O Carnaval é tão antigo quanto o Brasil. E como o nosso país também passou por modificações  http://pt.wikipedia.org/wiki/Carnaval_do_Brasil.

Dentre as mudanças mais dramáticas que o Carnaval sofreu, podemos citar a transformação da festa popular num show midiático televisivo tipo exportação. Este fenômeno, que ajuda a alavancar o turismo especialmente no Rio de Janeiro e em Salvador (em menor escala nas outras capitais brasileiras), acarretou a industrialização da festa e a profissionalização de muitas das pessoas que fazem o espetáculo ocorrer e ser transmitido em tempo real.

A esmagadora maioria dos brasileiros já não participa mais diretamente do Carnaval. Apenas o assiste nos sambódromos ou pela televisão. Esta separação entre quem participa presencialmente da festa e quem apenas a vê direta ou indiretamente, demonstra o grau avançado de sua espetacularização.

A industrialização, profissionalização e espetacularização do Carnaval brasileiro se ajusta perfeitamente às definições de Guy Debord:

"3- O espetáculo apresenta-se ao mesmo tempo como a própria sociedade, como uma parte da sociedade e como instrumento de unificação. como parte da sociedade, ele é expressamente o setor que concentra todo olhar e toda consciência. Pelo fato de esse setor estar separado, ele é o lugar do olhar iludido e da falsa consciência; a unificação que realiza é tão-somente a linguagem oficial da separação generalizada.

4- O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens." (A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO, Comentário sobre a sociedade do espetáculo, Contraponto, 10ª edição, 2008).

Fenômeno recorrente é o inflacionamento da festa. Este anos as fantasias dos destaques nas escolas de samba custaram entre 30 mil e 100 mil reais ( http://carnaval.ig.com.br/rio/2013-02-13/musas-investem-ate-r-100-mil-para-brilhar-no-carnaval-de-olho-no-futuro.html). Num país onde a maioria das pessoas ganha 1,34 mil reais por mês ( http://noticias.r7.com/economia/noticias/renda-media-do-brasileiro-sobe-e-atinge-r-1-345-mas-pobres-ganham-apenas-r-186-ao-mes-20120921.html?question=0), participar presencialmente do Carnaval tornou-se uma impossibilidade econômica.

Já podemos dizer que no Brasil existem dois Carnavais. Há aquele que os populares fazem nas ruas e nos salões, com baixo custo (festa genuinamente popular, que raramente interessa aos meios de comunicação). E há o carnaval espetacularizado, de algo custo, restrito a uma elite que pode pagar para protagonizar o show televisivo.

É claro que nem todos os membros das escolas de samba pagam tão caro pelas fantasias. Mas estas pessoas não são os protagonistas da festa nos sambódromos. Por força do preconceito, do hábito ou de preferências contratuais, as imagens quase sempre se fecham sobre os destaques (muitos dos quais já frequentam diariamente a mídia televisada), restando aos populares que compõe as alas uma participação despersonalizada. As alas geralmente são mostradas à distância, de cima, como se fosse um rio de cores do qual são destacados apenas os corpos mais belos e fantasiados a peso de ouro.

A platéia presencial vibra, mas sua vibração só tem uma finalidade: realçar a natureza espetacular do show, que será transmitido para o mundo inteiro com lucro pelas redes de TV. Os direitos de imagem, que certamente são pagos para os destaques (e ajudam a custear as fantasias caríssimas que eles usam) são sonegados aos populares eventualmente captados pelas câmeras na pista do sambódromo ou nas arquibancadas.

Se as redes de TV tivesse que pagar os direitos de imagem para cada rosto exibido durante o show, o Carnaval espetacularizado teria que ser cancelado. Os desfiles das escolas de samba certamente seriam ignorados pelas empresas de comunicação, pois dariam mais prejuízos que lucros.

Neste caso, portanto, "a relação social entre pessoas, mediada pela imagem" a que se refere Guy Debord só é possível por causa da exclusão. A inclusão dos populares no show depende fundamentalmente da exclusão do pagamento de seus direitos de imagem.

Capitalismo para alguns (os que recebem direitos de imagem e os que exploram as imagens de muitos sem pagamento) e a ilusão do espetáculo para muitos (aqueles que fornecem seus corpos e imagens para a TV sem receber um centavo sequer). Nas ruas e salões despidos de câmeras, onde os populares celebram o Carnaval de baixo custo longe da mídia, não existe esta dicotomia.