dos mortos. Perto dos cadáveres, preso por duas pedras, havia um bilhete em papel de pacote de cigarros: "Estupradores, traficantes, assaltantes. Feliz 82. C.V.".

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18/02/1983, cad. 1, p. 14

 

Estupros frequentes de menores causam pânico em mães e crianças em Minas

 

Belo Horizonte? O Juiz de Menores Cantídio de Faria Alvim revelou, ontem, que crianças e mães estão em pânico com as noticias dos repetidos casos de estupros e mortes de meninas de nove e 10 anos. As crianças estão receosas de sair de casa para ir as aulas. Anunciou que pedira à PM reforço policial nas portas das escolas.

Atribuiu parte do pânico às noticias de jornais, rádios e televisões sobre os casos, principalmente o programa O Povo na TV, da TV Alterosa, que vem elogiando os grupos de extermínio ? sobretudo o denominado Cravo Vermelho ? que mataram, nos últimos dias, dois rapazes acusados de estupros de menores. O juiz não soube identificar os integrantes desses grupos, mas observou que, se são organizações paramilitares, sao compostos por "maniacos e alucinados".

A série de estupros começou no primeiro dia deste mês, com a morte da menina Vânia Gomes Vinhal, de 10 anos. Menos de 24 horas depois, a polícia prendia três rapazes, um deles de 17 anos, que confessaram o crime e denunciaram um quarto. José Luis Botaro, de 28 anos. Ele se apresentou a polícia no dia 4, acompanhado de um advogado e negou, em 16 horas de interrogatório, ter participado do crime. Tinha até um álibi. Foi liberado.

Na madrugada do dia 10, seu corpo foi encontrado numa avenida deserta, com mais de 40 perfurações de balas, algumas de calibre 45, e a marca do Cravo Vermelho: três flores, palhas-de-aço e um cartaz ? "Não estupro mais ninguém'". A mesma marca, com algumas variações, foi encontrada em cerca de 150 cadáveres, em Belo Horizonte, nos últimos quatro anos.

No dia seguinte, o corpo do ajudante de caminhão Renato Luís Alves, de 28 anos, foi encontrado nas mesmas circunstâncias. "O Cravo voltou feliz", dizia um dos cartazes ao lado do corpo. Ele tora preso dias antes, por estupro de uma cunhada de nove anos, que não morreu: ele mesmo a levara, logo em seguida, ao Hospital do Pronto Socorro.

Ontem, a polícia continuava procurando os autores desconhecidos de outros dois estupros, ocorridos durante o carnaval. No primeiro, uma menina de 10 anos foi seviciada e morta em Justinópolis, distrito da capital; no outro, uma moça de 17 anos sobreviveu ao ataque de três homens.

? Infelizmente, está havendo pânico ? afirmou a juiz de menores, que convocou a imprensa para uma entrevista coletiva, para pedir moderação nas noticias sobre estupros de menores. Só na parte da manhã, recebera telefonemas de seis mães preocupadas. Pelo mesmo motivo, durante o plantão do carnaval, o telefone do Juizado de Menores foi "constantemente acionado". Disse que só nos dias de carnaval, o Juizado tomou conhecimento de três casos de estupro, embora geralmente as famílias prefiram nao denunciar os crimes contra os costumes.

Pediu o juiz que a imprensa use de toda a liberdade para informar, "mas que não haja chamadas e programas seguidos sobre o mesmo fato". Criticou o programa O Povo na TV, por ter chamado, três dias após o estupro, o pai de uma das meninas mortas, "só para perguntar o que ele estava sentindo". O Sr Cantídio Alvim considerou isso uma falta de respeito à dignidade humana.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18/03/1983, cad. 1, p. 14

 

Crime faz delegado parar férias

 

Belo Horizonte? Por determinação do Secreta­rio de Segurança, Ministro Cunha Peixoto, o diretor da Delegacia de Homicí­dios, António Orfeu Braú­na, interrompeu, ontem, suas férias, para apurar a morte de Leonor Assunção Pedra, envolvido no tráfico de drogas. Ele foi encon­trado, anteontem, num matagal com uma rosa so­bre o corpo, símbolo do Cravo Vermelho, versão mineira do Esquadrão da Morte.

