Para quem já conhece um pouco da Itália pode ir diretamente para o final do texto que trata o tema central desse artigo, para os demais peço que se arme de paciência e leia desde o inicio para saber de quem e do que estamos falando.

Como é noto, a Itália é uma republica parlamentarista, e três são os poderes que a compõem Judiciário, Legislativo e Executivo, , obviamente os três poderes são independentes, o executivo é formado por um conselho de ministros e seu primeiro ministro é o chefe de governo indicado pela maioria parlamentar eleita nas urnas, já o Presidente da Republica é eleito indiretamente através de um consulta aos partidos que indicam nomes notáveis que será então votado pelos parlamentares, a natureza do cargo num sistema parlamentar exige que o candidato seja "super-partes" para cumprir o mandato de Presidente que dura sete anos e além do papel de zelador da constituição ele representa a união nacional, e é também o presidente de "Consiglio Superiore della Magistratura" e do "Consiglio Supremo di Difesa" entre outras funções, normalmente seu valor é bastante simbólico e seus poderes são mais perceptíveis em caso de crises politicas, poucos são as decisões que a Presidência pode tomar sem precisar do aval de outros poderes, entre eles destaca-se a nomeação de Senadores vitalícios, a dissolvência do Parlamento e de "abdicar" de seus poderes pedindo demissão, no caso da dissolução do parlamento a praxe requer que o primeiro-ministro no cargo renuncie.

A constituição italiana foi escrita sobre os escombros da segunda guerra mundial e seu teor é essencialmente antifascista, mas na pratica o Estado é bastante tolerante com as ideais fascistas, isto é, proíbe manifestações de ódio mas não reprime formação de partidos ou movimentos de inspiração mussoliniana, desde que não remande diretamente ao fascismo e ao nome de Benito Mussolini, se bem que, na sociedade civil prevaleça as idéias antifascistas constringindo as forças de extrema direita a operarem em relativo silencio.

É muito comum os textos que tratam o contexto italiano caírem em fáceis simplificações e estereótipos, sobre a gastronomia, o design ou a antiga Roma, mas difícil mesmo é não falar de mafia, obviamente, é grande bobagem pensar que todos os italianos sejam mafiosos, a mafia é um poder paralelo, oculto, violento e capitalista, essa ultima afirmação não implica que todos os capitalistas sejam mafiosos, mas a mafia vive em função do dinheiro e do poder e se destaca pela habilidade em penetrar nos instituições políticas, de dominar setores econômicos, de condicionar juízes e "silenciar" opositores.

A historia politica italiana é tão intensa e complexa que aqui posso simplificar e resumir ao máximo apenas para dar uma noção, embora, apenas uma enciclopédia possa dar a sua real dimensão, a atual Itália, apesar de fundar raízes no império romano com esse já não se reconhece mais, assim como a Grécia moderna nada assemelha à Grécia antiga, a não ser pelas ruínas, então, desde o fim do império romano a península itálica ficou fragmentada em reinos cada um dos quais com seus usos e costumes e línguas (dialetos), e entre muitos já no final da era medieval destaca-se o "Granducato di Toscana" (Florença) berço da Renascença e de pessoas como Leonardo da Vinci, Maquiavel, Dante, Michelangelo e muitos outros, também o "Regno delle Due Sicilie" que unia todo o sul da península e a ilha de Sicília, e o "Regno di Sardegna" que unia a ilha de Sardenha e o norte da peninsula que toca o centro do continente europeu esses reinos e ducados foram dominados por austríacos, germânicos, franceses e muitos eram "satélites" do vaticano e seus Papas, antes da unificação ainda durante o período da Renascença diante de tanta fragmentação via-se a necessidade de uma unidade nacional saudosos dos tempos imperiais da antiga Roma, mas apenas alguns séculos mais a frente é que o sentimento de unidade começa a formar uma "massa critica" e nesse contexto pensadores, poetas, políticos e Garibaldi deram inicio ao levante que derrotou potencias estrangeiras e subjugou reinos que foram unificados sob a bandeira do Reino de Sardenha dando vida ao Reino de Itália, que durou até ao fim da segunda guerra mundial após o conluio de 20 anos com o fascismo de Benito Mussolini, é então no fim da segunda Guerra que nasce a Republica italiana e em 1947 é promulgada a constituição até hoje vigente.

