Você sabia que neste exato momento, centenas de milhares de pessoas nesse mundo estão se divertindo trabalhando de graça em profissões ingratas como motorista de transporte público ou cargas? Arando campos gigantescos em fazendas? Fazendo limpeza pública? Ou mesmo gerenciando as finanças de um time de futebol à beira da falência? E quando eu disse de graça, eu menti. Essas pessoas estão até pagando para fazer isso. Esse é o mundo dos simuladores.

Para quem não conhece, Steam é o nome de uma das maiores plataformas de distribuição digital de jogos do mundo. Ainda não goza de muita popularidade em terras de pirataria feito o Brasil, mas mesmo assim consegue reunir um grupo muito grande de jogadores ao redor do mundo. Como também é um sistema que valida os jogos para definir se eles foram comprados de forma original, conectando com o servidor deles a cada vez que você inicia, o Steam também é um ótimo referencial para saber que jogos estão fazendo sucesso.

Foi ao ver um famoso jogo de simulação de futebol sempre no alto das listas de jogos mais jogados, todos os dias, que comecei a prestar mais atenção no TAMANHO desse mercado. O jogo se chama Football Manager, e está atualmente na versão 2013. Explicando de uma forma simples, o jogo consiste em fazer o papel de técnico/administrador de um clube de futebol, sem chegar as vias de fato de jogar o jogo.

Não é um simulador do jogo de futebol como tantos outros famosos, é um simulador de gerenciamento de clube de futebol. O computador joga as partidas por você. Sei que é um jogo relativamente famoso, mas por aqui eu sempre acho razoável explicar melhor, por causa dos(as) párias não-nerds.

O bacana (já começou a ler, agora aguenta) é que ao invés de incentivar o jogador a viver o sonho de ser jogador de futebol, incentiva o de ser o ?professô?, ou ?pofexô? se você for da escola Luxa. Parte integrante do sucesso no jogo é saber gerenciar seu elenco, com as vaidades e burrices do típico jogador de futebol muito bem simuladas. Tem que montar uma tática de jogo bem complexa, cuidar para que os jogadores treinem direito, cuidar para não gastar dinheiro demais? Um monte de coisa chatíssima para muita gente que ama futebol.

Mas não para os fãs do jogo. Para eles é essa parte mala, essa parte muitas vezes repetitiva e frustrante justamente a que gera o interesse. Eu mesmo adoro, minha única crítica é que é um ralo de tempo desgraçado. O ponto aqui não é fazer uma análise do jogo, mas sim apontar como ele exemplifica uma inversão de valores sobre o que as pessoas costumam julgar a indústria do entretenimento.

Claro, existe um certo glamour em ser técnico de time de futebol (Tecla SAP: Salários absurdos.), mas simular a parte chata do trabalho deles? Sem uma compensação financeira? Pior: Cobrando para que se possa fazer isso?

O divertido não seria criar um jogo que simula apenas a parte mais suculenta da ação? Jogos de esporte são muito famosos, mas ninguém precisa treinar várias horas por dia só para ter o condicionamento físico necessário para exercer a profissão na vida real. Jogos de tiro entregam a diversão de sair matando geral sem consequências legais ou de integridade física. Ninguém quer pagar para trabalhar, oras.

Ou será que não? O exemplo do jogo de futebol é uma versão branda de outros jogos, que se não tão famosos, ainda sim mantém uma base considerável de fãs ao redor do globo. O simulador de ?trabalho? mais bem colocado depois do Footbal Manager se chama? Farming Simulator 2013. Sim, é um jogo de simulação de agricultura! Você pode dirigir tratores, plantar, colher? E não é aquela porrinha de Colheita Feliz ou Farmville, tem toda a parte chata e não tenta te desviar da realidade (na medida do possível, é claro).

Mas não é só isso. Ainda temos jogos que simulam a vida de caminhoneiro, dirigindo em estradas, respeitando sinalização e dando passagem para carros mais rápidos! Com prazos de entrega e orçamento mensal! Você pagaria por isso? Muita gente paga. Tem também um que simula o trabalho de motorista de ônibus, parando nos pontos certos e cuidando para dar o troco. E ai de quem errar a rota! E na progressão natural do ferromodelismo, vários e vários jogos onde se assume o papel de maquinista de trem? Pois é, tem gente jogando simulador disso. E pagando horrores para comprar novos modelos de trens, frequentemente.

O mercado de simulação ?de emprego? está aumentando com o passar do tempo, mesmo com a indústria dos games mais ?normais? cuspindo toneladas de jogos novos todos os meses. É muita gente preferindo dirigir um ônibus num dia chuvoso a salvar o mundo como um agente secreto. E apesar de descrever esses jogos quase como se estivesse apontando para jaulas num zoológico de hobbies, não estou exatamente interessado em puxar um coro de ridicularização.

Tem um dose pesada de escapismo aí, não vou negar. Mas esse é o elefante na sala, assunto bem batido em anos de textos reclamando da falsa relação entre nerds (viciados em infomação) e gente deslocada da realidade. Pode ser um hobby ou pode ser uma obsessão. E é isso que vai definir o tamanho do problema para uma pessoa.