Segundo o delegado, o novo secretário prometeu a Divisão de Crimes à Vida recursos humanos e materiais para apurar e evitar que ocorram crimes dessa natureza. O Sr. Orfeu Braú­na disse não ter o crime características de execu­ção sumária, podendo tra­ta r-se de um homicídio re­sultante de briga entre tra­ficantes ou de latrocínio, ja que, além do Fiat que Leo­nor usava, desapareceram dele, também, um cordão e uma pulseira de ouro.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20/03/1984, cad. 1, p. 14

 

Surgem em Minas mais 2 cadáveres com marcas do Esquadrão da Morte

 

             Belo Horizonte? O Secretário de Segurança Pública, Carlos Fulgêncio da Cunha Peixoto, não comentou, ontem, as execuções que voltaram a acontecer em Minas, com característi­cas semelhantes às dos crimes cometidos pelos grupos de extermínio, do tipo Esquadrão da Morte. No sábado, foram encontrados dois corpos em Belo Horizonte, com a mesma marca característica ? uma bucha de palha de aço ? encontra­da em mais de uma centena de corpos durante o Governo Francelino Pereira.

Com estes dois novos cadáveres ? encontrados por um grupo de meninos que jogava bola, em um loteamento no Bairro dos Palmares, na periferia da capital mineira ? sobe para quatro o número de corpos encontrados, em condições semelhantes, em Belo Horizonte, nas duas últimas semanas. No carnaval, a polícia encontrou òs corpos de dois homens, com as mesmas marcas.

Os dois corpos, segundo o delegado Reinaldo Vasconce­los, da Delegacia de Homicídios, eram de homens com idade presumida entre 25 e 30 anos, cada um com 13 perfurações à faca e sinais de torturas, principalmente nos rostos.

O Esquadrão da Morte surgiu em Minas com a denomina­ção de Cravo Vermelho, em 1980, e matou até o final de 1981, segundo cálculos da Polícia Civil, cerca de 150 pessoas. Por algum tempo não se falou mais em grupos de execução, mas eles voltaram em 1983, sendo descobertas dezenas de cadáveres.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15/09/1984, cad. 1, p. 9

 

Filha de empresário mineiro acusa policiais de sua morte

 

Belo Horizonte? Após acompanhar os trabalhos de exumação do corpo de seu pai, o empresário Adolfo Mendes Santos Júnior, 72 anos, sequestrado e morto com um tiro na cabeça quinta-feira da semana passada, nesta Capital, a em­presária Santuza Fátima Fontes Mendes reafirmou que o crime foi cometido por policiais e prometeu prosseguir até "às últimas consequências" na luta para que sejam identificados e punidos os respon­sáveis.

Baseada no depoimento do funcioná­rio da Funerária Metropolitana, Oswaldo Alves, de que o pescoço do empresário estava seccionado e seu nariz fraturado, Santuza solicitou à Justiça a exumação do cadáver. O médico legista Cristobaldo Motta de Almeida, que fez a exumação, confirmou o resultado do laudo do IML, de que o único sinal de violência encon­trado era "um ferimento à bala no lado direito e acima da orelha".

 

Ameaças

 

Santuza disse que vinha recebendo ameaças de morte desde a prisão, dois meses, de seu irmão, o corretor de imó­veis Carlos Alberto Fontes Mendes, o Japão, que matou dois detetives. As ameaças passaram a ser mais constantes após o assassinato do pai, mas ela resol­veu enfrentar e denunciar as pressões. Segundo ela, em telefonemas frequentes, pessoas que se identificavam como poli­ciais afirmavam que o pai havia sido morto para vingar os dois detetives assas­sinados pelo filho e que ela seria a próxima.

? Os ameaçadores se identificavam como detetives da Delegacia de Furtos e Roubos (onde trabalhava o primeiro poli­cial morto), José Maria Cachimbinho, Falcão e Romeu Rocha ? disse Santuza. Ela confessa que está com medo, mas se diz disposta a enfrentar tudo e a procurar o Governador Hélio Garcia, o Ministro da Justiça Ibrahim Abi-Ackel ou até mesmo o Presidente Figueiredo, para "punir os culpados e impedir que novas monstruosidades como esta aconteçam".

Santuza é proprietária de uma peque­na malharia em Belo Horizonte. Solteira, 28 anos, ela é formada em Belas-Artes pela Escola Guignard. Santuza assistiu impassível à exumação do corpo do pai. E disse que se esforçou para demonstrar que está mesmo disposta a tudo.

 

Sequestro

 

Japão, 24 anos, estava condenado, desde janeiro de 1983, a cinco anos e quatro meses por tráfico de drogas. Mas em dezembro ele fugiu do Depósito de Presos da Lagoinha e, dois meses depois, matou um detetive. Rogério António da Silva, em um bar da Savassi. Em julho, ele matou outro policial, Roberto Luiz Lage, mas foi preso em flagrante e baleado na perna direita.

