| Argentina leva ?puxão de orelha? do FMI e ?congela? preços Por Nota Alta 08/02/2013 às 20:07 Quem tem menos de trinta anos não consegue entender bem o que é isso: ?congelamento de preços?. A mágica foi muito praticada no Brasil, por exemplo, mas caiu em desuso faz mais ou menos 20 anos. Congelamento quer dizer que os preços de tudo, da dúzia de ovos no supermercado, da gasolina, do corte de cabelo, ou da cerveja no boteco da esquina ficam ?parados? por decreto. Quem regula o preço de qualquer produto ou serviço não é mais a lei da oferta ou da procura, mas a vontade do governo. Durante períodos de guerra, por exemplo, é comum e compreensível esta medida; fora disso, invariavelmente, apresenta mais problemas para o controle da inflação do que os soluciona. Ontem, a ?fórmula? foi ressuscitada na Argentina quando o governo fechou um ?acordo? com a associação dos supermercados para congelar os preços dos produtos por dois meses. Por decreto, os preços voltam ao que eram em 1º de fevereiro e ficam parados até 1º de abril. Motivo: controle da inflação. É muito estranha a decisão exatamente quando a presidente da Argentina, Cristina Kirchner anunciou que a inflação em 2012 foi de 10,8%. AS consultorias econômicas independentes dizem que a inflação verdadeira no país, não a ?maquiada? pelos índices oficiais é bem diferente e alcançou 25,8% em 2012. No final da semana passada, o Fundo Monetário Internacional enviou moção pública de censura para a Argentina pela má qualidade de suas estatísticas que provocaram índices de inflação e de crescimento do PIB ?sem credibilidade?, o que impede comparações internacionais e distorce a correta avaliação da situação econômica do país. Em resposta ao FMI a presidente Kirchner tuitou diversas acusações ao Fundo, de ?incompetência?, recusou o ?puxão de orelha? da entidade internacional. Mas, no dia seguinte, decretou o ?congelamento de preços? para segurar artificialmente a subida da inflação. Os sindicatos argentinos, reunidos na poderosa Confederação Geral do trabalho, a CGT, querem que os salários aumentem conforme a inflação real, ou seja, tenham um reajuste de 25%. A presidente Cristina Kirchner resiste e diz que o máximo que pode dar é 20%. Em outras palavras, nem mesmo o governo acredita na inflação ?oficial? de 10,8% no ano passado. A crise econômica internacional atingiu duramente as exportações de commodities argentinas no ano passado. Os baixos investimentos, tanto nacionais como internacionais, atingiram a produtividade da indústria do país. Os gastos públicos também aumentaram gerando déficit. O conjunto desses problemas ajudou a subida da inflação. O congelamento só imagina enfrentar o resultado desses problemas e não a sua origem.
>>Denuncie abusos na política editorial >>Complemente esta matéria Congelamento de preços não funciona pois o capitalismo de hoje é muito concentrado em poucas empresas. Elas têm condições de boicotar o congelamento escondendo produtos e forçando uma alta artificial nos preços por um excesso de demanda artificial.
Uma possível saída seria a importação. Nos dias de hoje, com a depressão provocada pelo neoliberalismo nos países centrais, não seria difícil conseguir produtos importados a bons preços. No entanto, a distribuição também é oligopolizada por redes de supermercados que não têm interesse no congelamento de preços. Um pacto oficioso entre fornecedores internos e o oligopólio dos supermercados para não importar produtos poderia sabotar o congelamento.
O fracasso de diversos casos de congelamento de preços como na própria Argentina e no Brasil dos anos 80 foi causado pelo fato dos salários sempre estarem defasados em relação aos preços.
Os empresários resistem o quanto podem aos reajustes de salários, e quando a pressão dos trabalhadores fica irresistível pela escalada dos preços é adotada uma política salarial de reposição nominal da inflação passada, ou mesmo, pequenos aumentos reais que ainda permitem que os preços e ganhos de capital "corram na frente" dos salários, e o problema da mais-valia via inflação não é resolvido.
Os empresários apenas seriam vigilantes quanto ao aumento de preços de seus produtos caso tais aumentos resultassem em perdas para eles em relação aos salários. Isto apenas ocorreria caso os salários não fossem apenas reajustados, e sim, majorados muito acima da inflação passada.
Neste caso, os salários iriam "invadir" o espaço da mais-valia e os empresários seriam mais rígidos com os preços cobrados por seus fornecedores do que qualquer fiscal do Estado.
Quando houve o impasse entre mais-valia e salário na Europa do Welfare State, nos anos 70, a saída para a estagflação (na verdade, um desafio dos empresários aos governos sociais-democratas europeus quanto à manutenção do Welfare State) seria tal política salarial agressiva. Mas, os governos capitularam e veio a "saída" neoliberal, com os resultados trágicos que conhecemos.
 | A política populista da Presidenta Cristina cobra o seu preço. Uma espécie de efeito bumerang. Gasta mais do que arrecada, a dívida interna pressiona preços e salários, os índices estatísticos do IDEC (IBGE de Argentina), são acintosamente manipulados, os panelaços surgem, blá, blá, blá e agora congelamento de preços. Isto é a ópera bufa de uma tragédia anunciada.
Culpar o FMI, capitalismo, o neoliberalismo, os meios de comunicação e encontrar um inimigo externo, que no caso específico da Argentina é a Inglaterra, são partes do enredo de um bucólico tando portenho e dos esquerdistas frustrados.
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