---------------------

 MG TV, 2ª edição, Belo Horizonte, 22/08/1990

 Esquadrão do Torniquete

 Todas as vítimas foram sequestradas por bairros cortados por esta avenida, a Cristiano Machado, na zona norte de Belo Horizonte, e os corpos encontrados numa mesma área, a BR-262 e as estradas que ligam a BR às cidades de Santa Luzia e Sabará. Os criminosos não tem preocupação em esconder os corpos: eles são abadonados nos acostamentos das estradas, sempre no domingo ou madrugada de segunda-feira. Adão de Souza Silva foi o primeiro a er morto. Nas semanas  seguintes, a polícia encontrou mais seis corpos. O inquérito já foi aberto pela polícia militar para apurar a participação de policiais no esquadrão do torniquete.

Militar entrevistado: ?No presente momento a gente não pode indiciar nenhum militar, mas também não tem condições de encerrar o procedimento.?

A polícia civil também investiga os crimes do esquadrão do torniquete. Já se sabe que nenhum dos mortos tinha antecedentes criminais: todos eram trabalhadores. O encarregado dos investigações na polícia civil, delegado Otto Teixeira, mostrou o que é e como se usa um torniquete. A polícia já fez o retrado falado de três suspeitos, com base no depoimento de testemunhas.

Delegado Otto Teixeira: ?Realmente houve alguns indícios de participação tanto da polícia militar como também  de elemento da polícia civil. Isso nós estamos levantando e, seja de qual área for, o elemento será apresentado e será processado.?

 Vídeo [1:26]

 ---------------------

Jornal da Alterosa, 1ª edição, Belo Horizonte, 17/11/2011

Matadores do Esquadrão do Torniquete estão impunes até hoje?

1990. Uma sequência de assassinatos por estrangulamento com o uso de um torniquetes. Uma sociedae assustada. Quatro homens acusados: Wanderley Almeida Soares e Joaquim Coura Filho, taxistas; Jaime da Silva Matos, policial militar; e Amantino Severo dos Santos, policial civil.

Amantino Severo dos Santos: ?Não houve ampla defesa nessa situação. Houve um lado do Estado, da Força Maior, da Polícia, da Autoridade, mostrando a situação. Fizeram uma bagunça tremenda em cima do fato, que não estava sendo apurado.?

Delegado Otto Teixeira Filho: ?As provas estão nos autos. Estão lá. E juiz nenhum iria condenar sem provas.?.

O delegado João Reis foi quem começou as investigações do que inicialmente foi considerado como latrocínio, roubo seguido de morte. Ele afirma que o depoimento de uma prostituta também ajudou na identificação dos acusados.

Delegado João Reis: ?Contou da participação. Inclusive o Coura, nós não sabíamos nem quem era Coura. Ela falou: ?É um motorista de táxi, baixinho, assim e assim?. Pegamos o Coura. Levamos o Coura até a delegacia. Ouvimos o Coura primeiro. O Coura abriu igual mala velha. Quer dizer, habilidosamente interrogado também. Ele confessou tudo, tudo.?

Sílvio Gomes, advogado do Amantino: ?Joaquim Coura apareceu como um Judas. Quer dizer, os depoimentos que ele prestava, sob aquela coação, de forma assim que, no outro dia, ele desmentia, mas o que tinha dito já estava ali.?

Luiz Adolfo, advogado de Jaime: ?Esses dois meninos policiais, um militar e o outro civil ? o Jaime Matos era inclusive um destacado policial militar ? eles eram entusiasmados com o trabalho que eles faziam e faziam blitzes pessoais.?

Amantino Severo dos Santos: ?Nunca participei disso, não?.

O processo foi composto por cerca de mil páginas. A história está toda aqui. 37 crimes foram investigados. No final das apurações, o esquadrão do torniquete foi condenado por 5 crimes: sob acusação de homicídio qualificado e formação de quadrilha. Os integrantes passaram cerca de 13 anos na prisão e conseguiram a liberdade recentemente por benefícios da legislação. Apenas Wanderley Almeida morreu na cadeia. Ele passou 4 anos na prisão e teve uma tuberculose em decorrência da aids. Joaquim Coura foi para Goiânia depois de ganhar a liberdade e morreu de enfarto. O advogado que defendeu os dois disse que eles eram homens simples que envolvidos nos crimes por fazer favores aos policiais.

