Conclave é nome da reunião realizada para eleger um novo Papa. Seu nome vem do latim (cum clave) e significa ?com chave?, uma vez que a reunião e a votação não são abertas ao público, são realizadas de portas fechadas. A palavra é um substantivo feminino, A Conclave, A reunião.

A Conclave é um ritual muito tradicional e se mantem mais ou menos inalterada nos últimos séculos. Antes do ritual como se conhece hoje, era tudo muito desorganizado e isso acabava gerando sérias dificuldades quando era necessário eleger um novo Papa. A Conclave nos moldes em que se conhece hoje começou quando foi necessário determinar um sucessor para o Papa Clemente IV, em 1274 e a ineficiência do processo seletivo fez com que esta escolha dure mais de um ano. O autor do termo ?Conclave? foi o Papa Gregório X, que tentou vislumbrar uma forma de otimizar o processo criando regras que organizassem a votação.

Normalmente a Conclave se dá após o falecimento de um Papa. Os casos de renúncia são raros, o último Papa a renunciar antes de Bento XVI foi Gregório XII, em 1415. A norma manda que após a vacância do cargo, seja por falecimento, seja por renúncia, todos os cardeais do mundo (papo técnico: Colégio Cardinalício) com menos de oitenta anos sejam convocados para ir ao Vaticano votar. Atualmente o Colégio Cardinalício é composto por 209 cardeais em todo o mundo, mas destes apenas os que tem menos de oitenta anos poderão votar, o que corresponderia a pouco menos de 120 cardeais. O resto fica na situação peculiar de não poder votar mas de poder ser eleito Papa. Sensacional: não tem sanidade mental para votar, não tem saúde para se deslocar e votar mas tem condições de conduzir a Igreja.

A partir do momento que o Papa apresentar sua renúncia formal (ou morrer), o cargo fica vago. Até segunda ordem, Bentão vai apresentar sua renúncia formas em 28 de fevereiro. Quem fica provisoriamente cuidando das responsabilidades que seriam do Papa é o Cardeal Decano (ou Camerlengo), cargo para o qual também há eleição e é uma espécie de capitão de time de futebol, enquanto o Papa seria o técnico. Atualmente quem ocupa o posto é o italiano Angelo Sodano. Cabe a ele convocar a Conclave e zelar pelas obrigações que seriam do Papa enquanto o novo não for eleito. Parece pouco hoje, mas em tempos onde a Conclave era levada a sério e feita como manda o figurino, ela poderia ser bem demorada e o Camerlengo ficava bastante tempo ?no poder?. Por exemplo, a Conclave que elegeu o Papa Celestino V (1292) durou nada mais nada menos do que 27 meses.

A Conclave começa entre 15 a 20 dias (papo técnico:? novemdiales?) depois da vacância do cargo de Papa. Essa norma surgiu séculos atrás e se justifica porque não havia a facilidade de locomoção que temos hoje, logo, cardeais que estivessem longe de Roma precisariam de muitos dias até chegar lá. Daí você deve estar se perguntando porque esta regra é mantida até os dias de hoje se em poucas horas se vai de um país a outro. Simples: eles aproveitam essa margem de dias para fazer pequenas reuniões entre eles e conspirar, fechar alianças, fazer jogo político. Sujo, tudo é muito sujo, já que existe regra específica que os impede de combinar votos, favorecer, boicotar ou fazer qualquer forma de política. Deveriam votar de forma individual de acordo com suas consciências. Bento XVI renunciará dia 28 de fevereiro e a Conclave foi marcada para 15 de março. Dá tempo de sobra para fazer política e combinar votos, não?

Terminado esse prazo conspiratório que oscila entre 15 e 20 dias, todos os cardeais do mundo com menos de oitenta anos devem comparecer ao Vaticano. O procedimento se inicia com a reunião destes cardeais em dia e hora marcados na Basílica de São Pedro (papo não-técnico: mega-igreja localizada logo na entrada do Vaticano) para a celebração de uma missa que será a abertura do procedimento (papo técnico: missa Pro Eligendo Papa). Ao chegar recebem um livro contendo parte da vida e obra de cada um dos cardeais elegíveis. Os cardeais não precisam se candidatar, se tem menos de oitenta anos, podem ser votados, queiram eles ou não.

Finalizada esta missa, todos os cardeais se dirigem à Capela Sistina*, (existe uma ligação interna entre a Basílica de São Pedro e a Capela Sistina), onde efetivamente começam as votações. Eles entram recitando letanias (uma espécie de oração) e depois todos cantam o ?Veni Creator Spiritus?, uma música que acreditam invocar a ajuda do Espírito Santo. Depois disso há um juramento onde todos se comprometem a manter segredo sobre tudo que acontecer na Conclave. Daí para frente, o cardeal encarregado de dirigir todo o ritual (papo técnico: Camerlengo) pronuncia uma frase em latim, ?Extra Omnes?, que é a deixa para que todos que não são cardeais votantes saiam da Capela Sistina e sejam iniciadas as votações. Até 1509 o povo também votava, mas prontamente perceberam que essa história de povo votar não dava certo e o Papa Nicolas II acabou com essa gracinha, determinando que apenas os cardeais votem.