Após essa breve e sintética introdução podemos agora entender o que se passa na Itália atual pós-berlusconiana, alias, nem tão pós assim, pois apesar de ter dito que se retirava da vida politica logo após queda do seu governo no fim de 2011, como bom politico italiano ele não cumpriu a promessa e agora se diz pronto a formar um novo governo, sua coligação que governou a Itália por cerca 10 anos se desmoronou sob o peso de suas contradições, de fato, a aliança colocava junto na mesma casa os fascistas nacionalistas e os "leguistas" secessionistas da "Lega Nord" xenófobos e territorialistas, mas a ultima crise de governo foi muito além das contradições, uma enxurrada de processos judiciais que vai desde a corrupção até ao abuso de menores minou a credibilidade de Berlusconi perante os italianos e da Itália perante o resto do mundo, uma crise ética e moral sem precedentes fez com que o até então sonolento presidente Giorgio Napolitano resolvesse dissolver o parlamento e nomear um governo emergencial, primeiro nomeando Mario Monti Senador vitalicio e dando a ele o encargo de formar um novo governo que evitou colapso da economia italiana e talvez europeia, mas a historia ainda não terminou.

A campanha eleitoral italiana está sendo feita quase toda pela televisão, não em horário político obrigatório (não existe), mas sim, nos jornais e programas televisivos que servem de palanque para cada um dos lideres de coligações e candidatos que se alternam dia sim e dia não em tempos mais ou menos iguais para garantir a "par condicio", com exceção de Silvio Berlusconi que sendo proprietário de 5 grandes canais televisivos e do Milan é uma presença constante nos seus noticiários, mas, assim como em nosso país os cartazes se espalham nas ruas das cidades, porém, estranhamente dois elementos comuns nos nossos pleitos eleitorais não estão muito em alta nestas eleições italianas de 2013, os comícios e o corpo a corpo.

A classe politica italiana está realmente em baixa e as aparições publicas são raras e apenas devidamente protegidas por policias e guarda-costas, nenhum politico seja de centro-esquerda que de centro-direita se arrisca fora dos auditórios onde apenas convidados tem acesso livre e a ovação é garantida.

Na politica italiana, mais que em qualquer outra, a direita e esquerda sempre foram muito antagônicas, e entre os anos sessenta e setenta quase culminaram numa guerra civil, embora, não generalizada a guerra houve de fato e os mortos foram centenas, ainda hoje, a contraposição de forças é grande mas, em nível politico institucional ela é bastante tênue, ao contrario daquela extraparlamentar onde centros sociais de esquerda e de direita vivem em pé de guerra e não são raros os conflitos.

Nestas eleições as principais forças politicas se dividem em centro-direita, centro-esquerda, centro-centro e "a frente", além de inúmeros pequenos partidos criados do nada apenas para concorrerem a um cargo politico, comecemos pelos direitistas com Berlusconi e "leguistas" esses estão em dificuldades devido aos processos ao qual responde Berlusconi e a credibilidade baixa da Lega Nord que culminou no retiro à vida privada de seu líder histórico Umberto Bossi e filhos envolvidos em casos de corrupção, agora substituído por seu amigo e ex-ministro do interior Roberto Maroni que evita sequer citar o nome de seu mentor e amigo Bossi, da outra parte os esquerdistas se aglutinam para levar o máximo de poltronas na Câmara dos Deputados e no Senado, a união do Partido Democrático de Bersani e Nick Vendola da SEL - (Sinistra, Ecologia e Libertà), onde, sinistra é esquerda em italiano, partidos de esquerda de verdade são lembranças do passado, o "centro-centro" é onde pousou o primeiro-ministro demissionário Mario Monti, que após cumprir a missão a ele delegada pelo presidente Giorgio Napolitano não mais poderia continuar no cargo devido a crescente reclamação da classe média e operaria que via um governo nem sequer eleito diretamente aplicar planos de austeridade cada vez mais duros, então, por fim, anunciou sua demissão abrindo as portas para a eleição de fevereiro 2013 na qual se candidata pela primeira vez em busca de um aval da sociedade, Monti é um professor universitário que se prestou à politica após ter ocupado alguns cargos na economia europeia, para tentar continuar com seu plano de "salvação" aliou-se com Fini e Casini ambos ex-aliados berlusconianos, agora inimigos, mas não seria surpresa se mudassem de idéia.

