SOMIR

Carnaval. Aposto que tanto eu quanto Sally vamos acabar falando mais de Carnaval do que Natal, e não à toa: Apesar dos pesares, Natal ainda é uma data meia-bomba em comparação com o desfile de desfavores típicos da maior festa tupiniquim. A ideia do Natal está tão deslocada dos costumes habituais do povão hipócrita que acaba sendo mesmo só uma desculpa para comprar coisas e encher a barriga.

Agora, o Carnaval? O Carnaval acaba vivenciado em sua plenitude, tanto para as pessoas que querem fazer merda sob a ilusão da falta de consequências quanto para os pobres coitados que não veem tanta graça em ter ?hora marcada? para irresponsabilidade e estupidez em geral. O Carnaval contagia mais as pessoas, vai para as ruas, muitas vezes até bate na porta da sua casa.

Natal é quase que uma penitência para muita gente: Visitar família, bater perna em shopping lotado, acumular calorias desnecessárias? O que poderia parecer argumento contrário ao meu ponto aqui na verdade não o é: Natal fica mais isolado em ?templos religiosos/comerciais? e dentro das casas das pessoas.

Carnaval é encheção de saco delivery. É essa babaquice de obrigação social de se divertir empurrada para cima de todo mundo. Sai na rua, uma merda, fica em casa, a mídia faz questão de não te deixar perder um detalhe sequer. E se vacilar, ainda passa bloco na sua rua ou aquele vizinho pobre (até em condomínio fechado tem esse tipo de pobre) que faz questão de dividir seu terrível gosto musical com quem quer que tenha ouvidos funcionais nas imediações.

E estamos só começando o capítulo do estupro sensorial: Todos os seres bizarros da música popularesca que ficam debaixo de alguma tampa de esgoto durante o ano subitamente tomam as ruas. Todo mundo acaba escutando alguma dessas músicas repetitivas cujas letras só podem ter saído da mente de um adolescente excitado que acaba de descobrir o que é uma metáfora ou alegoria. Se alguém falasse a letra de uma dessas músicas carnavalescas para você em qualquer outra ocasião, seria motivo justificável para acertá-lo com uma arma não letal. (As letais guardamos para quem faz música gospel, ok?).

Sem contar que tirando a forma como quem as escreveu conseguiu falar sobre o ato sexual com outras palavras, posso jurar que todas tem a MESMA melodia. Só estando MUITO bêbado para aguentar essa repetição abusiva. Mas não é apenas a audição que sai prejudicada: Se no Natal temos basicamente vermelho, branco e verde nas decorações, o país parece o resultado de um palhaço estuprando um pavão dentro de um liquidificador nessa época! Tudo relativo ao carnaval é um abuso de mistura de cores, brilhos e tudo mais que seria considerado brega demais até para um travesti cantando numa boate de beira de estrada! Sério, a falta de noção do país deve ser visível do espaço!

E não vamos esquecer do olfato e do paladar. Como a comida típica da época na verdade é qualquer bebida alcoólica que se encontre pela frente, as cidades vão se tornando latrinas a céu aberto. Sem contar que praticamente todos os desodorantes do país parecem vencer um dia antes do feriado! O povo enche os cornos no Natal, mas se você for esperto e evitar andar na rua perto da virada, grandes chances de evitar a maior parte da massa inebriada.

Carnaval também é a época do foda-se, inclusive para os ?civis? pegos no meio do conflito. As pessoas acham que ganharam carta branca para fazer merda e que nada pode dar errado. Morre gente a rodo nas estradas, doenças passam para todos os lados, crianças com muita chance de darem certo na vida aparecem por volta de Novembro? A mensagem do Carnaval é ?seja burro, doa a quem doer?, a mensagem do Natal é um mero ?seja falso e consuma?. Nenhuma das duas é boa, mas sinto-me mais seguro com a segunda?

E além disso, Natal não queima filme de uma nação inteira. Vê se você vai para outro país e um gringo solta um ?Ho Ho Ho? segundos depois de te conhecer? Carnaval mantém a imagem de república das bananas intacta, ano após ano. Não só pela endêmica breguice, mas pelo processo escroto no qual se baseia.