Repare que eu usei um termo no plural: VOTAÇÕES. Não se escolhe um novo Papa com uma única votação. O procedimento começa da seguinte forma: sorteio de três cardeais que serão responsáveis pela apuração dos votos (papo técnico: cardeais escrutinadores) e três cardeais que recolherão os votos de quem estiver adoentado, impossibilitado de estar ali (papo técnico: cardeais infirmarii). Estes cardeais doentes ou com saúde debilitada serão alojados em aposentos do Vaticano, mais precisamente na Casa de Santa Marta. Sorteiam-se também três cardeais revisores, que fiscalizarão os trabalhos dos cardeais escrutinadores. Tudo isso na prática é palhaçada, neguinho entra lá com tudo combinado, ninguém tem paciência para ficar votando por meses a fio.

Depois destas formalidades, começam as votações. Os cardeais sentam em duas grandes mesas com lugares marcados. O voto é secreto e escrito. Cada cardeal escreve seu voto em um pedaço de papel que recebe onde consta escrito ?Eligo in summum pontificem? (?elejo como Sumo Pontífice?) e um espaço em branco para escrever o nome. A recomendação é para que se escreva o nome de forma clara, em letras maiúsculas e com letra de forma, para que não seja identificável. Cada cardeal vota em quem quer eleger como novo Papa e coloca a cédula em um cálice. Não ao mesmo tempo, um a um, respeitando uma ordem cronológica. Votam primeiro os cardeais mais idosos e a votação segue por ordem decrescente de idade. Do cálice as cédulas são levadas a uma urna e depois que todos votam são apuradas.

Quando todos os presentes e ausentes adoentados acomodados no Vaticano tiverem votado, os cardeais escrutinadores abrem as cédulas e vão lendo em voz alta um a um os votos e anotando para contabilizar. Os três cardeais escrutinadores fazem o mesmo: ler o voto em voz alta e anotá-lo, procedendo a contagem, quero dizer, o mesmo voto passa pelos três. Depois de feita a contabilidade, os três cardeais revisores conferem, também um a um, os votos e a contagem realizada. Ou seja, cada voto e a contagem é vista por seis pessoas em separado, para tentar evitar que ocorra qualquer erro.

Vencerá o cardeal que conseguir dois terços mais um voto, ou seja, mais de dois terços dos votos. Como são muitos nomes (na próxima Conclave serão quase 120), é praticamente impossível que alguém consiga de primeira dois terços dos votos (se nada for combinado). Não obtendo esta quantia, os papéis são queimados usando um produto químico que gera uma fumaça negra. Esta fumaça negra é vista de fora, pela chaminé do Vaticano e por ela o povo sabe que ainda não foi eleito um novo Papa. Depois disso é realizada nova votação.

Fico me perguntando para que? A pessoa já não escolheu sua indicação? Vai votar novamente para que? O fato é que fazem quantas votações sejam necessárias até que alguém consiga mais de dois terços dos votos, obrigando que todos revejam seus votos e se sintam inclinados a votar com a maioria. Tecnicamente não faz sentido, mas a explicação para este sistema de votação não é a lógica: eles dizem que depois de muito orar Deus vai iluminar a cabeça dos cardeais e fazer prevalecer Sua vontade. Não me admira que gastem 20 dias para se reunir e conspirar, sem combinar voto é quase impossível chegar aos dois terços exigidos e ninguém sai de lá enquanto não se eleger um novo Papa. E enquanto não acaba a votação ficam todos incomunicáveis com o mundo exterior por qualquer meio que seja.

Quando finalmente se alcança a quantidade de votos exigida, os papéis com os votos também são queimados, mas desta vez com um produto químico que gera uma fumaça branca. Assim, o mundo fica sabendo que já há um novo Papa. Porém isso não é uma tarefa simples, mesmo quando se combinam votos abertamente como ocorre nos dias de hoje?

Inicialmente eles ficam lá votando até que alguém obtenha mais de dois terços dos votos. Se após três dias não se chegar a um resultado, as votações são suspensas e é feito um dia de orações e reflexões, pedindo a Deus que os oriente com sabedoria (papo realista: conspiram mais, pedem votos, oferecem trocas de favores, fazem política). Após um dia de ?orações? a votação é retomada e mais sete tentativas são realizadas. Se nessas sete tentativas que se seguem ninguém obtiver mais de dois terços dos votos, as votações são suspensas novamente com mais um dia de intervalo para orar e refletir (fazer política) e se seguirão mais sete votações.

