Numa semana de Carnaval e Renúncia Papal, uma política internacional não vai mal? Pior que essa frase, só mesmo a relação entre Washington e Pyongyang. Desfavor da semana.

SALLY

País pequeno protegido por país grande. País pequeno utilizado como testa de ferro para cutucar outros países pelo país grande. País pequeno com líder sem o menor medo ou senso de proteção que desafia tudo e todos. A história se repete. Se antes tínhamos Cuba e URSS, hoje temos Coreia do Norte e China.

Para quem foi bombardeado pela imprensa monotemática com os assuntos incêndio de Santa Maria e Carnaval, a gente atualiza: outro bombardeio vem acontecendo. A Coreia do Norte vem realizando testes com armas nucleares (até agora, oficialmente três) e, apesar de ter sido devidamente advertido, não pretende parar. A ONU, que fecha os olhos para muita merda, está indignada dizendo que a Coreia violou uma série de resoluções e que será punida. A ONU é como se fosse a mãe repreendendo o filho em vão porque não tem coragem de bater nele. A mãe está irritada e está percebendo que o filho não obedece, o próximo passo, todos sabem, é a última cartada: ?Vou chamar o seu pai!? ? no caso, os EUA, que não tem medo de bater.

Estamos diante de uma situação Tostines: a Coreia do Norte diz que está fazendo esses testes porque cansou da hostilidade dos EUA e os EUA dizem que sua hostilidade tem causa nos testes nucleares. Longa história, geraria uma postagem autônoma. Não vou entrar no mérito infantil de ?quem começou?, o desfavor da semana é outro: ninguém está nem aí, ninguém tem nem a curiosidade de pesquisar que merda é essa que está acontecendo.

A merda vai feder. Com a tecnologia moderna é impossível que uma nação realize testes nucleares sem que o resto do mundo saiba: sismógrafos e aparelhos de medição dos mais diferentes tipos monitoram o mundo todo 24h por dia. Detonar uma bomba atômica é algo que causa um certo tremor, não dá mais para fazer escondido. Então, mesmo que a Coreia do Norte tivesse a boa vontade de tentar evitar um conflito, isso não seria possível. O que estamos vendo é uma criança com uma caneta na mão e uma cortina branca na outra e o pai dizendo ?Se você rabiscar essa cortina vai apanhar?. Com a diferença que a criança é psicopata e que quando o pai bate afeta todo o planeta.

O discurso da Coreia é que vai realizar mais dois testes nucleares este ano caso os EUA não atendam seus pedidos. Porém, se realizar um só o caldo já entorna. A Coreia se propõe a não fazer os testes caso os EUA aceitem conversar e rever algumas posturas que a Coreia entende serem interventivas demais. É como se uma namorada quisesse escolher as roupas que o namorado vai usar, contra a vontade dele. O namorado diz que ele se veste como quiser, a namorada diz que a forma como ele se veste também a afeta. Todo mundo tem razão. Ninguém tem razão. Impasse criado. Com a diferença que quando namorados brigam não morrem milhares de pessoas.

O problema é que os EUA não é o tipo de país que se deixe intimidar. ?Ou senta para conversar comigo e me trata diferente ou vou ficar explodindo bombas atômicas, quem sabe até uma em você, seu filho da puta? não é uma das melhores táticas conciliatórias. Em contrapartida, a Coreia do Norte também não está disposta a receber ordens do ?Xerife do Mundo?. É como se um aluno da primeira série estivesse brigando com outro aluno, sabendo que pode chamar um coleguinha de olhos puxados (China) da quarta série para defende-lo se tudo mais der errado. Excesso de confiança de ambas as partes. Dificilmente saia uma conciliação daí.

Para piorar, ambos os países tem um povo patriota o suficiente para ficar emburrecido e apoiar um conflito ou até mesmo uma guerra. Na Coreia do Norte mais de cem mil pessoas se reuniram em um ato para comemorar este último teste nuclear. Sabe, se a Dilma estivesse jogando bombas e isso estivesse irritando os EUA, eu estaria puta da vida torcendo para ela parar, porque vai desculpar, não quero uma guerra no meu país, não quero minha casa bombardeada, não quero meus entes queridos levados a um campo de batalha. Mas os coreanos estão curtindo.

Os EUA, como sempre, estão flertando com os vizinhos e já injetaram capital e tecnologia na Coreia do Sul, que diz ter armamento suficiente para escaralhar a Coreia do Norte se necessário. O grande problema é que os EUA armam outros países até os dentes e muitas vezes o país se volta contra eles, como ocorreu com o Afeganistão. Ninguém é amigo de ninguém, fidelidade bélica não existe. Dar armamento poderoso para qualquer país é dar uma navalha a um macaco. Além disso, a coerência mandou lembranças: reclamam que a Coreia do Norte não pode ter armas nucleares no entanto financiam todo tipo de arma nuclear na Coreia do Sul. Uma versão do ?Eu posso, eu sou homem?, que seu namorado usa para dizer porque ele pode fazer certas coisas e você não. Hipócrita.

