Uma mosca que pousa no alimento descoberto, mãos mal lavadas que manuseiam as verduras da salada ou um espirro sobre a comida em preparo, podem não parecer risco para a maioria das pessoas que lidam com alimentos. Invisivelmente, porém, inúmeros microorganismos patogênicos são assim disseminados, representando maior ou menor ameaça à saúde do comensal.

Há milhares de casos de morte, relatados na literatura internacional, devidos à contaminação dos alimentos por substâncias químicas tóxicas ou bactérias patogênicas, por sua vez provocadas por má higiene alimentar ou descuido no preparo e fabricação do alimento. Muitas verminoses e protozooses são causadas pela ingestão de formas infectantes através de alimentos mal higienizados. Muitas pessoas encontram-se doentes pela desatenção a este importante fator, ignorando completamente a causa: o alimento contaminado. (Boarim, 361)

Por isso, a ciência com a ajuda dos pesquisadores e profissionais de diferentes áreas, como zootecnistas, veterinários, microbiologistas, químicos, médicos, farmacêuticos e agrônomos vem desenvolvendo ao longo do tempo, inúmeras técnicas para analisar e controlar a qualidade dos alimentos. E para isso foram desenvolvidos inúmeros equipamentos para facilitar o exame dos alimentos e diminuir o alto índice de contaminações alimentares que provocam inúmeras mortes e doenças no mundo.

Nos países avançados, à todo momento, novos laboratórios são construídos, com técnicas cada vez mais aperfeiçoadas para controlar a qualidade dos alimentos e inclusive impedir a fraude promovida por industriais e produtores inescrupulosos apenas interessados no lucro fácil obtido com a comercialização de alimentos de baixa qualidade e muitas vezes seriamente contaminados, colocando em risco a saúde da população e gerando custos elevados para os serviços médicos.

Apenas no Brasil, um laboratório analítico, de alto nível tecnológico e científico, fundado em 1938, no bairro do Maracanã, no Rio de Janeiro, conhecido como LANAGRO, está sendo desmontado e sucateado para ser substituído por um estacionamento de automóveis e aumentar a mobilidade na saída dos espectadores do estádio do Maracanã durante a Copa do Mundo de 2014. E, pasmem, toda essa destruição do patrimônio público, em função de apenas dois jogos do Campeonato Mundial de Futebol!

A cada ano, mais de 2 milhões de norte-americanos têm doenças causadas por ingestão de alimentos. Nos Estados Unidos, o número real de casos de intoxicação alimentar é muito superior ao número de casos notificados, pois a maioria das pessoas interpretam erroneamente os sintomas de intoxicação alimentar, acreditando se tratar de uma gripe que ataca os intestinos. Na verdade, até 275 milhões de casos de diarréia notificados anualmente nos Estados Unidos estão diretamente relacionados à ingestão de alimentos. (Balch, 415)

No Brasil a realidade não é diferente. Talvez os números sejam maiores ainda. As curvas são sempre ascendentes, porque torna-se cada vez maior o número de pessoas que tomam suas refeições em restaurantes e cantinas, ou que adquirem alimentos preparados por grandes firmas, os quais, uma vez contaminados, podem levar a infecção a incalculável número de indivíduos. (Veronesi, 431)

Não conhecemos dados estatísticos que permitam a avaliação global do problema no Brasil, mas sabemos ser freqüente, por exemplo, a salmonelose do adulto e alguns trabalhos indicam o mesmo para a criança. Nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná ou no Rio de Janeiro, as salmonelas são responsáveis por 4 a 15% das diarréias infantis. (Veronesi, 431)