E passou a denunciar à Justiça estar sofrendo torturas e espancamentos, por policiais, no Depósito de Presos da Lagoinha. Por causa disso, o pai contratou o advogado Sidnei Saffe da Silveira, presidente da Seção Mineira da Ordem dos Advogados do Brasil, que conseguiu há um mês sua transferência para a Penitenciária de Neves. A partir daí, o empresário começou a receber as ameaças, extensivas à filha e ao próprio Japão, a quem não davam "mais um mês de vida".

Pequeno empresáno do setor imobi­liário, proprietário da Lançamento Men­des Imobiliária Ltda. Adolfo Mendes foi sequestrado na tarde do dia 5, por três homens armados, em um Fiat branco, cuja placa não foi anotada. E encontrado morto às 8h da manhã do dia seguinte, com um tiro na cabeça, no final da Rua Oscar Trompovski, Bairro Nova Grana­da. Ao lado do corpo estavam seus do­cumentos, talão de cheques, pouco mais de Cr$ 1 mil e um relógio Cartier no pulso. As roupas estavam rasgadas.

Santuza demonstrou logo após o en­terro que estava disposta a esclarecer o caso. Na terça-feira, ela procurou o auxí­lio da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal.

Na quarta-feira, Santuza fez oficial­mente o pedido de exumação, e contou ao delegado Benigno Augusto que "três vozes diferentes telefonam dizendo que são os detetives Falcão, José Maria Cachimbinho e Romeu Rocha. Sempre me citam estes nomes". Foi marcado tam­bém para o dia seguinte o seu depoimen­to oficial, que acabou sendo adiado, ainda sem data marcada, pois Santuza alegou que estava muito cansada e nervo­sa para depor. Ao invés, ela foi pedir apoio do presidente da Assembleia Legis­lativa, Deputado Genésio Bernardino (PMDB), para conseguir uma audiência com o Governador.

 

"Cravo vermelho"

 

O envolvimento dos membros da Comissão de Direitos Humanos da Câ­mara lhes valeu também várias ameaças de morte, feitas por pessoas que se identi­ficavam, era telefonemas ao Vereador Francisco Luciano, como membros do Cravo Vermelho, designação do Esqua­drão da Morte em Minas, responsável por uma centena de execuções sumárias entre os anos de1979e1981,durante o Gover­no Francelino Pereira. Apesar das amea­ças, a Comissão de Direitos Humanos, segundo sua presidente, Helena Grecco, está disposta a continuar apoiando a causa de Santuza.

 

[Foto 1]

Santuza Mendes denunciou ao delegado Itamar Thiago as ameaças que tem recebido

 

[Foto 2]

Adolfo Mendes Santos Jr.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 25/05/1985, cad. 1, p. 6

 

Esquadrão volta a agir em Minas

 

Belo Horizonte? O Cravo Vermelho e o Bom-bril, versões mineiras do Esquadrão da Morte, que durante o Governo Francelino Pereira mataram cerca de 150 pessoas, volta­ram a agir ontem: mataram um homem na Estrada Velha de Nova Lima, deixando sobre o corpo um bilhete assumindo o assassinato, e referindo-se ameaçadoramente à Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores que investiga a situação carcerária em Minas.

O delegado Benigno Augusto da Costa afirmou que a maior dificuldade para apurar qualquer coisa sobre o crime está na identifica­ção do morto, que sempre é deixado sem as mãos e com a cabeça inteiramente queimada. O corpo foi encontrado no inicio da madruga­da de ontem, na Estrada Velha de Nova Lima. pelo militar Sérgio Luís Silva, numa vala de um metro de profundidade.

O delegado Benigno Augusto da Costa disse desconhecer o número de inquéritos sobre execuções sumárias em sua delegacia, afirmando que apenas depois que assumiu achefia do Departamento, há 11 meses, aconte­ceram seis ou sele casos semelhantes.

Benigno não quis responder sobre se po­deria ou não haver relação entre a volta das execuções sumárias e as mortes de detentos como forma de denúncia das más condições carcerárias no Estado. Também revelou que, embora tenha remetido, desde que assumiu o cargo, 520 inquéritos à Justiça, nenhum crime dessa espécie foi apurado. Segundo ele, o índice de homicídios na capital mineira caiu nos últimos meses, sendo hoje uma média de 15 por mês.

Para a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Vereadores, Helena Greco (PT), o Esquadrão da Morte não reapa­receu, pois ele nunca desapareceu: apenas reduziu sua atuação. Diz ela que os grupos de extermínio são braços armados de aparelhos repressivos que continuam organizados.

Sobre a referência aos direitos humanos no bilhete, a vereadora acredita que esteja ligada à atuação da comissão junto aos presos, mas declara que isto não a intimida.