Você pode estar se perguntando porque tanto estresse, afinal, já foram realizados testes nucleares duas vezes, porque só na terceira vez os EUA estão faniquitando? Simples. Nas duas outras vezes o armamento nuclear usado era grande e pesado, desta vez foi pequeno e leve. ?Mas Sally, se era pequeno, qual o problema??. O problema é que algo pequeno (e tão potente quanto) pode ser transportado por um míssil e pode chegar nos EUA. Enquanto não podia chegar até os EUA, foda-se, não é segredo que os EUA não se preocupam com o bem estar do mundo, apenas com seu próprio bem estar. Agora a Coreia do Norte pode mandar um presentinho para outros países mais distantes. É hora de pará-los.

Ao ver o caldo ferver até quase entornar, a China, que protege a Coreia do Norte, está começando a se preocupar e tirar o corpo fora. Ninguém quer receber um presentinho dos EUA, perguntem aos japoneses que ainda tem bebês de três olhos em Hiroshima. A China ensaiou um discurso para a Coréia do Norte, uma espécie de ?já chega, né? Já deu o seu show, vamos parar que já está de bom tamanho?. Mas não muito, pois se a Coreia se emputecer e voltar suas armas para a China alegando uma suposta traição, o resultado não vai ser agradável. A China me parece bastante fodida no quadro geral.

A verdade é que o mundo todo está pau da vida com a Coreia do Norte por causa do bullying nuclear que ela anda praticando, mas ninguém tem coragem de dar a primeira porrada, pois o primeiro que bater será aquele que também vai apanhar. A Coreia do Norte está ficando acuada, assustada e sem nada a perder, o que aumenta as chances de que faça uma merda enorme, afinal, quem não tem nada a perder, quem sabe que vai se foder, ao menos quer dar uma fodida no inimigo antes de se emburacar. Todo mundo condena o armamento nuclear da Coreia do Norte mas ninguém sabe ao certo o que ela tem e o que é blefe e muitas das nações ?indignadas? tem armamentos dez vezes mais pesados, só não podem ostentar porque invalidaria suas críticas. Sem contar que, depois do vexame do Iraque, algo como ?o menino que gritava lobo?, os EUA não tem tanta moral para chamar a ONU e ficar apontando quem tem armas nucleares.

De certa forma, parece uma guerra-fria reloaded. Com a diferença que um dos jogadores é Kim Jong-un, completamente piroca da cabeça, um Siago Tomir de olhos puxados e com bomba atômica. Pode não dar em nada, mas pode dar em uma merda enorme e se isso acontecer, o brasileiro médio vai ouvir o galo cantar sem saber onde: todo mundo sabe que tem ?algum estresse? acontecendo ?em uma das Coreias?, mas ninguém sabe porque, ninguém sabe como começou e ninguém sabe os argumentos de cada uma das partes para buscar formar uma opinião. Daí formam uma opinião com base no que ?acham? (simpatia pessoal, chute ou uma pontinha de história mal contada que viram no Jornal Nacional) e se dão por satisfeitos. E repetem com toda a certeza do mundo seu argumento pífio e mal fundamentado.

A história está acontecendo neste exato momento, na frente dos nossos olhos. A mesma história que dentro de cinquenta anos estará escrita em livros (toda errada) e será ensinada a nossos netos. Uma pena não prestar atenção ao que está acontecendo, uma pena não ser capaz de formar uma opinião embasada. E acima de tudo, uma pena que a maior parte das pessoas não conheçam o Desfavor, que mastiga tudo e cospe na sua boca para que o leitor esteja sempre fazendo bonito.

Obs: Para vocês, queridos leitores, que se chateiam quando a gente fala de política internacional, um mimo: Isis Valverde não paga estacionamento do shopping onde fica sua academia, cola no carro da frente e acelera, passando pela cancela sem pagar. Romário não gosta de homem nem de traveco, mas se amarra em um fio terra feito por mulher. Bel Marques (vocalista daquela desgraça chamada Chiclete com Banana) é o maior caloteiro, não comprem nada dele. Pronto, compensei as duas páginas de política internacional. Beijo.


Para pedir que a gente explique em detalhes o estresse Coreia x EUA, para pedir que eu faça uma coluna fixa só de fofocas sórdidas ou ainda para fazer trocadilhos ordinários com a palavra ?bombando?:  sally@desfavor.com

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SOMIR

Não ousem reclamar do tema, a Coréia do Norte sempre vai ser relevante para nossa República Impopular. Para quem ainda não percebeu, nossa bandeira é copi? inspirada na do país mais surreal deste planeta.

A Coréia do Norte é uma ditadura baseada em culto de personalidade para (alegadamente) proteger seu povo da tirania e alienação do resto do mundo. Nós da RID somos uma ditadura baseada em culto de personalidade para proteger nosso povo da tirania e alienação do resto do mundo! A diferença é que nós estamos cientes da ironia. Essa é a piada, oras?

