Não foi surpresa a renúncia de Bento XVI. Além do pragmatismo alemão, ele é um intelectual. Como bem assinalou Leonardo Boff em uma entrevista de hoje; para Bento XVI o papado era um "serviço". Quando sentisse não ter condições de fazê-lo, renunciaria ao trono.

A Igreja Católica, e nela, o Conclave dos Cardeias, é a instituição mais fechada do mundo. Perto dela, uma reunião deliberativa do Politburo do PCUS seria uma plenária ao ar livre. No entanto, é possível prever o futuro da IC pós-Bento XVI ao analisar alguns fatos.

Como escreví antes, Ratzinger é pragmático. Nunca daria este passo caso não tivesse certeza dos rumos do conclave. Ele tentou voltar a IC para a Europa, abastada e secularizada.

No entanto, durante o seu papado, o neoliberalismo empobreceu a Europa. O processo de pauperização dos europeus está longe de terminar, e seu final é imprevisível. Certamente, Ratzinger tem medo de que os europeus voltem a ver no socialismo a solução para os seus problemas.


No seu papado, Ratzinger aumentou a influência européia no colégio de cardeais, consoante com o seu eurocentrismo. Muito provavelmente, um europeu que siga a mesma linha de seu papado será o novo pontífice.

Certamente, Ratzinger vê na crise européia uma oportunidade para que a fé volte a ser uma alternativa para os europeus que vêem seu Welfare State desabar sob o neoliberalismo.

No entanto, a fé sem uma doutrina social será inócua para as aspirações dos escolarizados europeus.

Ratzinger, nos anos 80, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, reprimiu fortemente a Teologia da Libertação na América Latina, e impediu a sua expansão para a Europa.

Por ironia da história, um Papa com simpatia pela Teologia da Libertação seria o ideal para o atual momento da IC e, principalmente, para a conjuntura européia atual.