O que me motiva a escrever desta vez é a ideia de que esse sucesso dos simuladores ?chatos? seja um indicador de como tem gente alienada de seus interesses nos seus trabalhos habituais. Deve ter muito talento desperdiçado só nesse público alvo. E nem precisa ser uma relação direta entre o que faz no jogo e faria na vida real, alguém que consegue passar horas simulando entregar uma carga atravessando a Europa de caminhão com certeza está sendo mal empregado num cargo que exige muita interação social, por exemplo.

Tem gente até demais nesse mundo. Aposto sem medo de perder que desse para reorganizar todas as pessoas para trabalhos mais próximos de seus interesses, não sobraria uma porcaria de uma profissão abandonada. Nem mesmo limpador de fossa (ou político honesto, provavelmente a profissão mais frustrante do mundo). Sempre tem gente que não liga ou mesmo gosta de fazer alguma profissão chata ou difícil. Sempre tem gente incompetente ou desmotivada em profissões de grande concorrência.

Vivemos numa sociedade tão viciada em criar aspirações (muitas propositadamente inatingíveis) que vai se criando uma FALSA impressão que todo mundo quer as mesmas coisas. É interessante para quem deter o poder que quem está no andar de baixo fique em eterna competição por prêmios limitadíssimos. Seria um desastre para o sociedade de consumo se as pessoas começassem a gostar do que fazem? Por isso tanta gente é incentivada a continuar com uma visão infantil sobre o que vão ser quando crescerem.

A criança não quer ser como o Neymar porque se identifica com o comportamento de fazer manha e chorar toda vez que leva um empurrão, é a projeção de felicidade que elas entendem: Serem paparicadas e ganhar muitos presentes, sempre imaginando que vai ser fácil. Com o passar do tempo, essas crianças deveriam amadurecer e começar a projetar sua felicidade e senso de realização de acordo com seus interesses atuais, não simplesmente trocar o sonho infantil de chutar uma bola e ganhar milhões por um de assinar papéis e ganhar milhões por isso, sem muito esforço.

Mas não é isso que acontece, é? O normal é continuar com uma ideia de carreira fortemente amarrada em desejos infantis e na maioria esmagadora dos casos, sentir o gosto amargo da derrota quando percebe que está atrás de um balcão ou mesa esperando até a hora de voltar para casa. Esse desencanto é ESSENCIAL para vender coisas para as pessoas: ?Foi mal aí que você não deu em nada, mas se você comprar isso, vai ficar mais parecido com quem teve sucesso!?

E o povo abre a carteira. O sistema funciona! Crianças com cartões de crédito são os melhores consumidores possíveis. Óbvio que as falhas no sistema educacional aleijam as possibilidades de progressão profissional do cidadão médio, isso tem que melhorar, sem falta. Mas tem esse elemento comportamental botando freios no potencial das pessoas. Trabalhos são remunerados, no quesito financeiro e de status, de acordo com o que as pessoas ACHAM que querem, e dificilmente pela raridade das pessoas dispostas a realizá-lo.

Os jogos de simulação estão aí para provar que mesmo trabalhos considerados chatos podem ser muito bem vistos por determinados seres humanos. Chatice é uma medida pra lá de relativa. Tem cérebros e cérebros nesse mundo? A merda é que esses fãs raramente tem a oportunidade de seguir o caminho até seus gostos profissionais. Grandes merdas sonhar em dirigir trator se isso nunca vai pagar suas contas. Ou se é vergonhoso admitir uma coisa dessas.

Só é ambicioso e ?válido? para a sociedade quem quer ganhar muito dinheiro, ficar famoso ou mandar nos outros? Esse modelo é uma armadilha clara, mas pior do que isso, é um limitador de potencial. Deveríamos valorizar mais quem faz o que não gostamos de fazer, o que achamos maçante, perigoso ou pouco recompensador. Mas não, acabamos com dez mil candidatos por vaga em um curso e dez vagas por candidato em outro. Sério mesmo que todo mundo quer fazer as mesmas coisas?

O mercado de simuladores vai continuar sua expansão, vão surgir cada vez mais jogos da ?profissão alheia?, se cada um desses jogos apela para um grupo muito específico, o conjunto deles pode chegar a apelar para todo mundo. E muito cuidado para não botar tudo na conta do escapismo quando a coisa estiver REALMENTE popularizada, isso também é reação a uma sociedade montada sob premissas bem escrotas na questão da função que cada um exerce no quadro geral.

O trabalho de muita gente nesse mundo é financiar o status de quem conseguiu o trabalho que elas não conseguiram. Pode-se realmente culpar quem tira um tempinho da sua vida para dirigir um trator virtual?


Para dizer que agora sabe porque eu furo tanto (quem me dera?), para me chamar de comunista disfarçado, ou mesmo para dizer que comenta assim que o ?Trolling Simulator 2013? terminar a atualização:  somir@desfavor.com