Dinheiro público é gasto aos rodos para gerar estrutura para escolas de samba gerenciadas pelo crime organizado, para permitir que ?artistas? (e bota aspas nisso) cobrem os tubos para animar a ?massa falida? nas ruas? Vai dizer que é essa farra no Natal? Perto da grande festa nacional onde os ricos pagam para ganhar destaque na festa que deveria ser dos pobres, onde o grande trabalho do povo é se matar para fazer fantasias e limpar a sujeira depois? O Natal é santo.

Mesmo sendo fã de ?bundalização?, ainda sim é um desfavor a forma como esses dias de liberação geral são um mecanismo de manutenção da hipocrisia gerada pela relação doentia que as religiões mais populares do país tem com tudo relacionado a sexo. Peito de fora no Carnaval é cultura, peito de fora na novela é falta de respeito? Ah, vão à merda. Quando as regras de conduta social não fazem sentido, quase sempre são ferramenta de controle. ?Mantém essa culpa aí por algo tão banal quanto sexo que fica mais fácil te vender a salvação!?

E por último, o Carnaval já é um escracho por natureza. Não dá para subverter ou brincar com ele de verdade. Sacanear o Natal é bem mais efetivo, choca mais e passa mais mensagens. Bater no Carnaval é mijar num oceano de mijo, se me permitem a analogia justo nessa época onde o cheiro paira no ar.

Bônus: O João Kléber não voltou no Natal?


Para dizer que eu só digo isso porque não sei me divertir, para reclamar que opinião de nerd vale ainda menos no Carnaval, ou mesmo para dizer que vai difícil discordar depois de ler o bônus:  somir@desfavor.com

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SALLY

O que é pior, Natal ou Carnaval?

Não custa frisar que achamos ambos uma merda e que defender que um seja pior que o outro não quer dizer que achemos algum deles de alguma forma bons. Os dois são um saco, uma merda, mas? qual é PIOR?

Eu acho Natal pior. Eu prefiro putaria desenfreada, bebedeira e baixaria do que a maldita hipocrisia natalina. Nada é pior do que aquela obrigação de socializar, confraternizar e pior ainda, de perdoar.

Carnaval as pessoas ficam loucas, entram no cio, fazem merda, se entorpecem, surtam e o país vira uma grande suruba autorizada. É nojento ver a gentalha se esfregando, sobretudo com o calor escaldante, mas ao menos ninguém fica te pressionando para participar daquilo, até porque as pessoas estão muito entretidas fazendo sexo irresponsável para pensar em você. Já no Natal, as pessoas parecem ter um prazer imenso em te paunocuzar, em te encher de ?mensagens de luz?, em te dizer como você deve levar a sua vida, em te forçar a ver ou falar com pessoas que não te interessam. Todos te observam e te sufocam no Natal e se você não participa e não entra no clima é um escroto, antipático e azedo.

Carnaval é sobre baixaria, Natal é sobre hipocrisia. Natal é uma data deprimente na qual você tem a obrigação social de estar em família, de gostar de gente e de sorrir e ser grato para um ser imaginário. No Natal você tem que abraçar todo mundo, se mostrar receptivo e participar de todo tipo de confraternização, muitas vezes com pessoas que não suporta. Natal é coletivo, é afeto, é social. Carnaval é individual, é putaria, é farra. Prefiro o esquema ?cada um por si? do carnaval, porque ninguém te cobra nada, você pode ficar trancado sozinho, se for o caso, que ninguém te pressiona.

Outro ponto relevante: no Natal existe a obrigação social de presentear, ou seja, além de ser uma data extremante pau no cu, ainda nos obriga a gastar dinheiro ou então suportar aquela sensação de débito ao receber um presente e não dar nada em troca. Além disso o ritual de Natal é tão impositivo que você praticamente não consegue fazer um programa alternativo, pois tudo está fechado e todos estão neste maldito ritual. No carnaval até é possível ir a um cinema ou qualquer outro lazer e quem sabe até encontrar uma que outra pessoa disponível que também não entre no clima desse feriado.