Havia uma determinação bastante racional para que esse procedimento não se arraste por tempo demais: Caso a coisa se prolongue e se ultrapasse a marca de trinta votações sem resultado, a exigência diminuiria e seria eleito Papa aquele que conseguir maioria simples, ou seja, metade dos votos mais um. Eu disse HAVIA, porque Bento XVI fez o desfavor de acabar com isso, determinando que não importa o que aconteça, o Papa deverá ser eleito com mais de dois terços dos votos, se fodam aí para chegar a um consenso mesmo sem poder conversar e trocar opiniões. Até hoje não foi realizada uma Conclave com esta nova regra, e há grandes preocupações com ela. Neguinho vai combinar mais voto do que participante do Big Brother, especialistas estimas que a votação não passe de dois ou três dias.

SE a votação fosse realizada como tem que ser, sem que os cardeais troquem favores, façam política ou combinem votos, ela duraria meses. Mas não é isso que acontece. Ninguém quer ficar meses trancado votando, eles já chegam com votos mais ou menos combinados e o grupo mais forte elege alguém de seu interesse. Para vocês terem uma ideia, a Conclave que elegeu Bentão durou apenas dois dias. Assim, quando finalmente se chega a um nome forte o bastante para ter mais de dois terços dos votos, são encerradas as votações e os votos queimados com aquele produto químico já citado que gera uma fumaça branca, para cientificar o mundo que há um novo Papa. Reparem no corre-corre da imprensa quando começa a sair fumaça branca?

O Cardeal Diácono chama o cardeal eleito e lhe pergunta se ele aceita sua escolha para ser o novo Papa. Não há relatos de algum espírito de porco que tenha dito que não, muito obrigado. Parece que a pergunta é mera formalidade. Após a resposta afirmativa, pergunta como deseja ser chamado (*pensando em uma infinidade de nomes trolls que eu usaria). Esta mudança de nome seria um espécie de ?tradição? que teria sido iniciada por Jesus Cristo, quando mudou o nome de um pescador chamado Simão que também era um de seus apóstolos, ao elegê-lo como seu representante na Terra. Simão virou Pedro e desde então quem recebe essa ?responsabilidade? de representar a igreja ganha um novo nome. O novo Papa tem liberdade para escolher um nome que o agrade, o nome não é imposto. Depois que o Papa eleito anuncia o nome que pretende usar, se encerra oficialmente o ritual de votação e todos os cardeais, um por um, beijam o pé direito do novo Papa.

O Camerlengo vai até a Basílica de São Pedro e diz um bando de coisas em latim, onde a mais importante é a frase ?Habemus Papam? (temos um Papa) ao público. Depois o novo Papa aparece e pratica seu primeiro ato público como Papa, a Bênção Urbi et Orbi, ato de benzer a todos, desde a cidade de Roma até o mundo.

Você deve estar pedindo spoilers e querendo saber quem leva. Meu contatos são bons mas nem tanto, não tenho contatos no Vaticano. Usemos o bom senso então: dos votantes, sessenta e um são europeus (sendo 21 italianos) dezenove são latino-americanos (cinco deles brasileiros), quatorze são norte-americanos, onze são africanos, outros onze, asiáticos e um cardeal é da Oceania. O Brasil tem um total de nove cardeais no Colégio Cardinalítico do Vaticano, mas destes apenas cinco tem menos de 80 anos e estão aptos a votar: dom Cláudio Hummes, dom Geraldo Majella Agnelo, dom Odilo Scherer, dom Raymundo Damasceno Assis, e João Braz de Aviz, de 64, ex-arcebispo de Brasília. As chances de que seja eleito um Papa europeu são enormes e se eu tivesse que apostar, apostaria em um italiano, apesar de que, adoraria ver um Papa brasileiro, fodendo de vez com a Igreja Católica com sua esculhambação tupiniquim.

Entre os brasileiros, os favoritos são Odilo Scherer e João Braz de Aviz. Entre o pessoal da América do Norte a grande aposta é Marc Ouellet, do Canadá ou Timothy Dolan dos EUA. Na África o favorito seria Peter Turkson, de Gana. Dentre os europeus, destaque para Leonardo Sandri da Itália e Christoph Shoenborn de Viena. Mas, apesar de tudo, há quem diga que este é o tipo de Conclave onde ?tudo pode acontecer?. Se eu tivesse que apostar em alguém, apostaria em um italiano, talvez em Leonardo Sandri mesmo. Vamos ver quem dá mais? com trocadilho, por favor.


Para dizer que o texto teria ficado mais animado se tivesse sido escrito no formato ?Processa Eu?, para orar pedindo que Gezuiz Godzila sapateie na cabeça de todos eles quando estiverem reunidos ou ainda para fazer bolão apostando na nacionalidade do cardeal que será o próximo Papa:  sally@desfavor.com

* Vide  http://www.desfavor.com/blog/2012/08/desfavor-explica-capela-sistina/