A industrialização e a tecnologia dos alimentos, em princípio, tem como objetivo atender à demanda cada vez maior de alimentos, em virtude do aumento populacional. Portanto, visam a aumentar, a oferta de alimentos, estabilizar preços, evitar perda de safra através do aproveitamento industrial da produção e aumentar a vida útil dos alimentos. Lamentavelmente, porém, temos, em inúmeros casos, testemunhado notória depreciação e distorção destes fins sociais válidos. Não raro, a produção é compelida exclusivamente por fatores de ordem comercial. Até fins do século XIX, o mercado oferecia perto de 1.800 variedades de alimentos. Hoje presenciamos um verdadeiro boom de lançamentos alimentícios: 15.000 varidades, aproximadamente. Muitos desses produtos foram lançados sem qualquer razão nutricional. Alguns oferecem apenas ?calorias vazias?: tem açúcar, muito açúcar, e só. Muitos são tratados com aditivos químicos (muitos deles comprovadamente cancerígenos), acerca dos quais ninguém pode garantir total segurança. Hoje utilizamos apreciável quantidade de conservas, latarias, embutidos, engarrafados, produtos de preparo instantâneo e beneficiados, etc. Diversos artigos naturais, consumidos no passado foram substituídos pela forma industrializada ? mais prática e fácil de preparar. (Boarim, 21)

As predileções do comensal tem de ser conquistadas a qualquer custo. (Boarim, 22)

Obviamente a fundação, em cada País, de centros técnico-científicos supervisores e deliberativos, destinados à pesquisa e ao controle de contaminações alimentares, tem sido considerada unanimemente como medida indispensável na campanha para a sua erradicação. Infelizmente, aqui no Brasil, acontece exatamente o contrário: os laboratórios são fechados. (Veronesi, 461)

O renomado médico e romancista Robin Cook no posfácio de seu livro ?Toxina?, reconhece que um requisito básico na busca da felicidade e de uma vida saudável, e o mínimo necessário para a boa saúde são água limpa e comida livre de contaminação. Nossa civilização tem evoluído no controle da qualidade da água que consumimos e apontou possíveis soluções. Tragicamente, em relação à comida, a situação é inversa. Depois de um progresso tecnológico significativo em relação à preservação de alimentos, particularmente em relação à refrigeração, começamos a retroceder em função da crescente demanda e da pressão pela queda de preços. Técnicas modernas de criação animal desenvolveram na verdade novas e aterrorizantes formas de contaminação que ameaçam expandir-se. É um problema que exige a máxima atenção das autoridades competentes. (Cook,381)

O problema é que no Brasil, as autoridades sanitárias não são competentes ...

(*) Douglas Carrara, antropólogo indigenista, professor, escritor, pesquisador, autor do livro Possangaba - O Pensamento Médico Popular.

Veja o video no You Tube
 http://www.youtube.com/watch?v=kq5y5Wtl4tU&feature=youtu.be

Bibliografia:

BALCH, James F. & Phyllis A. BALCH:
1995 ? Receitas para a Cura Através de Nutrientes ? Ed. Campus ? Rio de Janeiro ? 730 p.

BOARIM, Daniel S. F. (1963- ):
1991 ? Nossa Comida Assassina ? Ed. Vida Plena ? Itaquaquecetuba ? 397 p.

COOK, Robin (1940- ):
2005 ? Toxina ? Ed. Record ? Rio de Janeiro ? 381 p.

COURTINE, Robert J. (1910-1998):
1969 ? L?Assassin est à votre Table ? Ed. La Table Ronde ? Paris ? 240 p.

EVANGELISTA, José:
1992 ? Alimentos ? Um Estudo Abrangente ? Ed. Atheneu ? São Paulo ? 476 p.

HOBBS, B. :
1971 ? Higiene y Toxicologia de los Alimentos ? Ed. Acribia ? Zaragoza ? España - 310 p.

ROBERTS, Paul (1961- ):
2009 ? O Fim dos Alimentos ? Ed. Campus/Elsevier ? Rio de Janeiro ? 364 p.

VERONESI, Ricardo (1919-2004):
1969 ? Doenças Infecciosas e Parasitárias - Ed. Guanabara Koogan ? 4a. Ed. - Rio de Janeiro ? 1095 p.

WERNER, David (1934- ):
1984 ? Onde não há Médico ? Ed. Paulinas ? 6a. Ed. - São Paulo ? 416 p.