Natal é um feriado moralista, uma coisa cheia de culpa de homenagear um Fulano que nasceu de uma mãe virgem e morreu crucificado. Está mais carregado de significado religioso e sofrimento. Carnaval é mais mundano, mais libertino. Certamente ninguém lembra muito dos ensinamentos religiosos no carnaval, muito pelo contrário, é uma data destinada ao pecado, o que faz dela algo um pouco mais interessante. E carnaval você não é obrigado a olhar para sua sogra, nem para sua família.

No meu caso específico, entenda-se, para ateus, acho o Natal muito mais intratável. No Natal quem é ateu sofre um desrespeito ainda maior. As pessoas parecem não se conformar que alguém não comemore Natal e o viva como um dia qualquer. As pessoas ficam te aliciando para ir na casa delas encarar aquele jantar pau no cu como se estivessem te resgatando ou te fazendo um favor e quando você diz ?Não, obrigada, não gosto do ritual? ficam sentidas. No Carnaval ninguém se ofende se você não fizer putaria. Aliás, no Carnaval ninguém nem lembra de você, as pessoas estão muito ocupadas pecando sem culpa, afinal, é só uma vez por ano que podem fazer isso sem culpa.

No Natal o comércio se transforma: tudo fica lotado, tudo fica com música natalina ao fundo, tudo tem fila. No Carnaval, muito pelo contrário. O comércio tende a ficar vazio, ao menos parte dele. Sentar em um café e ler um livro durante o carnaval é uma delícia. Não tem gente, não tem criança, não tem Simone ao fundo cantando músicas de uma religião que desaprova sua orientação sexual e diz que pessoas como ela vão para o inferno. Há fuga possível do Carnaval, coisa muito mais difícil de conseguir no Natal. Ah sim, os rituais de Carnaval geralmente não incluem crianças!

O Carnaval tem vários rituais que o representam: tem que assista desfile de escola de samba em camarote, tem quem vá a bloco de rua, tem quem compre abadá e muitos outros. Não que algum deles seja efetivamente um bom programa, mas quando temos opções, as chances de encontrar algo menos terrível são maiores. Natal não tem opção. É jantar pau no cu e almoço pau no cu, quase sempre com as mesmas comidas e as mesmas pessoas e quase sempre muitas delas não se gostam e falam mal umas das outras durante o ano todo.

O índice de suicídios é maior no Natal, ou seja, mesmo para quem compactua com religião ou rituais, é uma data incômoda de alguma forma. No Carnaval as pessoas não se suicidam (apenas matam umas às outras de montão). No Natal o foco está em um fulano pelado estaqueado em uma cruz e no carnaval o foco está em bundas e peitos de fora. No Carnaval são vários dias de feriado, no Natal é um dia só. Não é possível que alguém ainda prefira Natal depois de tudo isso!

Para avaliar o que me incomoda mais eu penso não apenas no incômodo que aquela situação causa como também na sua ?evitabilidade?. Se você não quer viver o Carnaval, você tem essa opção. Cansei de ir ao cinema, ir jantar fora, ir ao teatro ou ir a um café. Infelizmente você não tem o direito de fazer isso no dia 25 de dezembro pois ou está tudo fechado ou está tudo destinado a comemoração natalina. Onde quer que você olhe tem um Papai Noel horrendo de camelô pendurado. O Natal te persegue, não tem como escapar dele.

Pior: se você tem dinheiro, pode viajar para uma país civilizado no Carnaval (se o país for civilizado, lá não haverá Carnaval). O mesmo não se pode dizer do Natal, já que a maior parte dos países comemora o Natal ou genéricos do tipo com presentes no final do ano. Não adianta ir para a Europa ou para os EUA, o maldito Natal estará lá também. Acho que até em Ibiza, capital mundial das drogas, promiscuidade e putaria, deve ter Go Go Boy usando chapeuzinho de Papai Noel.

Carnaval é um saco, mas Natal é um saco moralista, inescapável e muito mais religioso.


Para tentar disfarçar que lá no fundo você gosta do Natal, para tentar disfarçar que lá no fundo você gosta da putaria do Carnaval ou ainda para dizer que pior mesmo é ano novo:  sally@desfavor.com