MOVIMENTO 5 ESTRELAS *****

Não importa qual seja a sua ideologia, no movimento contam as idéias e as idéias são ou boas ou más, assim responde o líder ou como ele prefere ser chamado "zelador" do movimento 5 estrelas quando o acusam de, de ser um fascista mascarado e outras de se um extremista de esquerda, depende apenas do inimigo que pronuncia as "difamações" mas, também o chamam de populista, demagogo e megalomaníaco, e ele durante conta de 1 a 3 e pede em cada etapa em seus comícios para que os presentes em coro o chame com essas alcunhas, dizendo que é um exorcismo coletivo. veja >>  http://www.youtube.com/watch?v=WXFvrzYibv4

Dedico a parte final dessa breve nota sobre a atualidade politica italiana explicando uma nova representação no cenário politico italiano, talvez mundial, correndo por fora estão os candidatos do M5S "Movimento 5 Estrelas" uma verdadeira revelação nessa campanha, com números crescentes nas pesquisas eleitorais nas quais aparecem como a terceira força politica, os mais otimistas dentro do movimento se declaram a primeira força, é realmente difícil negar ao olhar as praças cheias num período onde a politica nunca esteve tão em baixa, e também, pelos crescentes ataques que sofrem de seus adversários que a cada dia veem seus números nas pesquisas (sérias) abaixarem na mesma proporção em que os índices do M5S aumenta.

Tudo inicia no 2005 con a fundaçao do blog de Beppe Grillo e em 2009 nasce o movimento 5 stelle, seu mentor é o cômico genovês Beppe Grillo, nesses oito anos o movimento tomou uma proporção nacional graças à retorica anti-politica e ao uso intensivo da internet, o método de markenting é o tradicional boca-a-boca e o carisma do cômico fazem a mistura explosiva que nas ultimas eleições locais de 2012 a que participaram mostrou uma enorme aceitação em todas as faixas de eleitores, o M5S é um verdadeiro fenômeno de massa. veja >> www.youtube.com/watch?v=EzM62ANxCzc

Para os críticos e detratores tudo não passa de voto de protesto, para os "grilinhos" como são chamados pela imprensa a alta aceitação é fruto de uma tomada de consciência coletiva, a massa critica atingiu um tal ponto que pode-se anunciar uma verdadeira revolução que terá repercussão europeia, os "cidadãos 5 estrelas" como preferem serem chamados desvincilhando-se do peso de seu mentor são pessoas comuns e os candidatos são operários, estudantes, cientistas, ou qualquer integrante da sociedade civil que pode-se encontrar pela rua, num restaurante ou num supermercado, os requisitos para se tornar candidato do M5S são rígidos, por exemplo, nenhum vinculo com partidos políticos, ficha limpa, e sobretudo boas idéias, o programa de governo é muito sintético e se resume em 20 pontos:

1- Renda de Cidadania (programa social para desempregados)
2- Medidas imediatas para o renascimento de pequenas e médias empresas
3- lei anti-corrupção
4- Informatização e simplificação do Estado
5- Eliminação de financiamento público dos partidos políticos
6- Estabelecimento de uma "policotometro" para verificar o enriquecimento ilícito de políticos nos últimos 20 anos
7- Propostas de referendo e sem a necessidade quórum minimo
8- Referendo sobre a permanência no euro
9- Obrigação de discussão das leis de iniciativa popular sem voto secreto no Parlamento
10- Apenas um canal de televisão estatal sem publicidade e sem interferência dos partidos (atualmente a RAI tem 14- canais e os dirigentes são nomeados pelos partidos e além dos ganhos com publicidade existe um imposto anual de cerca de 200 reais)
11- Mudança na lei eleitoral para a eleição direta dos parlamentares na Câmara e no Senado (hoje se vota nas legendas)
12- Máximo de dois mandatos eletivos
13- Lei sobre Conflito de Interesses
14- Restauração de fundos cortados para a Saúde e Escola Pública (Planos de austeridade de Berlusconi e Monti)
15- Abolição de financiamento publico direto e indireto aos jornais e editoras
16- Acesso gratuito à internet para a cidadania
17- Abolição da IMU sobre a primeira casa (Imposto sobre imóveis, muitos italianos possuem mais que uma, mas o imposto golpeava mesmo quem tem apenas uma)
18- Não penhoramento da primeira casa
19- Eliminação das províncias (Na Itália a divisão territorial é Regional, Provincial e Municipal, as províncias são ditas inúteis poços sem fundo para os cofres públicos)
20- Abolição da "Equitalia" (Agencia de recuperação de crédito e cobrança do fisco italiano)