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 09/06/1985, cad. 1, p. 14

 

Presos de Minas dormem por turnos com medo da morte

 

            Belo Horizonte? "Não podemos nem dormir direito com medo de acordar com uma corda no pescoço. Mesmo as­sim, acreditamos que as mortes têm de continuar, caso não sejamos transferi­dos". O comentário é de Paulo Roberto de Jesus, condenado a dois anos e meio por assalto. Ele é um dos 285 presos do Depósito da Lagoinha, na capital minei­ra, onde, pela lei, deveria haver apenas 42.

Só na cela seis, onde está Paulo Roberto, há 25 presos. Dois já foram assassinados, dentro do pacto da morte ? a única maneira que eles encontraram para chamar a atenção da opinião pública para as condições carcerárias a que são submetidos. Dormem em turnos de três horas para não serem mortos: enquanto uns descansam, outros vigiam.

 

Morrer para viver

 

          Os presos são tratados como animais, reconhece o coordenador das promotorias, Castelar Guimarães Filho. Na ver­dade, são tratados muito pior: não têm cama ou colchão, dormem no cimento frio e pegajoso, frequentemente molhado pela urina que escorre da fossa, um único buraco por cela, que serve de banheiro. Não há banho: levam-se com a água que recolhem de uma bica, com a mesma lata em que recebem a comida, intragável e que nunca tem hora certa para chegar.

O cheiro é insuportável. As condi­ções de saúde, inimagináveis: há presos com tuberculose, com hepatite, doenças venéreas e doenças de pele. Não recebem assistência médica. A promiscuidade se­xual é grande e um médico já advertiu para o perigo de surgirem casos de AIDS. Para pegar um pouco de sol, penduram-se nas grades das janelas, o que é proibi­do pela guarda e pode render uma pro­longada sessão de espancamento durante a noite.

Vivendo assim, não é de espantar que eles defendam a morte para sobrevi­ver. E que dentro desta roleta macabra repitam o que aprenderam lá fora: os sorteadospara morrer são sempre os mais fracos. Enquanto isso, o Governo do Estado e o Ministério da Justiça discutem se a falência do sistema carcerário se deve à falta de recursos ou à má adminis­tração.

 

Descumprindo a lei

 

O Depósito de Presos da Lagoinha, inaugurado em 1958, para funcionar co­mo centro de triagem, foi o último esta­belecimento carcerário construído na Re­gião Metropolitana de Belo Horizonte. De lá para cá, a população triplicou para mais de 2 milhões de habitantes. O Secre­tário de Segurança Pública, Chrispim Jacques Bias Fortes, diz que esta é a principal causa da superpopulação carce­rária e, consequentemente, responsável por todas as mazelas, inclusive pelas mortes. O Governador pensa diferente: ? Os cárceres estão superlotados devido à eficiência da polícia mineira, que prende mesmo ? garante Hélio Garcia. O chefe do Departamento de Investigações da Secretaria de Seguran­ça, Delegado Antônio Nogueira de Lara Resende, reconhece, tranquilamente, que não cumpre nem vai cumprir a lei:

? Como não há a mínima condição de obedecermos à Lei de Execuções Penais e abrigar apenas 42, acredito que 120 detentos seria um número suportável ? diz ele, referindo-se ao Depósito da Lagoinha, onde estão 285 presos e quatro foram assassinados de março para cá,

Na Delegacia de Furtos e Roubos, a situação é pior: os presos não têm nem os poucos trapos com que os detentos da Lagoinha se cobrem nas noites frias e que, às vezes, usam para fazer teresa, a corda com que enforcam os companhei­ros premiadosno pacto da morte. As celas também não são tão arejadas.

Localizada numa casa antiga, no bairro Floresta, da tradicional classe mé­dia mineira, a Delegacia de Furtos e Roubos foi considerada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Verea­dores de Belo Horizonte e pelos promo­tores, como pior e mais cruel que o Depósito de Presos. De lá, em passado recente, presos costumavam desaparecer, misteriosamente. Muitos parentes des­confiam, sem provas, que eles eram al­guns das 150 vítimas não identificadas do esquadrão da mortemineiro ? o Bombril e o Cravo Vermelho.

            Hoje, abriga100presos,65dos quais condenados. Desses, seis já foram mortos para chamar a atenção da opinião públi­ca. É lá que estão as feras, os presos mais perigosos, entre eles Severino Ferreira de Lima, que já matou quatro e que, recen­temente, prometeu matar mais "uns30" se for transferido para o Manicômio Judi­ciário, em Barbacena: "Não sou babão (louco)"?disse ele aos repórteres, mui­tos estrangeiros?"e se me mandarem para Barbacena vou fazer uma limpeza".

