SOMIR

Hoje em dia a mídia de massa gosta de se gabar de quão rápido consegue cobrir os acontecimentos do mundo. Mal havia a fumaça dispersado em Santa Maria (RS) e todos os meios de comunicação com capacidade de comprar uma passagem de avião já estavam lá. Boletins ao vivo, cenas impressionantes, análises ?abalizadas? direto dos estúdios?

Bom, não é todo dia que morrem mais de duzentas pessoas. Quer dizer? morrer, morrem, mas não quase ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Mas com certeza não se vão tantos jovens brancos de classe média, universitários ainda por cima! Não digo que aprovo, mas não ignoro que tragédias que ocorrem com pessoas com as quais os editores e jornalistas mais se identificam acabam mais tempo de exposição. Se fosse num baile funk numa favela, com certeza teríamos uma dose bem menor de imprensa monotemática.

Mas nessa tecla já batemos diversas vezes. Se a imprensa fosse menos ?partidária? de seus semelhantes, o trágico deslizamento no Morro do Bumba, na periferia de Niterói (RJ), teria causado comoção semelhante. Tanto não causou que começamos este ano com o mesmo tipo de problema acontecendo. Pobre morrendo é fatalidade, número, ?gente sem nome?? Vontade de deus, até. Mas no caso da boate Kiss, não deu para jogar essa na conta do imprevisível não?

Tanto que inúmeras prefeituras ao redor do país subitamente se lembraram que também abrigavam em suas cidades várias dessas casas noturnas. Quase todas praticamente sem supervisão, quase todas tão seguras quanto um isqueiro de pólvora. Estão fechando várias, desesperados para mostrar serviço, e principalmente, para evitar que ?gente com nome? morra sob suas administrações.

Asfaltar rua em cima de lixão e matar mais de duzentas pessoas ?sem nome? não fere chances de reeleição. Mas quando a mídia faz matérias sobre praticamente cada uma das vítimas da sua administração relapsa, ah? aí a coisa engrossa. O ?quinto poder? brasileiro tem sua força sobre os três tradicionais, evidente. Pena que quando o exerça seja por mera casualidade oriunda do desespero por audiência.

Quando a imprensa caiu em cima da história e percebeu que dava muito retorno, não podia mais ficar naquele esquema de expor fatos, tinha que humanizar as vítimas, procurar famílias, heróis, vilões? preparar toda a narrativa, afinal, seria uma longa jornada de exploração da tragédia alheia. E quanto maior a sanha por ?estar lá?, mais se borrava a linha entre fatos e opiniões. A imprensa em geral ?Datenou? até dizer chega. O público adorou? claro, dizendo que estavam muito tristes. Não pega bem dizer que está voando em círculos ao redor da desgraça alheia sem uma boa desculpa ?moral?.

A segurança das casas noturnas virou tema central de inúmeras matérias, eu mesmo já sei o que fazer, e olha que eu enjoei do assunto lá pelo? domingo. Antes desse povo todo morrer, ninguém ligava para isso. Também, tinha que acontecer uma merda tão grande como a que de fato aconteceu para chamar atenção de verdade para o assunto que mal valia o risco de se preocupar. Culpa de quem está no poder, é claro. Mas culpa também de quem os coloca por lá.

Apertar fiscalização e fechar casas noturnas inseguras ANTES de uma tragédia nacional seria comprar briga com os eleitores. Na terra do jeitinho, quase tudo é frescura até uma câmera estar enfiada na sua cara te perguntando porque mais de duzentas pessoas morreram. Os políticos e os funcionários públicos responsáveis pelas fiscalizações são incompetentes ou desonestos, é claro, mas eles não deixam de ser um produto de seu meio. Povão, quando se preocupa em votar por algum motivo, vota em quem fez o que ele gostou ao invés do que ele precisa.

Antes desse incêndio em Santa Maria, tivemos dois outros casos de incêndios terríveis que vieram à tona seguidas vezes nas coberturas da mídia: O incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em 1961; além do incêndio no edifício Joelma, em 1974. Nunca mais tivemos tragédias do tipo, em circos (ok, ninguém mais vai em circo) e em edifícios. ANTES de morrer um monte de gente por medidas de segurança relativamente, é tudo frescura. Não vale a pena.