Aos 20 pontos pode-se somar a redução das despesas militares, a Itália quer compra cerca de 100 caças de quinta geração F35 de fabricação estadunidense, outro ponto é o investimento massivo em energia solar e eólica e fechamento de industrias poluidoras e centrais de incineração de lixos em áreas urbanas e agrarias, e o corte nos gastos de grandes obras como o túnel ferroviário para a alta-velocidade que ligará Itália à França passando por de baixo das montanhas, e a ponte sobre o estreito de Messina que ligaria a ilha de Sicília ao resto do pais, um braço de mar de 3 Km que no inicio da campanha eleitoral Beppe grillo atravessou a nado do alto dos seus 65 anos e disse ter chegado com 20 minutos de antecedência em relação ao navio que faz a ligação da ilha à Calábria bem na ponta da bota.

As propostas assustam a classe politica e deixa apreensiva a classe empresarial, mas o consenso em torno do movimento é em crescimento constante em todas as camadas sociais, mérito também dos discursos bem diretos de Beppe Grillo que não economiza palavras, nem palavrões para denunciar a classe politica e os desperdícios públicos, as primeiras passeatas do movimento tinham títulos bem emblemáticos que demonstrava o humor e a indignação do M5S como o "Vafanculo Day" traduzindo "Vai Tomar no C. Day" que em português poderia soar demasiado vulgar mas é um modo italiano de dizer "chega!".

Recusando a receber dinheiro publico para a campanha eleitoral o M5S se financia com doações livres dos simpatizantes, e a fama de Beppe Grillo e o seu modo de fazer humor fazem o resto, durante muitos anos ele fez programas de televisão e apresentações e teatros e ginásios e ganhou bastante dinheiro com isso, ele não é um novato na politica ao menos como entendida pelo M5S, suas apresentações apesar de humorísticas tratavam temas econômicos, políticos e sociais sua sátira sempre foi contundente e com ela desmitificava políticos e grandes empresários, denunciava falcatruas e falta de racionalidade do "sistema, por essas e outras respondeu a mais de 80 processos.

Para muitos o M5S representa o fim da politica, para outros é apenas o fim dos politiqueiros, os adversários estão arrepiados com a idéia do parlamento seja dominado por pessoas comuns que já reduziram seus próprios salários em 80% nos cargos públicos que já conquistaram, o principal deles a cidade de Parma sede da nota empresa Parmalat onde o atual Sindico, como são chamados os administradores das cidades, Federico Pizzarotti eleito nas eleições locais de 2012 promoveu uma verdadeira revolução nos gastos, a passada administração foi condenada a repor dinheiros 3 milhões de euros ou seja quase 8 milhões de reais aos cofres públicos, isso em menos de um ano de governo.

Na reta final da campanha o "TsunamiTour" como M5S chama a maratona eleitoral que "beppe" está fazendo pela Itália dentro de uma "Van Camping" pra fazer comicios e apresentar os candidatos do movimento, a etapa final será em Roma no dia 22 de fevereiro para o fechamento da campanha depois de, apesar do boicote da grande mídia, ter lotado as praças em todas as cidades por onde passou, mas a internet e o boca-a-boca está expondo à indecência midiática e forçando-os a falarem do movimento não apenas quando criticam o modo agressivo com que de Grillo faz politica.

Agora quando no fim do mês de fevereiro de 2013 você ouvir no noticiário sobre um grande tsunami que varreu a Itália de ponta a ponta você saberá que não se trata de nenhuma tragédia de grande proporções, mas é apenas a onda anômala do "Movimento 5 estrelas" que levou embora uma inteira classe politica.