 

Rotina de mortes

 

Desde15de março, morreram no Depósito da Lagoinha: Onofre Valentim Soares, condenado por furto; Waldeci José da Silva, flagrante de assalto; Humberdy Eddy Gilgiolis, condenado por as­sassinato; Valdevino Oliveira Gomes, preso em flagrante por assalto.

Na Delegacia de Furtos e Roubos, o primeiro a morrer foi Carlos Roberto Martins, dia3de abril, na cela12, estrangulado por Severino Ferreira de Lima. que matou ainda Edson Rodrigues da Silva na cela17,no dia5de maio, Matusalem Câmara Oliveira, cela13,cm 15de maio, e Roberto Carlos Oliveira, na cela11,no dia22de maio. Também no dia5de maio, morreu Deusdeth Marques da Silva, assassinado por Júlio César Nogueira de Freitas, na cela16.E Lafaiete Rosa Ferreira foi morto por cinco companheiros, na cela17.

 

[Foto 1]

Geraldino Benício, José Edson, Ricardo Gonçalves e José Roberto foram postos em cela separada porque era as mais próváveis vítimas do pacto de morte na Furtos e Roubos

 

[Foto 2]

Severino Ferreira de Lima comanda mortes de presos

 

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Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 09/03/1990, cad. 1, p. 12

 

Ex-policial pega 15 anos por envolvimento em morte de empresário

 

       BELO HORIZONTE ? Apontado como um dos princi­pais líderes de um grupo de extermínio ligado ao Esqua­drão da Morte, o cx-policial civil Lucas Santana, 30 anos, foi condenado na madrugada de ontem a 15 anos de pri­são pelo sequestro e assassinato, em 14 de março de 1986, do empresário Humberto Antônio Fagundes. Alem de Lu­cas, estão sendo julgados outros cinco policiais e um funcio­nário público, no Fórum Edmundo Lins, em Itabirito, a 60 quilômetros desta capital.

       O ex-policial foi absolvido do crime de morte do empresá­rio (assassinado e enterrado próximo ao Km 585 da BR-040, no município de Itabirito), mas pegou três anos por formação dc quadrilha, dois por ocultamento de cadáver e 10 por furto de sementes.

O crime do empresário Humberto, conforme o inquérito policial, foi uma queima de arquivo, já que ele, suposta­mente, sabia de detalhcs do plano armado pelos seis policiais e pelo funcionário público para o furto de 250 sacas dc sementes de capim braquiaria do comerciante Giovane Ribeiro Magalhães.

 

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Estado de São Paulo, São Paulo, 21/06/2001 [digital]

 

Polícia suspeita de esquadrão da morte em BH

 

       A Polícia Civil de Belo Horizonte começou a investigar nesta quinta-feira a ação de um suposto esquadrão de extermínio na cidade, depois de achar os corpos de um homem e uma mulher, os dois aparentando 20 anos, em uma estrada de terra da região metropolitana.
       Segundo os policiais, o casal foi executado com tiros na cabeça e teve os dedos
mutilados, o que impossibilitou a identificação. Junto aos corpos, um cartaz com os dizeres "Infratores... Era uma Vez" e uma esponja de aço usada na limpeza de cozinhas
? marca de um grupo de extermíno chamado "Esquadrão do Bombril", que atuou
na capital nas décadas de 70 e 80.

       Há pouco mais de um mês, outras três pessoas foram encontradas mortas, também por disparos na cabeça, na mesma estrada, que liga os municípios de Nova Lima e Brumadinho. Ainda não há pistas dos assassinos.

 

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Diário do Grande ABC, Santo André, 21/06/2001 [digital]

 

Polícia suspeita de ação de esquadrão da morte em Belo Horizonte

 

Do Diário OnLine

 

       A Polícia Civil de Belo Horizonte suspeita da ação de um suposto grupo de extermínio na cidade, após encontrar os corpos de um homem e uma mulher, em uma estrada de terra na região metropolitana. Os corpos, segundo a polícia, apresentavam tiros na cabeça e os dedos mutilados. Ao lado, havia um cartaz coma inscrição: "Infratores... Era uma vez" e uma esponja de aço, marca do grupo de extermínio conhecido como "Esquadrão do Bombril", que atuava nas décadas de 70 e 80.

       Além do casal, a polícia já encontrou três pessoas mortas, também por disparos na cabeça, na mesma estrada. No entanto, ainda não há suspeitos do crime.

 

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Conferir também

 

 

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [I]

 

 

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [II]

 

 

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [III]

 

 

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Grupo Reação) [V]