Carnaval: festa da carne e do espírito-canto. Rito de afirmação do desejo, da liberdade de um corpo que arde, de uma alma sem calma que invade. Celebração a transformar e a transportar a vida para um terreno livre de regras, normas mornas. Em perspectiva: suspensão de tabus, barreiras, trincheiras. Pela liberdade de ser, de estar no mundo.

Raízes fincadas no clássico banquete no qual se desfrutava uma abundante e simbólica vitória sobre o sagrado, o medo, a opressão, a morte. Despertada uma consciência crítica através do riso. O cômico, o cósmico. Entre dentes, a legitimação de uma ordem outra que perverte, inverte, subverte o que está posto. Estado de êxtase. Êxtase no estado.

Do questionamento e do delírio alimentava-se o culto à sublime divindade pagã. Dioniso, Proteu, Momo. O salto histórico: do panteão greco-romano ao Rio de Janeiro do início do século XX. O carnaval desponta como festa popular, ?pra pular?. Antes dos ranchos e dos bumbos do diligente zé-pereira, a agressividade do entrudo a entrar com tudo em batalhas travadas por cordões munidos de navalhas. Um delírio canalizado para a violência.

Do brigar ao brincar. Das praças e gritos de guerra aos ranchos, blocos, canções e marchinhas satíricas. Na então capital federal, promove-se a campanha ?O Rio civiliza-se?, política de adequação aos ditos ?tempos modernos?. É inaugurada a Avenida Central; espocam cinemas, circos, cervejarias, clubes, cassinos, cafés, cabarés; dinamiza-se o rádio; a imprensa evolui; chega-se a incentivar a imigração européia com vistas a embranquecer a população.

O carnaval não sai ileso, também se eurocentriza, passa a ser concebido a partir de referências franco-italianas. As cidades de Nice e de Veneza servem de base a uma experiência fundada na sofisticação, na exuberância subvencionada por um estado que assume o controle do mecenato momesco. Palanques, concursos, premiações, ameaças devidamente extirpadas, os arranjos criados para a exploração mercantil. Momo: um maná, mina de ouro.

Crescem os investimentos em esculturas, figurino, cenografia, em suntuosos carros alegóricos. Os foliões operários abrem alas para negociantes e vendilhões que fazem dos enredos vitrines; das escolas, prateleiras. Com a oficialização do desfile das escolas de samba, em 1935, um passo largo rumo ao adestramento das hostes folionas. Manifestação de um poder a impor disciplina, obediência, regramento. O carnaval a se transfigurar, paulatinamente, em festa dos grupos dominantes. Banhos de champanha no Copacabana Palace.

Com escassas exceções, como a da campeã de 1937, a Vizinha Faladeira, que rechaça o enquadramento e abdica de competir, as demais escolas sucumbem a um desfile cada vez mais engessado, enfadonho, no qual a instância coletiva da comunidade é embaciada pela egocentrada figura do carnavalesco. A despeito dos resistentes blocos que ainda fazem efervescer o carnaval de rua, os anos 70 trazem uma espécie de samba-rancho, apropriado para quem não sabe sambar, o regresso das escolas à Praça Onze, a consolidação do carnaval pirotécnico, a prática de desfiles girados para jurados, e a escolha de enredos férteis a projetos políticos ditatoriais. Digna de registro, sobretudo, a resistência de Candeia, que deixa a Portela para fundar a Escola de Samba Artes Negras Quilombo, desconectada do circuito dos desfiles oficiais.

A inauguração do sambódromo, em 1984, sacramenta o estado na condição de tutor de uma festa que se descaracteriza, que deixa, aos poucos, de ser popular por perder espontaneidade. Agremiações se submetem a ligas que se intitulam independentes, alternativas, sebastianas, mas que no fundo agem como administradoras de um grande negócio no qual se transformou o carnaval. Em primeiro plano, a corporação, não o corpo em ação a reivindicar a liberdade, a anunciar a quebra da hierarquia, a exercitar um questionamento lúdico de uma opressiva organização social.