O COMETA YOANI
A passagem da ativista política cubana, Yoani Sanchez, pelo Brasil foi marcada por um show de lucidez, objetividade e coragem, virtudes raramente encontradas em políticos brasileiros, inclusive nos da oposição. Questionada sobre a real situação de Cuba, a blogueira não desperdiçou palavras nem argumentos. De forma objetiva, confirmou tudo o que já sabíamos: em Cuba não existe democracia, os direitos humanos são desrespeitados, inexiste liberdade de expressão e associação, e a situação econômica é de crise crônica, mantendo o país num estado de pobreza permanente.

A breve e produtiva permanência da militante cubana foi suficiente para desmascarar as mentiras e os mitos insistentemente propagados pelos defensores brasileiros do regime de Fidel Castro, como os de que os sistemas de educação e de saúde da Ilha são de primeiríssima qualidade.

Segundo Yoani, a farsa da ?saúde perfeita? não resiste à constatação de que, apesar dos avanços tecnológicos e científicos em determinadas especialidades, nos hospitais faltam instrumentos e medicamentos básicos, como seringas, esparadrapos, soro fisiológico e até aspirinas. O mito da ?educação perfeita? é também colocado por terra sob o argumento de que a alfabetização maciça da população só teria sentido se, o governo que alfabetiza, permitisse o acesso aos livros, jornais, internet, enfim, ao mundo da diversidade das idéias.O que não acontece.

A ativista também bombardeou outro mito, este sustentado por democratas, de que o bloqueio econômico norte-americano à Cuba pode conduzir ao enfraquecimento e à queda do regime. O prolongamento da ditadura de Fidel e Raul por tantas décadas, por si só, depõe contra essa tese. Para Yoni, apenas a suspensão do embargo poderá estabelecer um novo clima social e econômico que levará, fatalmente, ao fim do regime.

Yoani Sánchez concorda que uma luz liberalizante se projeta na escuridão de Cuba, em parte porque o regime comunista, pressionado, foi obrigado a tomar algumas medidas nesse sentido, em parte porque a nova geração de cubanos se mira no exemplo da Primavera Árabe. São ainda incipientes as manifestações pela abertura do regime e pelo retorno à democracia, mas elas existem , e Yoani verbaliza, com lucidez, essa tendência.

Talvez, por isso, a sua permanência no país tenha provocado tanta alergia em alguns setores da esquerda tupiniquim, cujas manifestações grosseiras cercearam a liberdade de expressão da cubana. Muito mais do que falta de civilidade, as manifestações tipicamente fascistas demonstraram claramente que essa gente é tão retrógada quanto os irmãos Castro, e ainda não conseguiu atravessar o entulho do Muro de Berlim, derrubado em 1989.

As afirmações de que Yoani seria agente da CIA e estaria à serviço do imperialismo norte-americano são ridículas demais para merecer qualquer consideração. Mais grave, foi a denúncia de que essas e outras acusações caluniosas estariam contidas num dossiê montado na Embaixada de Cuba, e respaldada por membros do governo brasileiro. Como troco, o governo petista não escapou da artilharia certeira de Yoani, tanto pela amizade e apoio que dedica à ditadura comunista, quanto pelo silêncio em relação ao sistemático desrespeito aos direitos humanos na ilha dos irmãos Castro.

Enfim, a passagem do cometa Yoani foi positiva no sentido de colocar um pouco de luz sobre a situação de Cuba. Ela o fez com tanta transparência e altivez que nem os gritos da militância fascista conseguiu abafar.Continuando o seu périplo por outros países da América e da Europa, Yoani Sanchez poderá fazer pela queda da ditadura cubana o que, talvez, ninguém tenha feito, até agora.
250213