Mas no quadro geopolítico mais tradicional, esse humor cai diante de ouvidos moucos. De uma certa forma, Coréia do Norte e Estados Unidos se acusam basicamente das mesmas coisas, há décadas. E é inocência se negar que há um fundo de razão em ambos os lados. Controle da população pela mídia, com forte apoio da máquina pública? Ambos culpados. Violações aos direitos humanos? Quem tem Guantanamo no currículo nunca vai poder apontar para os outros impunemente (só para começo de conversa). Militarização excessiva drenando recursos que poderia ser utilizados para corrigir problemas sociais sérios? Também vale para os dois países?

Entendam que não é uma comparação literal, existem trilhões de dólares de diferença na vida real, modelos de organização social bem distintos, liberdade de expressão e tudo o mais? Mas na hora de trocar acusações, quase sempre os dois países caem na categoria do cu sujo falando do rabo mal lavado.

A questão nuclear sendo mais um exemplo: Um país com arsenal nuclear para tornar o planeta em um grande deserto de cinzas dando chilique por causa de um teste nuclear? Seria cômico se não fosse trágico. O máximo que se conseguiu para desarmar a Guerra Fria foi um acordo de não proliferação nuclear: Quem tem, tem, quem não tem, azar. É compreensível que vários países se sintam sacaneados por essa discrepância de poder bélico, mas? daí a ser justificável produzir bombas atômicas? Não nos apressemos.

Bombas atômicas são tão ?apelação? que a humanidade ? raça que fez absolutamente de tudo para se matar durante milênios ? percebeu que não era lá uma grande ideia continuar essa corrida armamentista. Sem entrar no mérito ético/humanista da questão, as bombas atômicas disparadas no Japão viraram sinal de PARE em meio a maior guerra já travada no planeta! Tem noção de quanto isso significa?

Num mundo ideal, ninguém deveria ter tanto poder a seu dispor, mas as coisas são como são e não vejo um alienígena de colante azul e capa vermelha levando todas as armas nucleares diretamente para o Sol no nosso futuro? Temos que lidar com elas. Tarefa já complicada considerando os países que já as tinham quando os tratados começaram a vigorar? Com Coréia do Norte entrando de vez no jogo, (E dessa vez os relatos são de que a bomba não foi a porquice habitual, mas uma daquelas pequenas e poderosas que realmente podem fazer estrago pegando carona num míssil), o grau de imprevisibilidade sobe consideravelmente.

Estamos vivendo numa sociedade que provavelmente não vai se auto-destruir tão fácil, mas provavelmente ainda não é uma palavra segura quando se trata de bombas capazes de aniquilar milhões. E a própria natureza hipócrita do atrito entre EUA e Coréia do Norte garante que nenhuma decisão muito contundente em direção à paz deve ser tomada num futuro próximo.

Claro, o Coréia está mais falida que a ética em Brasília, mas esperar pelo resultado de uma guerra de atrição econômica que já dura algumas décadas não parece tão animador assim. Pyongyang está vendendo o almoço para pagar o Urânio, mas o povo local dificilmente vai se rebelar. Uma verdade inconveniente é que o regime dos ?Kims? conseguiu um grau de domínio sobre seu povo que o pessoal de Washington só sonhou até hoje. Num país onde mal chega a internet, é muito complicado tentar qualquer manobra de assimilação cultural (Bateu vontade de jogar Civilization agora?).

A não ser que os americanos resolvam aplicar mais uma manobra de ?democracia ou chumbo? mandando seus exércitos para lá, a Coréia do Norte vai continuar suficientemente segura para a proliferação de seu programa nuclear. E até por isso, a cada dia que passa fica mais arriscado tentar qualquer coisa do tipo. Eu enxergo a situação mais ou menos como uma pessoa lidando com um escorpião do outro lado da sala? Claro, a pessoa tem uma vantagem incrível se resolver esmagá-lo, mas uma vacilada pode custar caro.

Se na Guerra Fria o duelo se mantinha estável porque ambos os lados tinham muito a perder, agora estamos vendo a guerra mais ganha da história (ganhar a guerra é uma coisa, dominar o território é outro, claro?) não acontecer porque não vale a pena lutá-la. Não é medo de perder, é medo de ganhar! A Coréia do Norte é um problema grande demais para lidar? A China morre de medo que os EUA ataque, não porque gosta tanto assim de seus vizinhos, mas porque sabe que vai receber milhões e milhões de refugiados.

O desfavor? Oras, o desfavor é que eventualmente se esgotam as opções. Ou um dos países admite que está sendo hipócrita com o antagonismo, ou chega uma hora que alguém PRECISA pisar no escorpião, provavelmente sem uma justificativa muito boa. E historicamente, esses não são os momentos mais orgulhosos da humanidade.


Para se sentir envergonhado(a) por não ter percebido a bandeira até hoje, para reclamar que achou o assunto chato (que interessante!), ou mesmo para dizer que a Coréia do Norte não vai durar porque nunca que o Kim atual vai conseguir fazer filho:  somir@desfavor.com