O tempo está suspenso em Havana, onde todos aguardam as reformas que serão anunciadas, em abril, no congresso do Partido Comunista. Tudo indica que será referendado o plano do presidente Raúl Castro para reestruturar a economia ineficiente mediante a demissão de 500 mil funcionários públicos, a abertura de pequenos negócios privados em 178 atividades, a abolição da Libreta de Abastecimiento e a libertação de dezenas de prisioneiros políticos. Os ares são de mudança. Há ansiedade na ilha. Uma visita a Cuba revela mais nuvens escuras no horizonte do que mar azul, ritmos caribenhos e sonhos revolucionários.

"Como se pode viver com um salário médio de US$ 20 ao mês (R$ 32)?", dispara Ivone T., uma jovem estudante de medicina, em Havana. Apesar das conquistas socialistas na educação e na saúde públicas, nos últimos anos a penúria cresceu de tal forma que hoje quase toda a renda familiar cubana é dedicada à alimentação racionada pelas cotas mensais de gêneros registradas na Libreta. A caderneta é um documento fundamental da vida cubana, mas as rações mensais só garantem 12 dias de comida. Para complementar a dieta, só há uma saída: "Vire-se." Para Ivone, a ilha caiu na armadilha da esperança fantasiosa. "Acreditamos muito em mañana, no futuro que justificaria os sacrifícios do dia a dia, e só nos restou a sobrevivência", afirma. Uma jornada por onde pulsa o coração de Havana, longe dos roteiros turísticos, revela feridas na alma cubana.

Saindo dos bairros chiques o asfalto desaparece e surgem casas simples, com pequenos jardins. Não há cachorros. "A comida não dá nem para nós", ironiza Daniel. Com o anunciado fim da Libreta de Abastecimiento a insegurança aumentou na ilha. Não se sabe como será feita a parca distribuição de alimentos. Sem a Libreta, restam as bancas e mercadinhos com nomes sugestivos como La Fortuna, La Generosa, La Speranza, que quase não têm o que oferecer, e as lojas especiais reservadas aos turistas e a quem paga o peso conversible (igual ao dólar), devidamente abastecidas de produtos importados. Só quem recebe dinheiro de parentes no exterior pode encarar esses gastos, ou quem exerce atividades ilegais. Um quilo de carne de porco custa 27 pesos no mercado privado.