Marco Antônio Siqueira, advogado de Wanderley Almeida e Joaquim Coura: ?Pessoas humildes, pessoas simplórias e que na época, muito envolvidos com alcoolismo, e procurando de alguma forma agradar policiais, eles, às vezes, utilizam o táxi para fazer alguns favores, em trabalhos que policiais faziam se dizendo policiais em horário de folga, trabalhando como polícia velada.?

Amantino Severo dos Santos e Jaime da Silva Matos cumpriram pena na Casa de Detenção Dutra Ladeira. O ex-policial, modelo do 22º Batalhão, perdeu a patente porque foi excluído e agora é pastor. Amantino vai se formar em Direito.

Antônio Sérgio Tonet, procurador da Justiça: ?Quando nós fechamos e terminamos o caso alguns anos depois, eu tive a sensação de dever cumprido, mas não inteiramente cumprido. Por quê? Poucos processos foram finalizados. O grupo era maior. Tinha mais pessoas envolvidas. Tinha mais policiais, tanto da polícia militar quanto da polícia civil, envolvidos.

Marco Antônio Siqueira, advogado de Wanderley Almeida e Joaquim Coura:?Eu digo até hoje não se sabe realmente quem são as pessoas que eventualmente teriam praticado esses crimes.?

Repórter: ?Torniquete, com essa expressão, não existiu. Você não conhece.?

Amantino Severo dos Santos: ?Não conheço. Gostaria que alguém me apresentasse quem foi esse pessoal realmente e me mostrasse os crimes e as provas, o que realmente aconteceu.?

Vídeo [4:15]

---------------------

Jornal da Alterosa, 1ª edição, Belo Horizonte, 16/11/2011

Ex-policial condenado fala pela primeira vez do Esquadrão do Torniquete

Delegado João Reis: ?A motivação deles era covardia?.

Delegado Otto Teixeira Filho: ?Eles saíam nos táxis, pegam as pessoas, matavam com o torniquete e abandonavam lá.?

Os crimes foram na década de 90. Mobilizaram pela primeira vez uma força-tarefa, composta por policiais civis, militares e Ministério Público.

Delegado Otto Teixeira Filho: ?Ninguém mais saía à noite. A cidade parou, nessa região dali. Parou. Ninguém tinha coragem de sair à noite.?

As investigações levaram a 4 homens: Wanderley Almeida Soares e Joaquim Coura Filho, taxistas; Jaime da Silva Matos, policial militar; e Amantino Severo dos Santos, policial civil. 20 anos depois de se sentar no banco dos réus, o homem apontado como matador do esquadrão do torniquete, condenado neste tribunal a mais de 120 anos de prisão, voltou a ter o direito de andar livre pelas ruas. Ele recebeu indulto para o restante da pena e pela primeira vez fala sobre a acusação que recebeu. Ele hoje trabalha no escritório de advocacia: está se formando em Direito. Amantino Severo dos Santos pediu para gravar a entrevista de costas: ele não quer aparecer para não ser ligado a sombras do passado. Amantino, a primeira pergunta que eu vou te fazer é: você se diz hoje culpado ou inocente das acusação que lhe foram feitas?

Amantino Severo dos Santos: ?Sou inocente. Eu não tenho nada para confessar. Não tem fato que eu realmente pudesse falar assim: ? eu realmente estou envolvido, eu estou preso porque eu realmente estou pagando uma coisa que eu devo?. Hoje em dia eu paguei por uma pena que eu realmente nunca cometi, um fato que eu nunca cometi.?

Mas os detalhes estão no depoimento de Joaquim Coura Filho, que também foi acusado dos crimes. Ele diz como as vítimas eram abordadas e executadas.

Depoimento de Joaquim Coura: ?O Amantino e o Jaime se indentificavam como policiais... Colocavam as vítimas no banco de trás, levando-as para local ermo, onde as matavam...?.

E descreve como uma delas foi rendida e morta.

