Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Esquadrão do Torniquete) [VI]

 

Artigos de jornais diversos sobre os esquadrões da morte e grupos de extermínio em Belo Horizonte: ano de 1990.

 

 

Folha de São Paulo, São Paulo, 28/04/1990, cad. 1, p. 5

 

Soldado confessa crime e tenta suicídio em BH

 

Da Sucursal de Belo Horizonte

 

     O soldado PM Wilson Evangelista, 25, tentou se suicidar com um tiro de garrucha (tipo de pistola em que o projétil é carregado pela boca) na cabeça, anteontem à noite, em Belo Horizonte.

     Ele estava sendo interrogado pelo comandante do 18º Batalhão da Polícia Militar, Joel de Oliveira, 44, em inquérito que apura a participação de policiais militares num grupo de extermínio de marginais da região metropolitana de Belo Horizonte.

     Minutos antes da tentativa de suicídio, Evangelista havia confessado ter assassinado em fevereiro Gildo Carlos Silva, 22, e Hélio Amorim, 19, para vingar a morte do pai, o comerciante Targino Balbino de Souza, 54.

     Gildo Silva e Amorim eram acusados pelo assassinato do comerciante Balbino de Souza, ocorrido em setembro do ano passado. Sua loja, localizada no município de Contagem (região metropolitana de Belo Horizonte) também foi roubada.

     Segundo o chefe do Departamento de Relações Públicas da Policia Militar, major Humberto de Andrade, 46, o PM pode pertencer ao esquadrão Torniquete, que desde fevereiro executou mais de vinte pessoas na região metropolitana de Belo Horizonte.

     Segundo o major Humberto, o soldado negou durante o interrogatório ter participado de outros crimes, mas tentou o suicídio para inocentar os demais integrantes do esquadrão. O major também acha que ele pode ter tentado se suicidar por temer uma punição por parte do comando da Polícia Militar. "Ele estava convicto do rigor com que a PM trata os erros praticados por seus membros", afirmou o major Humberto. A Polícia Militar abriu inquérito para apurar a tentativa de suicídio, considerada crime pela Justiça Militar.

     O PM se encontra internado em estado grave no hospital de pronto-socorro de Belo Horizonte. Segundo os médicos, ele tem "remotas" chances de sobreviver.

     No depoimento que prestou, segundo o comandante, o policial confessou ter prendido Gildo Silva e Hélio Amorim no dia 23 de fevereiro, num bar de Contagem. Teria confessado também que, acompanhado do informante da polícia Zequedios Andrade da Cunha, 27, cortou os punhos dos dois e os matou. Os corpos foram encontrados no leito de um rio localizado às margens da rodovia MG-60, próximo a Contagem. Andrade Cunha foi preso ontem de manhã pela polícia.

 

 

Estado de São Paulo, São Paulo, 11/07/1990, cad. 1, p. 14

 

Grupo de extermínio mata mais 2 em MG

 

     Os corpos de mais dois homens foram encontrados ontem na região metropolitana de Belo Horizonte, com sinais de estrangulamento. Com isso, sobe para 25 o número de pessoas mortas nas mesmas circunstâncias desde fevereiro, quando um grupo de extermínio, apelidado do Torniquete, começou a atuar na capital.

     Pela manha, no quilómetro 16 da Rodovia MG-10, na Zona Norte, a polícia encontrou um homem de aproximadamente 30 anos, ainda não identificado, apresentando ferimentos no pescoço. No inicio da tarde, no quilômetro 17 da BR-262, um lavrador descobriu num matagal o corpo de Antônio Alves Barbosa, de 42 anos, que estava desaparecido desde sábado à noite.

     Até agora, no entanto, a polícia não tem pistas para identificar os integrantes do grupo. O que mais intriga os policiais é a forma utilizada para escolha das vítimas, que. em sua maioria, são pobres e sem antecedentes criminais. Para o titular da Delegacia de Crimes Contra a Vida, Raul Moreira, o grupo mata para roubar.

     A policia do Rio descobriu uma nova área que pode estar sendo usada como cemitério clandestino, no alto do Morro do Vidigal, em São Conrado, na Zona Sul. Ontem, foram encontrados no terreno os corpos de um homem e de uma mulher. Hoje as escavações devem continuar. Próximo ao suposto cemitério, os policiais descobriram ainda um barraco fechado, no qual havia seis quilos de maconha.

 

 

Folha de São Paulo, São Paulo, 13/08/1990, cad. Cid., p. 1

 

Esquadrão causa pânico em Minas

 

AMAURY RIBEIRO JÚNIOR

 

Da Sucursal de Belo Horizonte

 

     Um grupo de extermínio, acusado de 32 assassinatos na periferia de Belo Horizonte, está provocando pânico entre moradores da zona norte da cidade. Desde 25 de fevereiro, quando seis trabalhadores foram estrangulados com um torniquete, os bares fecham as portas no final da tarde, as aulas de escolas noturnas estão suspensas e as ruas ficam desertas após 20h.

     Os crimes atribuídos ao chamado "esquadrão do torniquete" têm características comuns: ocorreram perto da rodovia Cristiano Machado da BR-262 e 90% das vítimas morreram enforcadas. Todas as pessoas assassinadas não tinham passagem pela polícia e foram saqueadas depois de mortas. A polícia não tem pistas.

     Segundo o presidente da Associação dos Moradores do bairro Nazaré, Sebastião Ferreira Bastos, 49, além de terror, o esquadrão vem provocando uma grande crise. "O comércio caiu cm 70% e muitas pessoas estão deixando o bairro". Bastos conta que os primeiros a mudar foram os familiares do balconista César José da Costa e do trocador de ônibus Fernando Gomes Ferreira, estrangulados no Carnaval, quando voltavam para casa. O irmão do balconista, Raimundo da Costa, dono de uma das mais badaladas lanchonetes do bairro, vendeu tudo e mudou-se com a família para Itabirito. "Temo pelo assassinato dos demais integrantes da família", disse.