DEPOIS, ah, depois tem um motivo para mexer o rabo e fazer a obrigação. Esse modelo de negócios e administração pública de fazer as coisas direito não é o mais vantajoso. É até assustador imaginar quantas outras situações de alto risco vivenciamos no dia-a-dia, esperando apenas para que uma tragédia explicite a necessidade de atenção.

Agora que a merda já está feita, surge um bando de testemunhas para pintar mais alguns chifrinhos na cabeça dos recém-eleitos vilões da nação: Os donos da boate. O poder público ADORA isso, nada melhor do que ter alguém para levar a trolha por eles. Não estou absolvendo os sócios da Kiss, de forma alguma, mas muito mais gente sabia que estava tudo errado e ninguém se mexeu até a hora de dar entrevista para tirar o próprio da reta.

A verdade é que ANTES da tragédia, a maioria de nós TAMBÉM estava cagando e andando para segurança contra incêndios em casas noturnas. DEPOIS, todo mundo ganha o passe livre para se indignar, menos os que podiam ser apontados como culpados pelas mortes dos jovens.

Vejam bem, mais de duzentas pessoas morreram por incompetência e ganância de meia dúzia. Essa meia dúzia não pode ser liberada só com uma bronca, tem que pagar. Agora, eles também são produtos do meio? Essa cultura de ?colar com cuspe? cobra um preço caro de tempos em tempos. VAI acontecer outra grande tragédia por falta de cuidados básicos com segurança, é só questão de tempo. Fechar boate resolve problemas pontuais, mas não muda a cultura de um povo.


Para dizer que eu só estou puto porque fecharam o puteiro na minha cidade, para me chamar de insensível por algum motivo que sinceramente não me importa, ou mesmo para cantar junto:  somir@desfavor.com

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SALLY

Chaminha foi visitar a boate Kiss, em Santa Maria! Ahhhh? desculpa, não pode fazer piada, afinal, morreu gente branca classe média e nesse caso é de péssimo gosto fazer piada, pois há uma identificação das pessoas com as vítimas. Parafraseando o Rei: São tantos desfavores?

A questão da mobilização inútil (escrever ?luto? em perfil de rede social e coisas do tipo que não ajudam em nada, apenas promovem quem o faz) em mortes de classe média não é novidade e já foi motivo de crítica em outras ocasiões, então, vou pular essa parte. Mobilizações úteis como doar sangue, doar medicamentos, doar alimentos sempre são produtivas, mas mesmo assim, essa solidariedade seletiva me deixa um pouco doente. Não que eu não sinta, eu sinto, mas tenho vergonha de alardear algo que considero um erro: solidariedade movida pelo sentimento de ?poderia ter sido comigo?. Isso está mais perto do egoísmo do que da solidariedade.

A cobertura da imprensa foi tão vergonhosa, mas tão vergonhosa que me deu vontade de largar direito e distribuir curriculum em algum meio de comunicação, porque puta merda, eu faria melhor. Primeiro a exploração massiva de cada detalhe sórdido, que configura muito mais desrespeito com os familiares das vítimas do que uma eventual piada envolvendo o assunto. Depois, quando já não havia mais o que ser explorado, a apelação para continuar falando sobre o assunto: ?Saiba a cor da cueca do bombeiro que resgatou as vítimas?. E por fim, as maravilhosas perguntas de repórter sem noção, que coloca o microfone no nariz dos familiares que estão enterrando seus entes queridos: ?Como a senhora se sente agora que seus três filhos morreram queimados??.

Imprensa monotemática é mera consequência do sadismo desse povo bunda que gosta de desgraça mas para manter a pose camufla seu sadismo de solidariedade. Gente que se diz de luto, que se diz solidária, mas divulga foto de vítimas mortas todas queimadas em redes sociais. Gente que diz sentir e respeitar a dor dos familiares querendo saber cada detalhes sórdido.

Um grande vexame, seja por parte do público de consumir essa merda, seja por parte da imprensa, de alimentar essa merda. Desfavor está envergonhado, fizemos questão de nem tocar no assunto a semana toda, porque de nenhuma forma queremos atrair esse tipo de leitor: gente hipócrita que busca detalhes do ocorrido para alimentar um sadismo camuflado de indignação. E a ilustração de hoje garante que esse tipinho vai continuar bem longe da gente.