Depoimento de Joaquim Coura: ?Atendida a determinação, a vítima assentou-se no banco traseiro entre os denunciados Jaime e Amantino. Em seguida, seguiram de carro em direção à estrada MG-20, sentido Santa Luzia. Naquele local a vítima foi retirada do automóvel por Jaime e Amantino... E mataram-no por asfixia, utilizando-se de uma corda de nylon presa a um pedaço de madeira. Chamado de Torniquete.?

Antônio Sérgio Tonet, procurador da Justiça: ?Uma vítima conseguiu escapar. E essa vítima veio a identificar os integrantes.?.

Amantino fica nervoso com as lembranças. Ele nega quase tudo que o processo apontou. Admite apenas um desacerto com a testemunha José Francisco: foi ele quem denunciou o grupo, depois de ter sido abordado e agredido.

Amantino Severo dos Santos: ?Inclusive eu não neguei para o juiz o fato de ter acontecido o fato com o José Francisco. Não neguei.

Repórter: ?Vocês nunca brincaram pelo menos assim: ?somos o esquadrão???

Amantino Severo dos Santos: ?Não, não brincaram. Nunca usei essa palavra. Não conhecia esse fato que até então desconhecia. Nunca usei esse termo. Isso, para mim, eu tenho vergonha dessas pessoas que fazem isso.?.

Rua Guaicurus, zona boêmia de Belo Horizonte. De acordo com as investigações, era este o palco de planejamento dos crimes. O grupo se encontrava neste bar que fica na esquina com rua São Paulo e que se chamava ?Leiteria?. Aqui, depois de passar horas bebendo e conversando, o grupo vinha até o táxi que era dirigido por Wanderley ou Joaquim, e era chamado de ?viatura?. Eles entravam e saíam para fazer a rota da noite.

Amantino nega que tivesse amizade com os outros acusados e diz que viu os taxistas pela primeira vez na delegacia.

Amantino Severo dos Santos: ?Foi o dia que pela primeira vez eu vi aquela pessoa ali, que até então usou, foi usada. Porque eles tiveram tratamento que não tem outra opção de estar falando como eles queriam que falassem.?

Repórter: ?Você acha que eles foram forçados??

Amantino Severo dos Santos: ?Não sei como. Para quem saber ler, o pingo é letra. Eles não tiveram outra condição.?

Amantino também nega que fizesse blitzes pessoais com o amigo Jaime.

Amantino Severo dos Santos: ?Nunca participei disso, não. Eu nunca participei, que eu, veja bem, o fato de ter o Jaime próximo da região, não tinha nada a ver com ele, que era grupo de militar. O fato de ter o Joaquim, eu não conhecia até então. O fato de ter o Wanderley, até então eu não conhecia o Wanderley. A não ser o problema do José Francisco. Fora disso não tem nada a dizer.

O ex-policial aponta falhas no processo: ele afirma que outros crimes com o uso do torniquete aconteceram depois que o grupo foi preso.

Amantino Severo dos Santos: ?Eu li essa matéria falando no presídio. Eu li essa matéria.?

Repórter: ?O que essa matéria falava??

Amantino Severo dos Santos: ?Ela falava sobre fato que estava acontecendo. Saiu uma matéria bem assim, minúscula. Porque, falava que o grupo já estava preso, não tem como falar assim. Teve um período de 3 ou 4 anos, fiquei tentando mostrar documento, carta para autoridades, nunca fui ouvido, nunca.

Repórter: ?Você apelou para a Justiça??

Amantino Severo dos Santos: ?Apelaram, mas a minha situação, a apelação não tinha, eles queriam resposta.?

Ele entrou com recurso na Justiça contra a condenação enquanto estava preso, mas o Ministério Púbico manteve a pena. Amantino, agora, quer esquecer o passado.

Amantino Severo dos Santos: ?Pleitear algum bom para mim, porque eu preciso viver. Mas da Justiça hoje em dia não tenho muito a esperar em relação ao fato que se sucedeu comigo, eu não tenho muito a esperar, não.

Vídeo [5:40]

---------------------

Conferir também

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [I]

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [II]

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [III]

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Cravo Vermelho e Bombril) [IV]

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Grupo Reação) [V]

Esquadrões da Morte em Belo Horizonte (Esquadrão do Torniquete) [VI]