     O diretor da Polícia Civil, Newton Ribeiro, 52, acredita que existam pelo menos dois grupos e um maníaco atuando na zona norte. "Tudo indica que há uma quadrilha de puxadores de carros, um maníaco que estrangula as pessoas e um grupo de extermínio". Ribeiro não descarta a participação de policiais nos 32 assassinatos.

 

 

Folha de São Paulo, São Paulo, 17/08/1990, cad. Cid., p. 3

 

Dois confessam participação no esquadrão de BH

 

Da Sucursal de Belo Horizonte

 

     O titular da Delegacia de Crimes Contra o Património, João dos Reis, 50, disse que os taxistas Joaquim Moura Filho e Wanderlei Soares Filho confessaram participação no chamado "Esquadrão do Torniquete" ao qual é atribuída a morte de 32 pessoas em Belo Horizonte.

     Os taxistas teriam dito que o grupo é formado ainda por um detetive e um soldado da Polícia Militar. "Os dois policiais negam, mas encontramos em suas casas objetos roubados das vítimas", disse. Nos crimes, 90% das vítimas foram estranguladas com torniquete.

 

 

Folha de São Paulo, São Paulo, 18/08/1990, cad. Cid., p. 5

 

Inquérito protege PMs em MG, diz sindicato

 

Da Sucursal de Belo Horizonte

 

     O diretor do Sindicato de Servidores da Polícia Civil de Belo Horizonte, Carlos Augusto Silveira, 29, disse ontem que os soldados da PM acusados de participação em grupos de extermínio estão sendo beneficiados no inquérito.

     Segundo ele, apenas os detetives e os taxistas do chamado "Esquadrão do Torniquete" estão sendo punidos. "Nem o nome dos policiais militares está sendo divulgado à imprensa".

     O "Esquadrão do Torniquete" está sendo responsabilizado por 32 assassinatos em Belo Horizonte, desde fevereiro. Até agora, a Delegacia de Homicídios indiciou apenas os taxistas Joaquim Coura Filho e Wanderlci Soares, que confessaram a participação no grupo.

     O delegado João dos Reis disse que possui provas para incriminar também o detetive Amantino Severo dos Santos e o soldado PM Jaime da Silva Mattos. O grupo seria formado ainda por mais oito policiais militares, cujos nomes estão sendo mantidos em sigilo.

     O diretor da Policia Civil, Newton Ribeiro, 52, nega o favorecimento de policiais militares no inquérito. "Somente podemos acusar com provas", afirmou.

 

 

Folha de São Paulo, São Paulo, 22/08/1990, cad. Cid., p. 6

 

Crime de grupo de extermínio é reconstituído

 

Da Sucursal de Belo Horizonte

 

Os policiais da delegacia de homicídios de Belo Horizonte fizeram ontem a reconstituição do primeiro dos 32 assassinatos na zona norte de Belo Horizonte atribuídos ao chamado "esquadrão do Torniquete". O detetive Amantino Severo dos Santos, o PM Jaime da Silva Mattos e os taxistas Wanderlei Soares e Joaquim Filho mostraram com detalhes o estrangulamento do escriturário Álvaro Antônio Ismael Vaz no dia 26 de maio. A Justiça decretou a prisão preventiva dos acusados. O grupo seria formado por mais oito PMs.

 

 

Folha de São Paulo, São Paulo, 23/08/1990, cad. Cid., p. 5

 

Viciados em drogas eram alvo do 'torniquete'

 

Da Sucursal de Belo Horizonte

 

     Os usuários de drogas eram os principais alvos do chamado "esquadrão do torniquete", acusado de ter estrangulado 32 pessoas na zona norte de Belo Horizonte (MG). "Fazíamos isso porque não gostamos de maconheiros", disse o taxista Wanderlei de Almeida, que confessou a participação no grupo de extermínio. Além de Almeida, foram presos outro taxista, Joaquim Moura Filho, o detetive da Polícia Civil Amantino Severo dos Santos, e o soldado PM Jaime Silva Mattos.

     Durante a reconstituição, dos assassinatos do escriturário Álvaro Antônio Ismael Vaz e do lavador de carros Ezequiel Silva, os taxistas afirmaram que as vítimas eram abordadas e presas pelos dois policiais. Eles afirmaram que no dia 26 de fevereiro o escriturário foi preso pelos policiais fumando maconha e obrigado a levá-los ao fornecedor da droga, Ezequiel Silva.

     O escriturário e o lavador de carros foram levados à rodovia Cristiano Machado. "Enquanto o detetive enforcava Álvaro com um cinturão de couro, o soldado da PM estrangulava Ezequiel", afirmou Almeida.

     Para o delegado da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio, Raul Moreira, 47, o grupo é formado por psicopatas. O esquadrão seria formado ainda por oito policiais da PM, cujos nomes estão sendo mantidos em sigilo pela polícia.

 

 

MG TV, 2ª edição, Belo Horizonte, 22/08/1990

 

Esquadrão do Torniquete

 

Vídeo  [1:26]

 

 

Jornal da Alterosa, 1ª edição, Belo Horizonte, 16/11/2011

 

Ex-policial condenado fala pela primeira vez do Esquadrão do Torniquete

 

Vídeo [5:40]

 

 

Jornal da Alterosa, 1ª edição, Belo Horizonte, 17/11/2011

Matadores do Esquadrão do Torniquete estão impunes até hoje?

Vídeo [4:15]

 

 

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