Claro, tem também os desfavores mais óbvios: vida humana valendo merda, falta de segurança, falta de fiscalização, descaso de autoridades, risco escancarado ignorado por meses ou até mesmo anos e um delegado que posta evidências de um inquérito policias (dentre elas fotos) em sua rede social. Dá muita vontade de pegar as malas e rumar para o aeroporto, porque é uma confluência de escrotidões de tal porte que leva a crer que jamais poderá ser solucionada. Mas, ao meu ver, a pior de todas é: brasileiro só se mexe quando dá merda.

Agora todo mundo ficaliza boates, extintores de incêndio ou qualquer merda relacionada ao Chaminha. Como se não pudessem acontecer outros acidentes que acabassem com a vida humana envolvendo outros fatores como vazamento de gás, desmoronamento e coisas do tipo. Cito como exemplo a queda futura e certa do Elevado do Joá, que liga a Barra a São Conrado no Rio de Janeiro. Tenho informaçõe de dentro do CREA que esta porra VAI CAIR a qualquer momento e o Poder Público está inerte. Agora o foco são os incêndios, vamos todos fiscalizar a segurança relativa apenas a incêndios! Isto é Brasil. Por favor, queridos leitores do Rio, não usem o Elevado do Joá, tentem usar um caminho alternativo.

Teve também os desfavores religiosos, como de costume. Uns filhos da puta religiosos dizendo que as pessoas que estavam na boate morreram porque ?estavam no lugar errado?. Que Deus bacana, hein? Se você vai a um ?lugar errado? ele te mata incendiado! Só amor, só compaixão, só perdão! É Deus ou é o Godzila? Quem consegue sentir alguma ligação com um Deus desses? Porque acreditar que desgraças acontecem e estão fora do nosso controle desespera as pessoas. Não pode. Preferem arrumar um desculpa muito da esfarrapada para explicar a existência de Deus sendo compatível com uma coisa como o incêndio de Santa Maria. E as vítimas viram culpadas.

Espero que ao menos o desfecho desse caso seja mais rápido do que o do prédio que caiu no Rio de Janeiro, que após UM FUCKIN? ANO ainda não tem nem processo judicial! Ainda estão investigando. UM ano depois e ainda estão investigando. E olha que deu mídia quando o prédio caiu, hein? Mas, sabe como é, carnaval, Copa das Confederações vem aí? em poucos meses ninguém mais se lembra disso.
O desfavor maior? A passividade do povo brasileiro. Repito o que venho dizendo desde o começo do ano: só tratam a vida humana como merda porque não tem MEDO. No dia em que algum parente de uma vítima que não tenha mais nada a perder incendiar a casa de um dos proprietários com sua família dentro, no dia em que isso virar hábito, consequência natural de uma cagada desse tamanho, as pessoas começarão a ter MEDO de colocar seres humanos em risco dessa forma. Até lá, todos nós estamos sujeitos a nos foder nas mãos de pessoas que colocam nossas vidas em risco visando lucro.

Apenas para ilustrar meu ponto, em 2004 houve um grande incêndio em uma boate argentina chamada Cromañon, em um esquema muito parecido com o da Kiss. A mobilização foi tanta que houve não apenas mudança nas leis como perseguição aos responsáveis. Simplesmente o FUCKIN? PREFEITO de Bueno Aires sofreu um IMPEACHMENT por não se assegurar que a Prefeitura tenha fiscalizado as casas noturnas. Na época ele estava cotado para ser candidato à Presidência da República da Argentina, mas sua negligência destruiu sua carreira política. No Brasil cai prédio no Centro do Rio e tanto Eduardo Paes como Sergio Cabral se reelegem. O dono da boate argentina foi condenado e dez anos de prisão e se encontra preso. E olha que Argentina não é essa Coca-Cola toda. Imagina então em países civilizados! Dá ou não dá vontade de chorar?

Não é tão difícil como parece. Se não há justiça, façamos justiça nós. Reflitam. Se argentinos podem fazer, nós também podemos.


Para dizer que isso estragaria a vida da pessoa e ouvir que Júri nenhum no mundo condenaria uma pessoa transtornada que faz isso, muito pelo contrário, daria uma medalha, para reclamar da imagem e ser ignorado ou ainda para fazer uma piada sobre a tragédia e ganhar o meu respeito:  sally@desfavor.com